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Ela é russa, ele é ucraniano. Juntos vão dar um concerto no Luxemburgo para ajudar refugiados
Sociedade 3 9 min. 28.04.2022
Solidariedade

Ela é russa, ele é ucraniano. Juntos vão dar um concerto no Luxemburgo para ajudar refugiados

Alena Baeva, violinista russa, e Vadym Kholodenko, pianista ucraniano, são casados e atuam juntos em concertos para ajudar os refugiados.
Solidariedade

Ela é russa, ele é ucraniano. Juntos vão dar um concerto no Luxemburgo para ajudar refugiados

Alena Baeva, violinista russa, e Vadym Kholodenko, pianista ucraniano, são casados e atuam juntos em concertos para ajudar os refugiados.
Foto: Facebook
Sociedade 3 9 min. 28.04.2022
Solidariedade

Ela é russa, ele é ucraniano. Juntos vão dar um concerto no Luxemburgo para ajudar refugiados

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Alena Baeva, violinista russa, e Vadym Kholodenko, pianista ucraniano, são um casal e dois nomes conceituados da música clássica. Juntos vão dar um concerto solidário, esta sexta-feira, no Banque de Luxembourg, para ajudar os refugiados que fugiram da guerra na Ucrânia para o Grão-Ducado.

Ela domina as cordas do violino. Ele brilha nas teclas do piano. Ela nasceu na União Soviética, em 1985. Ele nasceu em Kiev, na então República Soviética da Ucrânia, no ano seguinte. Conheceram-se em 2005, no Conservatório de Moscovo, onde estudaram juntos. Ela tinha 19 anos, ele 18. Mas o amor chegou mais tarde, ao som de uma paixão comum: a música clássica.

Esta sexta-feira, às 19h, vão tocar no Banque de Luxembourg, num concerto organizado pela Ruhelp, uma associação sem fins lucrativos criada por um grupo de amigos russos no Grão-Ducado.

O bilhete custa 40 euros (reservas para o número +352621546637), mas as pessoas podem doar o valor que quiseram, uma vez que todo o dinheiro angariado será revertido para as organizações que apoiam os refugiados ucranianos. "O nosso objetivo é aumentar as doações para ajudar as famílias ucranianas que tiveram de fugir devido às atrocidades causadas pela guerra e chamar a atenção para um facto importante: uma grande parte da comunidade russa no Luxemburgo condena fortemente a invasão da Rússia e esta guerra inimaginável na Ucrânia", afirmaram ao Contacto Alena e Vadym.  

Vadym Kholodenko e Alena Baeva
Vadym Kholodenko e Alena Baeva
Foto: DR

Alena Baeva e Vadym Kholodenko estão casados desde agosto de 2019 e vivem no Luxemburgo. Tocam juntos há mais de 10 anos e dão concertos em dueto sempre que a agenda de ambos o permite, uma vez que estão constantemente a viajar. São dois nomes conceituados da música clássica.

Ela, aos 37 anos, é considerada uma das solistas mais versáteis do mundo. Venceu inúmeros prémios, entre os quais o Grande Prémio no 12º Concurso Internacional Henryk Wieniawski, em 2001, com apenas 16 anos. Venceu também o Grande Prémio no Concurso Internacional Niccolò Paganini de Moscovo, em 2004, e a Medalha de Ouro e o Prémio do Público no Concurso Internacional de Violino Sendai, em 2007. Em 2005, foi finalista e laureada no Concurso Rainha Elisabeth.

Ele tem 35 anos e foi o primeiro músico da sua família. Atuou pela primeira vez nos Estados Unidos, China, Hungria e Croácia com apenas 13 anos. Em 2005, mudou-se para Moscovo para estudar no Conservatório. Venceu a medalha de ouro no XIV Concurso Internacional de Piano Van Cliburn, no Texas, em 2013. A sua 'cadenza' no Concerto nº 21 em Dó Maior de Mozart, que escreveu durante uma viagem de avião, foi muito elogiada, sendo reconhecido como um "super artista".

Russos no Luxemburgo condenam a guerra

Mais recentemente, o casal tem atuado numa série de concertos de caridade para ajudar os refugiados ucranianos em diferentes países, seja em dueto ou com outros músicos. Na semana passada, deram um espetáculo em Paris. Esta sexta será no Grão-Ducado.

Foto: Facebook

Milhões de pessoas na Rússia têm estado cegas durante anos e não pensam de forma crítica. Seguiram propaganda muito perigosa e agora afundaram-se na agenda fascista do regime de Putin.

Vadym Kholodenko e Alena Baeva

O casal russo-ucraniano considera que neste momento "é importante transmitir uma mensagem de que a Ucrânia precisa de ajuda e se protege legitimamente contra a loucura coletiva de um vizinho". "Acreditamos também que nenhum passaporte ou nacionalidade pode determinar o tipo de pessoa. Milhões de vidas de pessoas que vivem na Ucrânia foram destruídas e isto não deveria ser permitido no século XXI", lamentam.


Juliet Ostretsova e Ilia Ostretsov são russos e ajudaram a trazer 19 refugiados ucranianos para o Grão-Ducado.
Casal russo ajudou a trazer 19 refugiados ucranianos para o Luxemburgo
Um casal russo que vive no Luxemburgo decidiu ajudar os ucranianos que estão a fugir da guerra. Ilia e Juliet organizaram uma viagem até à fronteira polaca e trouxeram 19 refugiados para o Grão-Ducado.

Alena e Vadym lembram ainda que "milhões de pessoas na Rússia têm estado cegas durante anos e não pensam de forma crítica, seguiram propaganda muito perigosa e agora afundaram-se na agenda fascista do regime de Putin". Por isso, "não é preciso ser ucraniano para compreender o que está a acontecer", apontam. "Da mesma forma, ser cidadão russo não faz da pessoa uma apoiante do regime criminoso".

Os músicos dizem que estão a lidar com a situação de forma "muito pessoal" e querem apoiar os ucranianos que são vítimas da guerra. "Estamos prontos para fazer tudo para ajudar aqueles que mais sofrem com a agressão de Putin - pessoas que foram agredidas de forma deliberada e perderam tudo durante os últimos dois meses", garantiram.

Um período "mentalmente difícil" para o casal

Alena e Vadym vivem no Grão-Ducado com os três filhos e são felizes no país. "A nossa relação baseia-se fortemente na nossa paixão comum - a música clássica. Além da música, contemplamos normalmente a arte, literatura e formas cúbicas. Amamos o Luxemburgo e a sua bela natureza, a comunidade internacional e os fortes valores humanos e éticos", contam.

No entanto, os últimos meses têm sido particularmente complicados para o casal, devido à guerra na Ucrânia. "Para nós é mentalmente muito difícil passar por este período. No entanto, estamos a apoiar-nos mutuamente e a manter a nossa música", explicaram. Vadym nasceu e terminou a escola em Kiev e a sua mãe ainda lá vivia até ao início de março. "A última vez que visitámos Kiev foi em junho de 2021, com a nossa filha recém-nascida, e este foi o momento mais maravilhoso", recorda o casal.

Só podemos esperar que os nossos compatriotas e as suas famílias possam desfrutar uma vez mais de uma vida pacífica. A Ucrânia será livre.

Vadym Kholodenko e Alena Baeva

Como Alena não sabe a língua ucraniana, ela falava russo e inglês, mas "não encontrou nenhuma atitude pouco amigável", asseguram. "As pessoas de lá eram felizes, amáveis, viviam bem e nós adorávamos o ambiente. O que é mentalmente difícil é ver quão rapidamente a propaganda pode tornar agressivas algumas pessoas na Rússia que conhecíamos pessoalmente e que nos pareciam decentes".

Dois meses após o início da invasão russa à Ucrânia, Alena e Vadym sentem que "não há esperança para falar sobre o futuro". "No entanto, cuidaremos também das outras gerações - na nossa família cuidamos de três filhos e dos nossos pais. Estamos a construir o mundo onde todos eles se devem sentir protegidos", afirmaram.

Sobre o fim da guerra, o casal diz que não existe nada mais do que "meras especulações". "Só podemos esperar que os nossos compatriotas e as suas famílias possam desfrutar uma vez mais de uma vida pacífica na Ucrânia o mais depressa possível. A Ucrânia será livre".

Uma organização para ajudar ucranianos e russos

O concerto desta sexta-feira de Alena e Vadym será o primeiro grande evento da Ruhelp, uma organização sem fins lucrativos criada recentemente no Luxemburgo por quatro amigos russos. Um dos fundadores é Ilia Ostretsov, 37 anos, que no início de março viajou até à fronteira na Polónia para ajudar a trazer 19 refugiados para o Grão-Ducado. 

Foi dessa viagem que surgiu a ideia de criar uma associação para ajudar os ucranianos. "É algo recente. Registamos a organização há três semanas. Somos quatro amigos russos que querem ajudar, dois deles também foram comigo à Polónia", contou Ilia ao Contacto.


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"Enquanto o Governo é tão lento, vemos as pessoas no Luxemburgo a juntar-se para ajudar os refugiados"
Mais de quatro mil ucranianos já chegaram ao Luxemburgo. A maior parte está em casas de famílias de acolhimento, através de iniciativas civis e de organizações como a LUkraine, que criticam a falta de comunicação com o Governo e a demora dos apoios.

O russo, que é engenheiro de formação, mas trabalha em digitalização de processos empresariais numa empresa japonesa, diz que o grupo decidiu que seria "apropriado" e mais fácil para conduzir as ações humanitárias com uma organização, "para atrair mais pessoas". "No caminho para a Polónia, houve muito tempo para pensar no que fazer a seguir. Infelizmente, a situação não vai melhorar em breve, vai durar muito tempo. Mesmo que acabe nas próximas semanas, ainda vai haver consequências", lamentou.

Ilia (à esquerda) com os três amigos russos com quem fundou a Ruhelp.
Ilia (à esquerda) com os três amigos russos com quem fundou a Ruhelp.
Foto: DR

Quisemos ser o ponto de encontro entre todos os falantes de russo no Luxemburgo que não concordam com a guerra.

Ilia Ostretsov, fundador da Ruhelp

Por isso, refletiu Ilia, as pessoas da Ucrânia vão precisar de "muito apoio", mas também alguns russos. "Vai haver sempre alguma coisa que podemos fazer para ajudar. Também os russos vão precisar de ajuda, estejam dentro ou fora da Rússia. Então quisemos ser esse ponto de encontro entre todos os falantes de russo no Luxemburgo que não concordam com a guerra", assumiu.

O primeiro encontro organizado pela Ruhelp decorreu no passado fim de semana e juntou cerca de 25 pessoas num café na capital. "O feedback foi muito positivo. As pessoas vêem que há uma necessidade para fazer isto. Estão a ajudar financeiramente ou logisticamente, com recursos e trabalho de equipa. Não é só o dinheiro, é também o tempo e as competências que disponibilizam", afirmou Ilia.

Ajudar os russos oprimidos que querem sair da Rússia

Esta sexta-feira acontece o primeiro grande evento da organização, o concerto de caridade Alena e Vadym. Além da vertente solidária, o espetáculo servirá também "para divulgar que os russos estão contra a guerra", explicou o fundador. "Quisemos fazer um grande evento para chamar o máximo de pessoas possível e divulgar esta mensagem. As pessoas na Europa estão a começar a habituar-se à guerra. Não queremos que isso aconteça. Queremos continuar a falar disto e a chamar a atenção".

Vamos ajudar os russos que querem sair da Rússia. É importante dar esperança a essas pessoas, porque estão a sentir-se oprimidas.

Ilia Ostretsov, fundador da Ruhelp

A ideia de organizar um concerto com Alena e Vadym partiu de Maria e Alexander Tkachenko, amigos russos de um dos fundadores da Ruhelp que conhecem a violinista desde 2010. "Percebemos que o casal vive no Luxemburgo e são músicos conhecidos em todo o mundo. É muito difícil conseguir bilhetes para um concerto deles. Para eles também é um assunto importante", reconheceu Ilia.


Uma aula com os mais pequeninos.
No Luxemburgo há uma escola de russo onde não se fala de guerra com os alunos
Com 200 alunos de todas as nacionalidades, incluindo russos e ucranianos, a Kalinka Russian School está pronta para receber crianças refugiadas da Ucrânia. E quem quiser poderá ter aulas de ucraniano.

Os fundadores da organização ainda vão decidir como é que o dinheiro angariado no concerto vai ser doado, se irá para uma só associação de apoio aos refugiados ou se será distribuído por várias. Depois deste evento, a Ruhelp já tem outras atividades planeadas, algumas das quais com a comunidade russa no Luxemburgo, "para unir os russos que são contra a guerra e querem participar mais na comunidade, com eventos culturais, para manter a moral em cima".

Essa será a primeira direção do grupo. A segunda será a humanitária, para ajudar os refugiados ucranianos. "A terceira será ajudar os russos que querem sair da Rússia. É importante dar esperança a essas pessoas, porque estão a sentir-se oprimidas. Precisamos de dar-lhes coragem para continuarem a falar do problema. Com o medo, podem parar de falar disto", alertou Ilia. "Não somos uma grande organização, mas temos este desejo de fazer algo. Qualquer pequeno esforço pode fazer a diferença".

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