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Eduardo Lourenço. O sentimento da razão
Editorial Sociedade 4 min. 02.12.2020

Eduardo Lourenço. O sentimento da razão

Eduardo Lourenço. O sentimento da razão

Foto: LUSA
Editorial Sociedade 4 min. 02.12.2020

Eduardo Lourenço. O sentimento da razão

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Morreu um dos mais conhecidos pensadores portugueses. O autor do “Labirinto da Saudade” faleceu aos 97 anos, deixando uma vasta obra. “O homem é, por essência, alguém que vive dos sonhos maiores do que ele.”, disse numa entrevista. Aqui ficam alguns.

“Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.”, declarou Eduardo Lourenço na sua última entrevista ao jornal português Público.

Não queria falar aqui da sua procura de Portugal no seu labirinto da saudade. Palavra supostamente única, numa língua, que contrariaria a ideia que o nosso cérebro tem em si todas as prateleiras em que as palavras e as gramáticas de todas as línguas se podem encaixar. A resposta do pensador poderia ser simples, como a deu em entrevista ao Jornal de Letras em 1986: “Como é que um homem nascido em S. Pedro do Rio Seco pode ser outra coisa que não português?”.

Talvez discutir a ideia de amor que se opõe à morte seja uma boa temática para pensar sobre Eduardo Lourenço. Socorro-me de um despretencioso prefácio que fez para o livro “Os Filósofos e o Amor”, de Aude Lancelin e Marie Lemonnier. Nessas páginas discute autores que vão desde Sócrates a Simone de Beauvoir. O texto chama-se “Os dois amores” e vai opondo aqueles que acham que o amor transcende as nossas limitações e cria sentido à vida; aos que o dizem que é uma mentira: um mero disfarce para a nossa necessidade biológica de perpetuar a espécie.

“Do maior dos nossos poetas conhecemos desde os bancos da escola a sua imagem do amor como ’fogo que arde sem se ver’. Não estranhará, assim (...) que esta mítica combustão da substância humana que designamos por ’amor’ não tenha merecido da parte dos filósofos aquela atenção que tão temeroso estatuto mereceria ou impunha.”, começa o texto Eduardo Lourenço, para quem a poesia e a literatura eram matéria prima para atingir o conhecimento mais além.

Rapidamente depois de colocar as peças brancas, vai posicionar as peças negras deste xadrez em que se disputam a existência de sentido ou a negação dele no tabuleiro do amor.

“Puro conto de fadas [segundo filósofos, como Schopenhauer] na sua óptica ’naturalista’ que não vê na Existência mais que uma Vontade cega, sem finalidade transcendente alguma, animada apenas pelo desejo da sua afirmação e perpetuação. Desta Vontade, expressão não idealizada e não ilusória, aquela que estrutura a Vida — a vida universal e a nossa, conscientes dela —, é aquilo que vivemos e designamos como pulsão sexual. Sem ter a coragem de nos confrontar com ela como realidade absoluta de que todas as outras são efeitos, transfigurámo-la no mais mitificado e positivo dos sentimentos humanos, objeto de toda a nossa complacência de deuses virtuais, o Amor, quando seria apenas a sua leitura mentirosa ou interessada.”

“A Filosofia ocidental não pôde tematizar — fora do seu momento grego — o que por lição dos mesmos gregos continuamos a chamar ’Amor’ na sua função natural e ordenadora do Cosmos, tanto como desarrumadora da Vida. A nossa ’existência’ como separada de si mesma por uma espécie de nada ativo em busca de um suplemento de ser luz e treva associadas, só na ficção, como Kierkegaard a viveu, se dá a festa que a Vida não consente.”

“É desta festa sempre futura que o Amor vive e morre. Alguns dos maiores pensadores do Ocidente reservaram a este ’sentimento’ que só é nosso por nós sermos impensavelmente dele, a sua atenção e a sua vigília filosófica. E sem ’filosofia nenhuma’, foram ao mesmo tempo o lugar ’clos, vertiginoso, da incandescência, turbação, glória ou miséria indizível’ do único deus mortal das nossas existências.”

Se a nossa existência pode ser só um medíocre acaso, num fugaz momento de um tempo sem fim à vista e que começou na grande explosão inicial que deu origem ao nosso universo, isso não quer dizer que não possa ser pensada, mesmo por quem se sente descentrado deste mundo.

“Sou estrangeiro apenas há poucas horas. E tanto bastou para encontrar a primeira palavra decisiva do meu destino. Estrangeiro. Ausente. Sozinho, entregue ao meu passado e à clarividência desta primeira noite sem ninguém conhecido à minha volta, descobri que nunca fui outra coisa desde a minha infância.”, escreveu no seu diário em 1949. Nada muito diferente do que escreveu Emil Cioran, a quem Eduardo Lourenço consagrou o seu livro “Ocasionais I” (1984): “Sou um estrangeiro para a polícia, para Deus, para mim mesmo”.

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