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Editorial. Só o medo cheira a medo
Editorial Sociedade 2 min. 02.09.2020

Editorial. Só o medo cheira a medo

Editorial. Só o medo cheira a medo

Foto: AFP
Editorial Sociedade 2 min. 02.09.2020

Editorial. Só o medo cheira a medo

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O medo é o outro lado da moeda da epidemia da covid-19. E pode ter efeitos mais devastadores que a doença. É necessário viver de uma forma responsável sem ser esmagado pelo medo.

A covid-19 é uma doença perigosa. O novo coronavírus quando apareceu era uma ameaça de que não se sabia o alcance. O medo foi um instrumento importante para conseguir que parte da população mundial, aqueles que tinham condições económicas para o fazer, ficasse confinada.

Seis meses depois, é preciso, sem descurar o combate à doença, perceber que é fundamental que a vida tenha que continuar nas novas circunstâncias. Não é possível, nem desejável prosseguir em Estado de sítio o resto da vida.

Os necessários cuidados de saúde não podem ser aproveitados para suspensão de direitos e liberdades. Os governos e os Estados não podem aproveitar a pandemia para multiplicar o autoritarismo nas nossas sociedades. O combate à doença não deve ser usado para criar dispositivos eletrónicos e policiais que, em outras circunstâncias, possam ser utilizados. Quando se cria um instrumento tem que se perceber que ele pode ser usado.

Sobretudo, não é possível manter uma sociedade privada de convívio, de trabalho e da possibilidade de viver. Se as pessoas ficarem fechadas dentro de uma campânula, certamente o vírus terá uma menor capacidade de contágio, mas isso não é obviamente uma solução. É preciso encontrar um justo equilíbrio entre a segurança e a liberdade. É necessário viver de uma forma responsável, o que é muito diferente de sobreviver esmagado pelo medo. Se não o fizermos, o preço até em vidas será muito superior às vítimas do coronavírus. É como diz o ditado: não morremos da doença, mas morremos da cura.

Acresce que o medo que libertámos para disciplinar as pessoas tem vida própria. Depois de o tirar da caixa é difícil voltar a encerrá-lo.

O medo é a antecâmara da violência, é a gasolina que permite derivas xenófobas, racistas e populistas. Abre campo à imposição de gente sem direitos, a quem não se reconhece a humanidade e que por isso pode ser eliminada.

Quando espreitamos as redes sociais podemos perceber o aumento da violência e da agressão feita nesse meio virtual. Mas não nos enganemos, o virtual é algo que está em potência e é parte do real. A legitimação do racismo, do machismo, da homofobia, da intolerância e da violência que vemos escrita, é o início de um mundo que será muito pior de viver. O medo e os seus cultores são os arquitetos de um horrível mundo novo que deveremos fazer tudo para evitar.

Um dos grandes poetas portugueses, Alexandre O’Neill, escreveu "O poema pouco original do medo" que se aplica aos tempos em que vivemos. Começa assim:

"O medo vai ter tudo 

pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis";

E depois de muito explicar, acaba desta forma:

"O medo vai ter tudo

quase tudo

e cada um por seu caminho

havemos todos de chegar

quase todos

a ratos

Sim

a Ratos".

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