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EDITORIAL: Reinventar a Europa
Editorial Sociedade 3 min. 19.03.2014

EDITORIAL: Reinventar a Europa

Editorial Sociedade 3 min. 19.03.2014

EDITORIAL: Reinventar a Europa

EDITORIAL, por Belmiro Narino - A actual agitação na Ucrânia, cujo epicentro se vai deslocando para Leste, a península da Crimeia, leva-nos a recordar a guerra (1854-6), declarada pela Grã-Bretanha, França, Turquia e Áustria, contra a avidez insaciável da Rússia, que já cobiçava o Mediterrâneo. A guerra da Crimeia travou, por algum tempo, as ambições do czar e dos seus oligarcas.

Foi uma guerra mal gerida, com altas perdas de um lado e do outro. Terminou com a derrota da Rússia, em Sebastopol.

Por dois motivos este conflito se notabilizou na história: uma enfermeira italiana, Florence Nightingale, e um jornalista irlandês, V.H.Russell. Inovadora e eficaz, chegou ela a ter, a seu cuidar, e de um pequeno número de ajudantes motivadas, cerca de 10.000 feridos de guerra. Com as suas crónicas para The Times, servindo-se do telégrafo, que acabara de nascer, o jornalista criou a figura de correspondente de guerra.

A situação de hoje não é muito diversa. Putin é um produto do KGB, obcecado pela grandeza do império, czarista e soviético. Como Hitler, em 1930, quis vingar as derrotas da grande Alemanha, o novo "czar" projecta vingar-se da humilhação que foi o desmoronar da URSS. O seu roteiro é ir anexando, pouco a pouco, para não parecer guerra. O ar belicoso, inventado e explorado pelo chefe, granjeou-lhe um certo apoio do povo russo, que se mobiliza facilmente em defesa da pátria-mãe. Patriotismo e nacionalismo, exacerbados, levam, no ventre, o feto da guerra.

A Europa não pode ficar indiferente, deve agir. Não com as forças armadas ou com a guerra-fria das "sanções". Mas no respeito dos valores humanos.

Nick Clegg, o número dois do governo britânico, sugere que se pode negociar o futuro da Crimeia, mas com um Putin liberto da "mentalidade KGB", e sem excluir o governo de Kiev. A Crimeia foi cedida à Ucrânia, em 1954, por Nikita Khrushchev. Não admira, portanto, que conserve muitos sinais da presença russa. Mas não para justificar uma invasão militar da terra ucraniana.

Não vai ser fácil converter um homem, programado pela polícia secreta da URSS, à realidade dos novos tempos. Os russos, orgulhosos das palavras inflamadas do presidente, entendem o discurso expansionista à sua maneira. Onde acaba a Rússia? Onde começam os EUA. Na informação nacional dentro das fronteiras daquele país imenso, a Europa não é mais que as traseiras da América, como revela o escritor ucraniano Andrey Kurkov.

A UE é que deve mudar, por dentro, ser mais forte e mais activa, recuperando o carisma dos pais fundadores, afirmando-se uma sociedade melhor, livre, nas bases da verdade e da justiça. Um homem como Putin projecta nos outros os demónios que o habitam, julgando os outros por si mesmo. Continua a ser um "robot" da defunta estratégia soviética, não pode compreender que os desígnios da UE não são o lucro à custa dos outros e o domínio dos mais fracos. A sua força, no palco do mundo, é a democracia e a paz.

E se a provocação de Putin servir de estímulo para reinventar a Europa, para se corrigir de desvios de percurso e voltar à pureza original?

É verdade que os protestos na Praça da Independência se justificavam pela incompetência de um presidente criminoso, corrupto e impopular, um homem de Moscovo, Yanukovych, que governava governando-se e à sua corte de oligarcas.

Sob o domínio dos czares ou dos soviéticos, a Ucrânia sentiu-se sempre oprimida. Escritores que celebravam o ideal de uma nação independente eram deportados para a Sibéria. Os manifestantes de Kiev são os heróis da Ucrânia a cantar o hino da liberdade contra a tirania russa. É natural que se voltem para a Europa, donde esperam ajuda para um governo menos arbitrário e mais justo. Na órbita de Moscovo, não se libertariam das oligarquias corruptas.

A solução tem de ser diplomática. Tem de se encontrar uma solução intermédia para ceder às justas aspirações do povo ucraniano e respeitar os direitos da população russófona. Putin deve saber que, se os ucranianos, na última guerra, acolheram os alemães, ao princípio, como libertadores, foi porque sempre se sentiram espezinhados por czares e soviéticos... Grande desafio para a Europa!

Belmiro Narino