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Editorial. Quebrar em caso de emergência
Editorial Sociedade 4 min. 17.06.2020

Editorial. Quebrar em caso de emergência

Editorial. Quebrar em caso de emergência

Editorial Sociedade 4 min. 17.06.2020

Editorial. Quebrar em caso de emergência

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Como vamos sair da maior crise das nossas vidas? Esta é a pergunta de um milhão de dólares que deverá ficar por responder ainda por muito tempo. Certo é que o impacto pode prolongar-se por vários anos. E o mundo nunca mais vai voltar a ser o mesmo.

Ainda estamos nos primeiros cinco minutos do filme e a longa–metragem promete durar longas horas. E ninguém consegue adivinhar o final. Como vamos sair da maior crise das nossas vidas? Esta é a pergunta de um milhão de dólares que deverá ficar por responder ainda por muito tempo.

Para já, no diagnóstico do impacto da pandemia, conseguiu-se a proeza de juntar dois protagonistas habitualmente em lados opostos da barricada: o Fórum Económico Mundial e a Oxfam, um movimento global para combater as desigualdades. As duas organizações prevêem o surgimento de mais 500 milhões de pobres no planeta. Um acentuar das desigualdades que é preciso combater.

Depois, o comércio mundial deverá perder um terço das transações e a riqueza mundial pode encolher até 10%. A ONU prevê que o investimento estrangeiro, do qual dependem tantos estados, caia 40%, até ao final do ano. Há economias, como a do Reino Unido que, em apenas um mês, perderam 20% da sua riqueza. E países, como os EUA, em que o desemprego já afeta um em cada cinco norte-americanos.

Quando estiver a ler este texto o número de vítimas mortais do coronavírus deverá ter chegado próximo do meio milhão de pessoas em todo o mundo. E o número de infetados deverá ter ultrapassado os 7,3 milhões em todo o planeta, mais de dez vezes a totalidade da população do Luxemburgo.

O Fórum Económico Mundial, num relatório divulgado esta semana, revela que o grande receio dos empresários é uma "recessão prolongada na economia global". Na lista das preocupações seguem-se as falências de empresas e a "incapacidade de retoma de muitas indústrias".

Mas há muito mais efeitos para além dos económicos. Neste relatório fala-se de uma "ansiedade societal" que está a afetar a população mundial. Um fenómeno que resulta da explosiva combinação do "desemprego estrutural", "o acentuar das desigualdades ", o "stress quando à saúde" e "a falta de perspetivas das novas gerações".

Um em cada três adultos no planeta teve problemas de saúde mental durante o confinamento. Cerca de 80% dos alunos, 1,6 mil milhões de estudantes deixaram de ir à escola. Por cada 1% de crescimento da taxa de desemprego houve um aumento de 2% das doenças crónicas. Há também uma "crescente dependência tecnológica" e um "falhanço das cadeias de distribuição mundial".

Aqui no Luxemburgo – uma economia que parece estar pronta para enfrentar o embate que ainda vem por aí – há escritórios e bairros inteiros que continuam a parecer cidades fantasma. A generalização do teletrabalho e o pânico da covid -19 levam a que muitos não saiam de casa. Quanto mais tempo é que este cenário vai durar? Quanto mais tempo vão aguentar os restaurante e as lojas se os clientes não aparecerem? Quantos vão fechar? Quantas pessoas vão perder o emprego? Quantas pessoas vão ter um corte de salário? São demasiados perguntas para tão poucas respostas disponíveis.


Covid-19. Precariedade no trabalho agravou-se para 25% da população
A redução do horário de trabalho imposta pela pandemia é uma fonte de insegurança no emprego para um em cada 16 habitantes, segundo estudo do STATEC.

Poderá ser esta a oportunidade para mudar o mundo e corrigir as desigualdades estruturais da nossa sociedade? As previsões não são otimistas. Até ver, as "bazucas" que estão a ser lançadas para recuperar as economias estão a custar triliões de euros. Resta saber quem é que os vai pagar? Até os países do G20 já têm dívidas públicas que chegam aos 90% do PIB.

"O que acredito atualmente é que a dívida pública e os défices públicos serão seguidos por uma forma de austeridade, sem nome. Haverá uma enorme pressão" prevê o diretor do STATEC, organismo estatístico do Luxemburgo, Serge Allegrezza, em entrevista ao jornal Land.

O ex-responsável de planeamento do Departamento de Estado norte-americano Edward Fishman avisa, por seu lado, que as alterações forçadas pela pandemia de covid-19 irão levar ao estabelecimento de uma nova ordem mundial nos próximos um a cinco anos. Fishman, que trabalhou como conselheiro para o Secretário de Estado da administração Obama, John Kerry, projetou uma nova ordem mundial, um momento que deverá levar a uma "retirada ordeira e pensada da globalização", frisando as "consequências muito negativas" que teve na sociedade.

É certo que uma nova ordem mundial deverá emergir. Só falta saber quem é que vai ditar as regras...

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