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Editorial. Quando o detergente não lava tudo
Editorial Sociedade 3 min. 29.04.2020

Editorial. Quando o detergente não lava tudo

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Editorial. Quando o detergente não lava tudo

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Florin Balaban
Editorial Sociedade 3 min. 29.04.2020

Editorial. Quando o detergente não lava tudo

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Passado mais de uma semana da epifania médica, o detentor dos códigos de lançamento dos mísseis nucleares norte-americanos continua a ser o mesmo.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, recomendou, em plena conferência de imprensa, que os cientistas testem dois tratamentos ao novo coronavírus, que a sua mente imaginou depois de, provavelmente, ter defrontado um almoço particularmente bem-sucedido.

O primeiro tratamento, da receita presidencial, passava por colocar luzes ultravioletas, “muito fortes”, dentro do corpo; o segundo, defendia a administração de uma espécie de shot injetável de detergente para matar o vírus.

Durante a preleção, enquanto ia sublinhando que embora não seja médico tem um dom natural para descobrir novas curas, ia lamentando, em surdina, que certamente os especialistas iam-lhe responder que ainda não há os protocolos seguros para validar as suas descobertas.

Passado mais de uma semana da epifania médica, o detentor dos códigos de lançamento dos mísseis nucleares norte-americanos continua a ser o mesmo. É certo que não é o primeiro locatário da Casa Branca que parece relativamente incontrolado. Freud escreveu um livro sobre o 28.º Presidente dos Estados Unidos, Thomas Woodrow Wilson, que garantia que falava diretamente com Deus. Mas nessa altura o caso era menos problemático, até porque não havia bombas atómicas.

A manutenção de uma elite irresponsável e com uma enorme incontinência verbal, de que Donald Trump e Jair Bolsonaro são exemplos, só pode existir com um apoio popular que defenda a ignorância arrogante como qualidade política e símbolo de uma falsa mudança.

A estupidez passou a ser uma forma de contestação da mediação da ciência, do jornalismo ou da cultura e da afirmação do preconceito como poder. Uma arma que faz do racismo, xenofobia e ignorância formas eficientes para garantir o domínio dos do costume, em tempos de populismo. A Terra passa a plana, mas manda na mesma quem é mais rico.

Nas manifestações nos EUA para “libertarem a América do mito do coronavírus e do confinamento”, um número elevado de participantes fazem até de Trump um tipo com bom senso: desde da conspiração secreta dos Illuminati até aos extraterrestres não houve nenhum argumento criativo que não fosse utilizado, pelos manifestantes, para provar que o país que lidera “o mundo livre” está perante uma conspiração secreta para acabar com a sua existência.

Não basta explicar o que se passa a essas pessoas para se esfumar a convição delirante. Muitos dos implicados apenas acreditam no que querem acreditar, mesmo que saibam que é mentira.

É um fenómeno que não é novo. No seu livro genial “Corações Sujos”, o jornalista brasileiro Fernando Morais fala de um estranho episódio histórico acontecido no Brasil. Estávamos a 1 de janeiro de 1946, o imperador japonês Hiroito anunciou que chegara o momento de “suportar o insuportável”, e depois de ter declarado a rendição do Japão.

Nessa mesma altura nascia em São Paulo a organização secreta japonesa Shindo Remnei (Liga do Caminho dos Súbditos). Para os seus seguidores, e para 80% dos japoneses que viviam no Brasil, a rendição do Japão era uma fraude orquestrada pela propaganda aliada. Tal como os japoneses perdidos no meio das ilhas do Pacífico, eles não aceitavam a derrota. A diferença é que os ilhéus estavam privados de informação, enquanto os japoneses do Brasil tinham acesso a ela.

De janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, os batalhões de assassinos da organização Shindo Remnei declaram guerra aos japoneses “traidores” que acreditam que o Japão perdeu a guerra. Matam 23 imigrantes e ferem mais de 150. A polícia brasileira, para desarticular a organização, é obrigada a prender mais de 30 mil imigrantes japoneses, condena 386 e deporta 80.

A força política da organização é tal que em câmaras brasileiras são aprovadas moções a saudar a vitória do Império do Sol Nascente na guerra. A Shindo Remnei chegou a distribuir edições falsas da revista “Life” em que as fotos da rendição do Japão aparecem como se fossem da rendição dos Estados Unidos da América.

Os homens do Shindo Remnei não podiam desconhecer os factos da rendição do Japão; no entanto não conseguiam acreditar neles. Da mesma maneira se comportam os apoiantes dos nossos líderes providenciais.

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