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Editorial. O momento histórico que não queríamos viver
Editorial Sociedade 2 min. 17.03.2020

Editorial. O momento histórico que não queríamos viver

Editorial. O momento histórico que não queríamos viver

Foto: AFP
Editorial Sociedade 2 min. 17.03.2020

Editorial. O momento histórico que não queríamos viver

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Quando isto passar muitas coisas vão ter que mudar, para não se repetir uma situação que criamos com a forma de explorar a Terra, que multiplica perigos e catástrofes.

Andamos acordados no meio de um cenário de filme de catástrofe. Estávamos habituados que as mortes resultantes da gestão do mundo fossem silenciosas e invisíveis, como são os refugiados afogados no Mediterrâneo, os bombardeados no Terceiro Mundo ou os mortos em consequência da pobreza ou poluição. O coronavírus veio tornar todos os habitantes do planeta alvos de uma ameaça que avança de uma forma invisível por todos os cantos da Terra. Ninguém parece seguro.

 Explicam-nos que 80% dos infetados não terão complicações graves, omitindo que se 2% dos infetados morrerem, muito menos que os 7% que falecem em determinadas zonas de Itália, e se a grande maioria das pessoas for infetada como garantem os epidemiologistas, teremos uma mortandade bastante maior que a gripe espanhola em 1918, que matou dez vezes mais que a Primeira Guerra Mundial. 

O caminho negro do Covid-19 foi facilitado pela inépcia dos governos, com alguns, como o brasileiro, dos Estados Unidos ou o britânico, a garantirem que nada se passa e a pretenderem com a sua paralisia criar situações de darwinismo social, em que mais pobres, mais fracos, mais doentes e mais idosos são limpos e, milagrosamente, a sociedade ganharia uma imunidade coletiva ao novo vírus.

 Esta crise mostra a necessidade de construir sociedades em que o valor máximo não seja o lucro e em que a saúde pública seja defendida por serviços nacionais com o músculo suficiente para cumprirem a sua missão. 

 “O que revela esta pandemia é que há bens e serviços que devem ser deixados fora das leis do mercado (...) Delegar a nossa alimentação, a nossa proteção, a nossa capacidade de curar, a nossa vida a privados é uma loucura”, garantiu o Presidente Francês, Emmanuel Macron, muito insuspeito de tendências esquerdistas, depois de explicar que “o dinheiro gasto no Estado providência não são custos nem gastos, mas bens preciosos e instrumentos fundamentais para quando o destino se abate sobre nós”.

 Quando isto passar muitas coisas vão ter que mudar, para não se repetir uma situação que criamos com a forma de explorar a Terra, que multiplica perigos e catástrofes. 

Mas mesmo aí, ainda não estaremos salvos das consequências desta crise. Esta mortandade vai ter consequências sociais e económicas gigantescas, com economias muito destruídas, se não for alterada a política económica dos bancos centrais e governos de se preocuparem apenas em garantir a estabilidade do capital financeiro, sem sem apoiarem pessoas e empresas produtivas. Vai haver uma deriva totalitária. Teme-se que esta verdadeira peste negra seja usada para colocar ainda mais a peste castanha dos ditadores de turno no poder, de forma a salvar um modelo económico cego que nos levou à beira do precipício. Uma crise é sempre um desastre, mas pode ser um poderoso alerta para traçar novos caminhos para uma sociedade mais justa, ecológica e sustentável que seja feita para bem de todos e não como o dividendo de muito poucos.

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