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EDITORIAL: O mito da emigração qualificada
Editorial Sociedade 5 min. 04.11.2015

EDITORIAL: O mito da emigração qualificada

Editorial Sociedade 5 min. 04.11.2015

EDITORIAL: O mito da emigração qualificada

Por Paula Telo Alves - Na semana passada, o Relatório da Emigração encomendado pelo Governo deitou por terra mais um mito, o da nova emigração qualificada. As conclusões são demolidoras: apesar de o número de emigrantes qualificados ter aumentado na última década, “continuam a predominar os indivíduos com baixas e muito baixas qualificações”.

Por Paula Telo Alves - Estava a entrar no elevador quando a vi. O elevador do meu prédio é um sério candidato ao mais pequeno do mundo, mas ela ocupava tão pouco espaço, colada a um dos cantos, que podia ser uma criança. “Vai para que andar?”, perguntei, em francês, a tentar decifrar-lhe a idade e as razões para o medo que não a deixara ainda carregar no botão do elevador. Olhou-me sem compreender, e eu confiei na lei das probabilidades e refiz a pergunta em português. “Terceiro andar”, respondeu, mas continuou pequenina e sumida, escondida a um canto. Cheirou-me a mistério – uma adulta que parecia uma criança, transida de medo, mas que lembrava também uma idosa, menina-velha, que idade teria? –, e como os andares não chegassem para as minhas perguntas, bombardeei-a enquanto lhe segurava a porta. Não, não era nova no prédio, vinha limpar a casa de uma vizinha espanhola, três horas por semana; não, não falava nem percebia uma palavra de francês, apesar de já ter chegado ao Luxemburgo há três anos. 

De vez em quando tenho uns ataques infames de bom-samaritanismo, e falei-lhe dos cursos de francês que as associações dão à nova vaga de emigração portuguesa, perdão, à malta que saiu da sua zona de conforto. Que gostava muito, mas não podia. “Não tem tempo?”, perguntei, e arrependi-me imediatamente da minha impertinência de pessoa com ócio para andar por aí a aprender línguas. “Não é isso”, respondeu. “Não sei ler”. Família com vários irmãos, tinham-na tirado da escola na terceira classe, e dali tinha ido engrossar os números do trabalho infantil – coisas da Inglaterra da revolução industrial do séc. XIX, dir-me-ão, coisas do Vale do Ave de finais do séc. XX, respondo. Tinha a mesma idade que eu: somos ambas da colheita de 1973, região demarcada de Portugal.

Sempre que ouço falar no Portugal da emigração de quadros, do Portugal-já-não-é-o-que-era, da boa imagem que os portugueses, para sempre obcecados com as aparências, querem à força projectar no mundo, lembro-me que nos anos em que eu estava a aborrecer-me nos bancos da escola primária, a menina-mulher do elevador estava a fazer sapatos, e como ela muitos portugueses a quem não foi dada a oportunidade para fazer outra coisa. 

Quarenta anos depois do 25 de Abril, Portugal progrediu muito na luta para erradicar o analfabetismo e aumentar as competências, num extraordinário caminho percorrido desde a Revolução dos Cravos, mas ainda há 500 mil portugueses que não sabem ler nem escrever, segundo o Censos 2011. A taxa de analfabetismo, que antes do 25 de Abril ultrapassava os 25%, caiu para 5,2% em 2011, uma diminuição que não chega ainda assim para tirar Portugal do último lugar da tabela a nível europeu. Portugal é também um dos países da OCDE com a maior percentagem de jovens adultos que não concluíram o ensino secundário. E em 2014 havia sete diplomados do ensino superior por mil habitantes, um crescimento colossal em relação a 1991, quando havia apenas 1,9 diplomados por mil, mas ainda aquém dos padrões europeus.

Na semana passada, o Relatório da Emigração encomendado pelo Governo deitou por terra mais um mito, o da nova emigração qualificada. As conclusões são demolidoras: apesar de o número de emigrantes qualificados ter aumentado na última década, “continuam a predominar os indivíduos com baixas e muito baixas qualificações”. O tão propalado aumento da emigração qualificada deve-se a apenas um país, o Reino Unido, que só num ano recebeu um terço de todos os enfermeiros diplomados em Portugal (uma verdadeira sangria num país onde a maioria da população tem poucas competências profissionais).

No pólo oposto estão os emigrantes portugueses no Luxemburgo: em 2011, só 4% tinham um diploma de ensino superior; 73% têm apenas o ensino básico, uma percentagem que aumentou mesmo oito pontos percentuais desde 2001.

Não se trata de apontar o dedo a quem não pôde obter qualificações, e tem por isso uma vida muito mais dura, com menos oportunidades e opções (ter um diploma do ensino superior garante, em média, um salário 45% mais alto, e as pessoas com mais competências profissionais estão menos expostas ao desemprego, segundo a OCDE), mas de deixar de apontar a dedo a emigração não qualificada como se fosse um produto exógeno a Portugal, falseando a imagem idílica, mas nem por isso verdadeira, de um país hiper-qualificado. Pretender o contrário é ignorar a mulher no elevador, o meio milhão de portugueses que não sabem ler nem escrever e os mais de 60% que nasceram no nosso país e não concluíram sequer o liceu. Estes homens e mulheres são tão portugueses como quem tem diplomas e empregos bem remunerados, e a única coisa que devia envergonhar-nos é que não tenham tido as mesmas oportunidades de quem nasceu em condições mais privilegiadas; não precisam de desculpas de expatriados com complexos, mas apenas que aceitemos de uma vez por todas que Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer no combate das desigualdades. Um caminho que foi brutalmente interrompido durante estes quatro anos de austeridade, com os cortes na Saúde e na Educação e no apoio aos mais carenciados, e que é urgente retomar, sob pena de regredirmos aos miseráveis anos 60/70. O recorde da emigração dessas décadas, esse, já foi tristemente batido.


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