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Editorial. O medo não é vacina
Editorial Sociedade 3 min. 05.05.2020

Editorial. O medo não é vacina

Editorial. O medo não é vacina

Cartoon: Florin Balaban
Editorial Sociedade 3 min. 05.05.2020

Editorial. O medo não é vacina

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O medo propagado sobre um vírus desconhecido pode ter ajudado as pessoas a cumprirem as normas de saúde e a fecharem-se, as que podiam, em casa. Mas é mais perigoso que a doença.

No seu filme “A Vila” (2004), o realizador Night Shyamalan conta uma história de uma comunidade que está fundada no medo. Isolados do mundo, a população mantém-se confinada, sem sair dos limites do seu local de residência, pelo pavor de encontrar “Aqueles De Quem Não Falamos”, criaturas temíveis que cercam toda a aldeia. 

 O pavor espalhado pelos velhos da aldeia é uma poderosa ferramenta de disciplina social. Na comunidade do filme é uma espécie de mentira piedosa. Os montros não existem, mas são a recriação de outros acontecimentos terríveis que obrigaram os mais velhos a refugiarem-se e a isolarem-se naquele lugar escondido e separado do resto do mundo. 

 Na “República” do filósofo grego Platão, o bem supremo é o bem para o conjunto da sociedade, a justiça é o que é útil ao bem dessa maioria – a verdade é o conhecimento daquilo que é útil à manutenção do bem-estar dessa totalidade. Verdade, justiça e bem supremo tornariam aceitável a mentira, desde que ela seja útil à preservação da harmonia social. 

A mentira pia, de que falava Platão, foi aquilo que os governantes do filme criaram, julgando assim defender o bem comum. 

 O medo propagado sobre um vírus desconhecido pode ter ajudado as pessoas a cumprirem as normas de saúde e a fecharem-se, as que podiam, em casa. Mas é mais perigoso que a doença. O medo tem uma dinâmica destrutiva própria que consome e torna manipulável as suas vítimas. Uma população com medo é um fantoche potencial nas mãos daqueles de pretendem esconder a sua incompetência acicatando o ódio aos outros. 

 O mundo que sair depois da pandemia, independentemente daquilo que venhamos a saber sobre o vírus, é um mundo escurecido pelo temor. Grande parte da população está disposta a hipotecar a liberdade e a democracia em troca de uma hipotética segurança. Esta aceitação das práticas autoritárias do poder só é possível pela criação do medo como instrumento político. 

O coronavírus vai permitir fazer uma política irracional alimentada pelo medo, em que muita gente que está em casa vai ser presa fácil de argumentos que permitam criminalizar quem protesta e perseguir imigrantes e pobres, como gente “de fora” que alegadamente transporta o vírus. 

A covid-19 é um assunto grave, mas não nos transformou a todos em epidemiologistas, nem pode servir para acabar com a democracia e a liberdade. Cada vez que alguém apela ao medo para, supostamente, combater a doença, apenas a está a torná-la mais mortal. Fazendo que aos perigos biológicos se somem milhões de vítimas da injustiça, desigualdade e da pobreza, a pretexto do vírus. O pior vírus que está aparecer é este populismo imbecil e larvar que alimenta soluções autoritárias a pretexto da saúde. Todos devemos saber que a ditadura não garante saúde: apenas obriga que os que morrem o façam escondidos e em silêncio. 

O grande poeta português Alexandre O’Neill, num dos seus versos resumia muito bem esta situação:

 “Perfilados de medo, sem mais voz, /o coração nos dentes oprimido, /os loucos, os fantasmas somos nós. 

 Rebanho pelo medo perseguido, /já vivemos tão juntos e tão sós/ que da vida perdemos o sentido.” 

 O filósofo, de origem portuguesa, Baruch Espinoza defendia que o fim último do Estado tinha de ser “libertar o indivíduo do medo” para que ele possa “existir e agir”. 

Uma lição que parece não ter aprendido a autarquia portuguesa de Cascais que espalhou pelo seu concelho uma série de outdoors que rezavam: “Não tenham medo de ter medo”. 

Razão tinha o grupo informal “Toupeiras” que durante o dia de Liberdade, 25 de Abril, em Portugal, manifestaram-se com panos em que tinham escrito: “O medo não é vacina”. Não é mesmo. É apenas a continuação da doença por outros meios. 

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