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Editorial. O grito
Editorial Sociedade 2 min. 19.06.2019

Editorial. O grito

Editorial. O grito

Foto: AFP
Editorial Sociedade 2 min. 19.06.2019

Editorial. O grito

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
Há muito que a política de Estado de muitos países europeus é o assassinato dos migrantes que tentam chegar à Europa.

São dezenas de milhares de pessoas que morrem todos os anos ao tentar atravessar o Mediterrâneo em busca de uma vida melhor. Essas crianças, homens e mulheres fogem de países devastados pela guerra e por uma economia mundial que dá quase tudo a muito poucos e retira ainda mais à maioria da população do mundo.

No planeta é normal exportar capitais, deslocalizar trabalho, comprar quotas de poluição em países pobres. O capital e o lucro são livres, mas os miseráveis do mundo devem ficar longe do mundo rico protegidos por muros crescentes e por mares tornados propositadamente assassinos.

O processo contra o jovem português Miguel Duarte e os seus companheiros da embarcação Iuventa, da ONG alemã Jugend Rettet, é supostamente pelo crime de “apoio à imigração ilegal”, mas na realidade o seu “crime” foi ter ajudado a salvar de uma morte certa por afogamento quase 14 mil pessoas. Há muito que a política de Estado de muitos países europeus é o assassinato por terceiros – sejam eles mares alterados ou ditaduras amigas no Terceiro Mundo – dos migrantes que tentam chegar à Europa.

Os governos fecham os olhos, mas os ativistas não. Dai a necessidade que o governo italiano, com o silêncio cumplice dos seus sócios europeus, tem de criminalizar a solidariedade. São estas poucas centenas de pessoas que com a sua vontade têm impedido este massacre escondido e silenciado.

Sirva este processo, o exemplo do Miguel e dos seus companheiros, como forma de abrir os olhos à população de uma Europa que não é capaz de dar a mão aos povos que muitas vezes levou para guerras sanguinárias. Como disse numa entrevista Miguel Duarte, “quando vejo uma pessoa a morrer afogada não lhe pergunto se tem passaporte. Tiro-a da água”.

Mas há outras perguntas que luxemburgueses e portugueses devem fazer, a mesma que levou ao ministro luxemburguês Dan Kersch ameaçar demitir-se, caso o Luxemburgo apoie mais uma vez uma ação militar dos EUA, desta vez contra o Irão. “Não, não e ainda não à guerra contra o Irão”, escreveu o luxemburguês no seu mural de Facebook.

Afeganistão, Líbia, Iraque, Síria e tantos outros países atacados com falsos pretextos são a demonstração que as intervenções humanitárias do Ocidente apenas servem para trocar déspotas, matar milhões de pessoas e mudar as petrolíferas que exploram esses países.

Na véspera de uma nova guerra, cabe também a todos nós fazer algo para a parar, para a tornar inadmissível e impedir que mais centenas de milhares morram a fugir para a Europa.

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