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EDITORIAL: Mudar de vida
Editorial Sociedade 4 min. 02.03.2016 Do nosso arquivo online

EDITORIAL: Mudar de vida

Os quatro protagonistas de "Eldorado": Fernando Santos, Jonathan Loureiro, Isabel Oliveira e Carlos Borges

EDITORIAL: Mudar de vida

Os quatro protagonistas de "Eldorado": Fernando Santos, Jonathan Loureiro, Isabel Oliveira e Carlos Borges
Foto: Samsa Film
Editorial Sociedade 4 min. 02.03.2016 Do nosso arquivo online

EDITORIAL: Mudar de vida

Há um momento no documentário "Eldorado", sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, em que vemos pela primeira vez uma cena que se repete há 50 anos nas escolas do Luxemburgo. Mãe e filho tentam convencer o professor a inscrevê-lo numa via de ensino mais adequada às suas aspirações.

Há um momento no documentário "Eldorado", sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, em que vemos pela primeira vez uma cena que se repete há 50 anos nas escolas do Luxemburgo. Mãe e filho tentam convencer o professor a inscrevê-lo numa via de ensino mais adequada às suas aspirações. O professor responde que "preferia" que o adolescente de origem portuguesa frequentasse um ramo técnico-profissional, para não ficar "desanimado" com as dificuldades. O tom é suave, com uma aparência de benevolência, mas não admite contestação. A mãe tenta convencer o professor com o argumento de que a namorada do filho "é a melhor aluna da turma" (uma forma canhestra de compensar a falta de capital social do adolescente?), e Jonathan promete que se vai esforçar, mas a decisão mantém-se. Jonathan Loureiro será "orientado" para o ensino técnico-profissional. O rosto do adolescente – e cada aparição sua fica gravada na retina – é a imagem da impotência e da raiva reprimida. Uma raiva que não se exterioriza e acaba por se converter em ódio de si mesmo.

A cena é um retrato vivo daquilo a que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou "violência simbólica". Bourdieu desenvolveu o conceito para explicar o processo através do qual a classe dominante impõe a ordem social às classes mais baixas. Neste processo de "submissão" colaboram, de forma pelo menos inconsciente, as instituições sociais, a começar pela escola. Tudo é feito de forma a que a hierarquia social pareça legítima e natural aos olhos de todos.

A violência simbólica funciona porque consegue impor critérios arbitrários como se fossem naturais, sem recorrer à violência física. Mas a "selecção natural" institucionalizada no ensino luxemburguês, em que ser fluente em alemão determina os que vão para o ensino clássico e os que aos 15 anos já só podem sonhar em ser serralheiros ou cabeleireiras – como o filme também mostra – não tem nada de natural. A história da imigração portuguesa no Luxemburgo está pejada de casos de alunos empurrados para o ensino técnico sem outra razão que o de serem vistos como uma classe inferior. Alguns resistiram e são hoje doutorados ou exercem cargos importantes na hierarquia social.

Há outras cenas em que esta violência simbólica fica à vista. Nas agências de trabalho temporário, Fernando, simples operário, é entrevistado num ambiente em que imperam o fato e gravata, com as mesmas fórmulas usadas no recrutamento de quadros superiores – artifício que não chega para esconder que o português é apenas mais um par de braços, mais um nome numa parede coberta de outros nomes portugueses, à espera num quarto de café de um telefonema para ir trabalhar durante um dia ou uma semana.

"Eldorado" é um filme que extravasa as fronteiras da cultura e se transforma num acontecimento político e social, fornecendo matéria para pensar. O filme documenta a vida de quatro portugueses no Luxemburgo sem propor teorias nem explicações. Jonathan, Isabel, Carlos e Fernando têm em comum mais do que o passaporte português: todos querem mudar de vida no elusivo Eldorado luxemburguês. "Change your life!", diz Carlos, enquanto limpa estradas.

Carlos nasceu na Amadora e chegou ao Luxemburgo com apenas dois anos. O português de origem cabo-verdiana tem de enfrentar vários graus de discriminação – ser filho de imigrantes, negro, com cadastro, ter nascido num meio sócio-económico desfavorecido, com pais ocupados em prover ao sustento da família. Mas quando conta a sua história à assistente social, esta repete-lhe os mesmos slogans motivacionais das empresas capitalistas, perpetuando a ficção de que o sucesso depende exclusivamente da vontade e do "esforço" individual. No processo, reforça a culpabilização dos que não são "capazes" de atingir "os objectivos". Esta estigmatização e invisibilidade – como os batalhões de empregadas de limpeza de que Isabel faz parte – perpetuam a visão negativa que a sociedade tem das classes trabalhadoras, uma visão que as próprias acabam por interiorizar.

"Eldorado" é anunciado como um documentário sobre os portugueses no Luxemburgo, mas podia ser sobre os turcos na Alemanha, os magrebinos em França ou qualquer grupo social que desempenha os trabalhos menos valorizantes e é empurrado para o fundo da escada social.

No final da projecção, havia quem se queixasse que o filme os deixava de fora, aos casos de sucesso que a imigração portuguesa também tem. Mas erra o alvo quem, queixando-se de que o filme perpetua o estereótipo dos portugueses que trabalham nas obras ou nas limpezas, aponta o dedo aos realizadores, em vez de o apontar à estrutura social construída para os manter no mesmo lugar na hierarquia social – a começar pela escola.

O filme fecha com uma fuga para a ficção, uma cena que divide opiniões: um bailado de empregadas de limpeza pontuado com o exército invisível dos operários da construção. Uma metáfora (do grego "transporte") que aqui funciona como a possível evasão numa ordem social com limites apertados. O mundo pode ser um palco, como pretendia Shakespeare na mais famosa das metáforas, mas há homens e mulheres (e crianças, e jovens) que nunca saem dos bastidores. Em "Eldorado", o palco é deles.

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Não se sabe se o sonho americano alguma vez existiu, mas há muitos a viver o pesadelo luxemburguês. O Luxemburgo é um dos países europeus onde é mais difícil progredir na escala social. A escola devia servir de ascensor, mas este está encravado. As maiores vítimas são os imigrantes, a começar pelos portugueses.