Escolha as suas informações

EDITORIAL: Morrer nunca é simples

EDITORIAL: Morrer nunca é simples

Foto: Shutterstock
Editorial Sociedade 2 min. 30.05.2018

EDITORIAL: Morrer nunca é simples

Paulo Pereira
Paulo Pereira
A discussão em redor da eutanásia mexe com muito do que somos enquanto seres humanos, mas também com aquilo em que se tornaram as sociedades.

Por estes dias, o tema da eutanásia, do suicídio assistido e da morte assistida voltou à discussão, pública e no Parlamento português. É uma oportunidade para debate sério e, como de costume no que respeita a questões de âmbito fraturante, um momento que alguns aproveitam para reemergir do mais fundo do bafio expresso nas suas opiniões.

Apesar de demasiado sério para ser discutido como se se tratasse de uma questão para claques ou grupos de pressão, o assunto desencadeou algumas reações desse teor. Misturam-se conceitos, envolvem-se paixões e religiões, confundem-se situações e a discussão deixa de ser séria para se transformar num embuste.

A verdade é que a discussão em redor da eutanásia, do suicídio assistido e da morte assistida mexe com muito do que somos enquanto seres humanos, mas também com aquilo em que se tornaram as sociedades. Os mesmos espaços que são incapazes de garantir as condições para que os cidadãos construam uma vida digna assumem, depois, a hipocrisia de ditar que a morte não pode ser de escolha individual, enquadrada em regras bem definidas.

Morrer nunca é simples. Tratando-se de uma inevitabilidade com a qual lidamos desde sempre, não tem de ser inevitável o modo como cada um morre. Mais: pode a eutanásia ser um ato de amor? Pode, mas muitos não conseguem interpretá-lo desse modo. Pacientes com doenças terminais, sem qualquer esperança de recuperação e com sofrimento não apenas pessoal, mas para os familiares, devem ser obrigados a permanecer nesse estado sem qualquer hipótese de escolha? Que vida é a de alguém que, como Ramón Sampedro, tetraplégico desde os 25 anos por causa de um acidente ao mergulhar numa praia e cuja história foi adaptada ao cinema, fique amarrado a uma cama durante a maior parte da sua vida? Não deve ser-lhe permitida a opção de recusar estar preso a essa condição apenas à espera de morrer? É obrigatório que quem sofra de doenças degenerativas vá sendo, lenta e inexoravelmente, empurrado para o descontrolo total, perdendo consciência de si próprio, mas, ainda assim, continuando vivo?

Todos têm direito à sua opinião, mas seria importante que se permitisse esta abertura, sinal de democracia e de progresso. Sempre com regras, sem exageros, mas lembrando aos catastrofistas que, no caso do aborto, os cenários de calamidade trçados por tantos nunca se confirmaram. Pelo contrário, um passo fundamental foi dado para a defesa da saúde das mulheres. Ficou pior ou melhor a sociedade portuguesa? Os resultados falam por si.