Escolha as suas informações

EDITORIAL: Mong Kok, Lisboa e Luxemburgo

EDITORIAL: Mong Kok, Lisboa e Luxemburgo

Foto: Reuters
Editorial Sociedade 2 min. 02.11.2017

EDITORIAL: Mong Kok, Lisboa e Luxemburgo

Mesmo em 2060, com uma população de cerca de um milhão de habitantes, o Luxemburgo teria uma densidade populacional inferior à de Lisboa.

Por José Campinho - Com 130 mil habitantes enfiados em cada quilómetro quadrado (Km2), Mong Kok, um dos bairros de Hong Kong, é conhecido por ser o local com a maior densidade populacional do planeta.

Mais do que assustador é inimaginável. Inclusive para os próprios habitantes de Hong Kong. É que os seus cerca de 6,5 mil habitantes por Km2 têm, pelo menos, espaço para dormir na horizontal. No entanto, convém salientar que os 7,2 milhões de pessoas que ali vivem estão concentrados numa área urbana que não chega aos 1.000 Km2. Ou seja, um terço do distrito de Lisboa, mas com o triplo dos habitantes. Mais uma vez difícil de imaginar.

Olhemos mais de perto para a capital portuguesa, desta vez apenas para a realidade demográfica da cidade, onde já só vivem cerca de meio milhão de pessoas. Juntemos-lhe mais 450 mil pendulares e ficamos com perto de um milhão de habitantes que, pelo menos durante o dia, frequentam uma área de… 100 Km2.

Para quem ainda tem dificuldade em imaginar o que esta área representa, basta pensar na capital luxemburguesa e multiplicá-la por dois. Visto assim, Lisboa parece pequena. E, no fundo, é. Mas não deixa de ter espaço para um milhão de pessoas.

Voltemos à capital luxemburguesa. Uma pequena cidade de 51 Km2 onde residem cerca de 115 mil pessoas, mas cuja população duplica durante o dia com a chegada dos pendulares, a maioria dos quais residentes num dos países vizinhos. Ou seja, uma densidade populacional de aproximadamente quatro mil pessoas por Km2 durante o dia e de 2,2 mil pessoas durante a noite e aos fins de semana. Parece pouco. E, realmente, é.

Mas ao olharmos para as autoestradas, vemos uma cidade a rebentar pelas costuras, onde qualquer pequeno acidente é suficiente para parar o trânsito durante uma ou duas horas. Vemos os preços do imobiliário a disparar porque não há espaço para construir habitações. E vemos uma qualidade de vida em constante diminuição.

O problema do Luxemburgo não é ter gente a mais. Longe disso. Mesmo no cenário traçado pelo organismo nacional de estatística para 2060, altura em que a população do país poderá ultrapassar a fasquia do milhão de habitantes, estaríamos perante uma densidade populacional inferior à de Lisboa.

O problema é a ausência de visão e, ao contrário do que acontece noutros setores, a lentidão com que se tomam decisões. Foram necessárias várias décadas para finalmente ver chegar o elétrico (’tram’). A construção de um metro ficou, para já, posta de parte. As ligações de comboio não cobrem zonas do país que nem sequer autoestradas têm. O alargamento das autoestradas mais congestionadas para três faixas de rodagem discute-se há anos, mas as obras ainda nem sequer começaram.

É frequente ver chegar figuras consagradas em áreas como a economia, a arquitetura, a investigação para aconselhar o governo luxemburguês em questões estratégicas de importância para o desenvolvimento do país. Talvez fosse altura de o Ministério do Desenvolvimento Sustentável e das Infraestruturas fazer o mesmo.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.