EDITORIAL: Marchas populares

Foto: Creative Commons

Paula Telo Alves

Aviso à navegação: esta crónica não é sobre as Marchas de Santo António ou de São João. É sobre marchas, sim, mas a dos povos, na luta pela conquista de direitos fundamentais.

O Southern Poverty Law Center (SPLC) é uma organização sem fins lucrativos que combate o racismo e promove a tolerância, mas o edifício em que opera, nos Estados Unidos, tem tanta segurança a rodeá-lo como uma Embaixada em zonas de conflito. A organização de direitos humanos fica em Montgomery, capital do Alabama, que visitei em 2010, como enviada do Contacto.

Do outro lado da rua, havia snipers e homens armados com metralhadoras para proteger a associação, uma imagem que deixa os visitantes alarmados. À entrada, um cartaz pede desculpa pelas medidas de segurança e explica que o centro é regularmente alvo de ameaças de atentados. Um objeto chama a atenção dos visitantes: um relógio derretido, parado na hora exata em que um atentado destruiu a sede anterior da organização, em 28 de julho de 1983. É tudo o que resta do antigo edifício da associação, alvo da fúria do Ku Klux Klan.

A associação combate há anos supremacistas brancos e grupos de ódio anti-imigrantes, e a sua luta pelos direitos civis dos afro-americanos e das minorias étnicas converteu-o num alvo a abater.

A capital do Alabama é um museu a céu aberto sobre os direitos civis dos negros norte-americanos. Foi ali que Rosa Parks recusou ceder o lugar a um branco no autocarro, levando ao boicote liderado por Martin Luther King que abriria caminho ao fim da segregação. Montgomery também era o destino de uma marcha de protesto que devia sair de Selma, a 90 quilómetros, para lutar pelo direito de voto dos afro-americanos, em março de 1965. Os negros tinham conquistado o direito de voto um século antes, em 1865, com o fim da escravatura, mas só no papel. Na prática, eram obrigados a fazer testes de literacia e a pagar taxas elevadas. Os que mesmo assim insistiam em recensear-se encontravam as portas fechadas ou eram ameaçados pelo Ku Klux Klan.

Muitos pagaram com a vida esse ato de cidadania que hoje damos como garantido. A marcha de pacifistas foi massacrada por tropas estatais, num dia que ficou conhecido como “Domingo Sangrento”. O seu sacrifício abriria portas ao Voting Rights Act, a lei que proibiu as barreiras ao voto dos afro-americanos.

A história da luta pelo direito de voto mostra que votar é mesmo uma arma. Sempre houve quem quisesse manter alguns grupos de pessoas (mulheres, negros ou estrangeiros) arredados do poder, e não hesitasse em recorrer à violência para o fazer. Mesmo no Luxemburgo, país onde felizmente a violência é a exceção, o referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros nas legislativas valeu a Xavier Bettel ameaças de morte. E os responsáveis da Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) também já foram alvo de ameaças de grupos nacionalistas, condenados nos tribunais luxemburgueses.

Hoje, os estrangeiros continuam sem poder votar nas legislativas, mas podem fazê-lo nas eleições municipais, desde que vivam no Luxemburgo há cinco anos e se inscrevam na autarquia onde vivem até 13 de julho. É rápido, fácil – basta um documento de identidade – e indolor. Em tempos de amnésia coletiva, é bom recordar que nem sempre foi assim. Recensear-se é também honrar a memória de todos os que foram e ainda são impedidos de votar. E a coragem dos que lutaram pelos nossos direitos cívicos.

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