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EDITORIAL: Família e Matrimónio
Sociedade 3 min. 26.03.2014

EDITORIAL: Família e Matrimónio

EDITORIAL, por Belmiro Narino - Nos meus tempos de jovem estudante, eram-nos pregadas as três grandes devoções: ao SS. Sacramento, a Nossa Senhora, ao Papa. Não me parecia que o Papa estivesse bem no seu lugar. Sentimentos de respeito, aceitação e ternura, como se vê com o actual Bispo de Roma, de acordo. Mas, devoção, no mesmo pedestal das outras duas, soava um pouco a papolatria...

Só, anos mais tarde, fiquei esclarecido, e reconfortado, com uma frase de um dos grandes teólogos que precederam o Concílio Vaticano II e nele trabalharam, como consultores, o dominicano Yves Congar, mais tarde feito cardeal por João Paulo II: “O Papa não está acima da Igreja, o Papa está na Igreja”.

Quando o Cardeal Bergoglio, de Buenos Aires, eleito Papa em 13 de Março de 2013, se apresentou ao balcão central da Basílica de S. Pedro, ninguém poderia prever a dramática transformação que operaria, na Igreja de Roma, nos doze primeiros meses do seu pontificado. Mas quando se inclinou, ao balcão, pedindo as orações e a bênção do povo de Deus, todos se deram conta de que nada seria como dantes. Um ano depois, a Igreja Católica apresenta um novo rosto, para dentro e para fora, dócil, caloroso e amigo, o rosto da inocência e não do poder.

A escolha do nome, Francisco, soou como uma profecia. “Francisco, vai reparar a minha Igreja em ruínas”. Ficamos atónitos perante a obra já realizada, em apenas 12 meses, a renovar e reconstruir a Igreja, em vários sectores importantes, mas sobretudo a restabelecer o diálogo do amor mútuo com os católicos da periferia, marginais e excluídos, por causa do divórcio, das questões de género, de coabitação, de natalidade.

Logo no primeiro dia anunciou que iria lançar a Igreja numa nova peregrinação às fontes do Cristianismo. “Vamos caminhar juntos, o Bispo e o povo”. Essa caminhada vai celebrar a primeira etapa, em Outubro próximo, com um sínodo dos Bispos, especial e internacional, sobre como os católicos vivem a família. A doutrina da Igreja e a vida real dos católicos. Segunda etapa, em 2015, sobre o mesmo tema. Uma revolução está em curso. “Uma revolução, é a chamada de uma tradição menos profunda para uma uma tradição mais profunda” (Péguy). Uma leitura, fresca, do Evangelho. Com este Papa, é anacrónico o que Gustave Thibon dizia, subtil e ironicamente: “Felizmente, temos a Igreja para nos proteger do Evangelho”.

Frei Timothy Radcliffe, O.P., detentor dos mais altos títulos da Universidade de Oxford, pouco tempo depois de ser eleito Superior Geral dos Dominicanos, escreveu, numa das suas primeiras cartas, que tinha encontrado, na sua Ordem, um grande silêncio, não o silêncio dos contemplativos, mas do medo do debate. Esse medo acabou. Francisco, ele mesmo campeão da misericórdia, apresenta-nos Deus como Pai, “Abba”.

 É nesta Igreja em revolução, num ambiente novo de verdade e confiança, que o Papa Francisco lança uma consulta, inédita, aos fiéis do mundo inteiro, sobre o casamento e a família.

Que “sexo antes do casamento” e “coabitação” sejam ditos pecaminosos, não parece incomodar no mundo de hoje. Essa prática é tão frequente entre os católicos, que nem por isso se sentem fora da Igreja, como na sociedade, em geral.

Seria bom identificar, com a ajuda do inquérito, as dificuldades que se encontram para o casamento, a começar pela finança. Não deverá a Igreja ajudar, e não condenar como pecadores, os que fazem o melhor que podem em circunstâncias adversas?

Esta sondagem é um grande passo para restabelecer a confiança entre a instituição eclesiástica e o mundo dos fiéis. Esperamos ainda que as conclusões do inquérito sejam comunicadas, antes do referido sínodo, e sejam propostas, em debate geral, a toda a Igreja. Não é compatível, com o estilo de verdade a que Francisco nos habituou, a censura dos antigos dicastérios, que não deixe comunicar a verdade aos mais interessados, os simples católicos.

Que esta iniciativa papal contribua para bons casamentos, felizes famílias... “and good remarriages too” (e bons recasamentos também), como diz o Bispo de Menevia, País de Gales.

Belmiro Narino