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Editorial. Conversa de surdos com uma adolescente
Editorial Sociedade 2 min. 27.05.2020

Editorial. Conversa de surdos com uma adolescente

Editorial. Conversa de surdos com uma adolescente

Editorial Sociedade 2 min. 27.05.2020

Editorial. Conversa de surdos com uma adolescente

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Não me lembro de ser assim. Mas talvez fosse. Porque é que a passagem pela adolescência tem que ser uma tempestade nos núcleos familiares? O estudo que revelamos hoje denuncia os principais problemas dos adolescentes do Luxemburgo. Respostas e soluções procuram-se.

"Podes tirar o telemóvel e os auscultadores enquanto estamos a jantar!". "Porquê?", pergunta a minha filha com um ar de incompreensão. "Para falarmos...", respondo. Não percebo porque é que tive que explicar porque me parecia óbvio. "Mas queres falar sobre o quê?", pergunta a menina de 12 anos do outro lado da mesa. "Sobre o que tu quiseres...", respondo. "Mas não temos nada para falar", diz. E depois a muito custo lá consegui arrancar algumas palavras sobre o novo normal nas salas de aula, que impede as suas amigas de se aproximarem, sem máscara na cara.

Este é apenas um pequeno exemplo das dificuldades de comunicação dos adolescentes com os pais. Justamente esse é um dos principais problemas apontados no estudo da Organização Mundial de Saúde que analisou cerca de 220 mil adolescentes em países europeus e no Canadá de 11, 13 e 15 anos que publicamos na edição impressa desta semana do Contacto.

"Sedentários, pensam que estão gordos demais, queixam-se de dores nas costas, sentem-se irritados e com dificuldades em dormir", escreve a jornalista Paula Santos Ferreira.

Ilustração: Florin Balaban

Este é o retrato dos adolescentes luxemburgueses de acordo com as conclusões deste estudo. Irritados e nervosos, tem propensão para se envolver em confrontos físicos e queixam-se de falta de apoio por parte dos professores.

Mas será que a adolescência tem mesmo de ser um período de problemático e de stress? Para responder a esta pergunta, há cerca de cem anos, Margaret Mead, uma das mais famosas antropólogas da história decidiu passar nove meses na ilha de Ta’u em Samoa, na Papua Nova Guiné, para descobrir se as adolescentes locais também enfrentavam todas estas dificuldades atribuídas à chamada "idade do armário".

Na sua obra mais famosa, "Coming of Age in Samoa", Mead argumenta que a adolescência para as raparigas de Samoa não era um período stressante, como acontecia com as jovens norte-americanas. A explicação estava nos diferentes padrões culturais das duas civilizações. Como escreveu Franz Boas no prefácio deste livro era importante descobrir se era universal o facto dos jovens, principalmente as mulheres passarem pela adolescência como "períodos inevitáveis de ajustamento". A resposta de Margaret Mead é conclusiva: "Tratei de dar resposta à questão que me enviou a Samoa: Os distúrbios que angustiam os nossos adolescentes devem-se à natureza própria da adolescência ou à civilização? Sob diferentes condições a adolescência apresenta diferentes circunstâncias." Uma das mais famosas antropólogas da história concluiu que a passagem da infância à adolescência em Samoa era uma transição suave e não estava marcada pelas angústias emocionais ou psicológicas, a ansiedade e a confusão observadas nos Estados Unidos.

Será que os contextos e os padrões das sociedades ocidentais contribuem para criar uma verdadeira tempestada quando passamos pela adolescência? Publicado em 1928 o livro de Margaret Mead foi "uma pedrada no charco" que causou muitas reações negativas. Talvez a forma como vivemos hoje ainda facilite menos este ritual de passagem da infância para a idade adulta.

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