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Editorial. As ruas serão sempre nossas
Editorial Sociedade 4 min. 03.06.2020

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Editorial. As ruas serão sempre nossas

Foto: AFP
Editorial Sociedade 4 min. 03.06.2020

Editorial. As ruas serão sempre nossas

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A estratégia do autoritarismo e do regresso à guerra fria de Donald Trump tem um objetivo imediato: vencer as eleições presidenciais norte-americanas de 3 de novembro.

Depois da Guarda Nacional ter invadido as ruas de Los Angeles, muitos manifestantes tiveram medo de sair às ruas. Alguns dos organizadores das centenas de manifestações previstas para a cidade não recuaram. "Não podemos cancelar a nossa cor de pele porque temos medo", justificava um deles. Algumas centenas de manifestantes juntaram-se na conhecida interceção entre a Sunset Boulevard e a Laurel.

O protesto teve um momento simbólico quando a polícia lhes propôs um acordo. Todo o dispositivo policial colocaria um joelho no chão, solidarizando-se com o protesto, em troca, os manifestantes, comprometiam-se a dispersar a concentração antes do recolher obrigatório marcado para as cinco da tarde, evitando assim que os polícias tivessem que reprimir as pessoas na rua. Assim foi.

Durante toda a semana, um pouco por todo os EUA, houve polícias que se juntaram aos manifestantes e solidarizaram-se com os protestos contra a morte de mais um negro, num ato de violência policial. Foram momentos simbólicos que não podem fazer esquecer nem o motivo das concentrações, nem os mais de 4.100 detidos e seis mortos em confrontos, com a polícia, durante as manifestações.

Nesta segunda-feira, Donald Trump dá uma espécie de golpe militar, em que manda as tropas para a rua sem qualquer suporte legal: a legislação de 1807 que cita, para utilizar tropas contra civis, obriga a que a mesma seja votada no Congresso, coisa que obviamente o atual Presidente não pretende fazer.

Haver polícias e militares que neste contexto se solidarizam com os manifestantes mostra que a via autoritária, que pode levar o país à beira do precipício, não colhe o consenso nem entre as forças de segurança.

As imagens do assassinato de George Floyd não revelaram o racismo dos EUA, apenas o filmaram. Mas ao fazê-lo, tornaram intolerável um conjunto de situações que ocorrem todos os dias nessa sociedade. Há um racismo estrutural que faz com que as vidas dos negros valham menos que as dos brancos, para as autoridades policiais. Há um racismo estrutural que condena a maioria dos negros à pobreza. Os agregados familiares brancos têm em média dez vezes mais rendimento que as famílias dos negros; e há 2,5 vezes mais hipóteses de um negro ser morto pela polícia que um branco.


Luxemburgo vai juntar-se aos protestos para exigir justiça a George Floyd
A organização do protesto esta a cargo da associação Lëtz Rise Up, que comunica que apela aos cidadãos para que mostrem "solidariedade para com as pessoas que lutam contra a violência policial".

A eleição de Obama para a presidência norte-americana foi um momento simbólico, mas não alterou grande parte desta desigual e cruel realidade. Com a eleição de Trump, apoiada pela nova extrema-direita e até pelo Klu Klux Klan, esse simbolismo foi revertido, e numa altura que mais de 40 milhões de norte-americanos vão para o desemprego, devido à crise trazida pelo coronavírus, são os negros e os hispánicos, que hoje são quase metade da população, que são as maiores vítimas dessa recessão económica.

A estratégia do autoritarismo e do regresso à guerra fria de Donald Trump tem um objetivo imediato: vencer as eleições presidenciais norte-americanas de 3 de novembro, apesar de ter levado o país para a ruína económica. Não há nada como a guerra contra um inimigo interno e externo para disfarçar governos desastrosos numa retórica populista e racista. Mas as consequências desta deriva não se esgotam na mercearia eleitoral. Abriu-se a caixa de pandora dos métodos ditatoriais e levou-se o planeta mais perto de uma guerra destruidora.

Fora isso, em alguns aspetos, a situação dos negros não é tão diferente do que era nos anos 60, no início do movimento dos direitos cívicos.

Nos Jogos Olímpicos de 1968, os atletas olímpicos Tommie Smith e John Carlos dos EUA, erguem o punho cerrado, com luva negra, fazendo a saudação do Black Power. O gesto custou-lhes a carreira: foram excluídos da equipa norte-americana, lançados para o desemprego e ameaçados de morte.

Nos dias de hoje, os polícias têm posto um joelho no chão em solidariedade com os manifestantes, mas o atleta que celebrizou o gesto, Colin Kaepernick, que colocou um joelho no chão, em 2016, durante o hino dos EUA, para contestar o racismo, nunca mais encontrou emprego. Desde 2016 que está afastado dos campos do futebol americano.

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