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Editorial. A pandemia é uma máquina de fabricar ricos
Editorial Sociedade 3 min. 23.09.2020

Editorial. A pandemia é uma máquina de fabricar ricos

Editorial. A pandemia é uma máquina de fabricar ricos

Foto: AFP
Editorial Sociedade 3 min. 23.09.2020

Editorial. A pandemia é uma máquina de fabricar ricos

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A covid-19 pode provocar na sociedade luxemburguesa, para além das consequências na saúde, um aumento das desigualdades e até um golpe mortal no modelo de consenso social e negociação tripartida.

Numa altura que as economias do mundo atingem quebras comparáveis aos períodos das guerras mundiais e da Grande Depressão dos anos 30 do século passado, as bolsas conseguem atingir os seus máximos históricos. O planeta um dia pode acabar, mas se as baratas e as bolsas sobreviverem, as cotações das grandes empresas vão provavelmente continuar a subir, mesmo que já sobrem poucos humanos.

A economia mundial viveu, no início da pandemia, os piores três meses dos últimos 90 anos, mas os mercados financeiros estiveram em ebulição, depois de uma queda inicial. No final de agosto, o índice S&P, que regista o índice de valorização bolsista das principais empresas nas bolsas norte-americanas, atingiu o seu máximo de todos os tempos.

Esta euforia financeira no meio de uma catástrofe económica levou o próprio Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, no acrónimo em inglês) a emitir um alerta para a "exuberância nos mercados" face a previsões que apontam para quebras de dois dígitos na economia real dos Estados Unidos e da Europa. Recentemente, o Banco Central Europeu (BCE) apontou para uma quebra de 13% na zona euro e o modelo de projeções do Banco da Reserva Federal de Atlanta prevê um colapso histórico de 39,5% na economia norte-americana no segundo trimestre.

A razão deste paradoxo encontra-se na liquidez existente nos mercados, devido à política monetária dos principais bancos centrais. "Os investidores olham para os mercados com duas lentes. Uma olha para a economia real, e esta está horrível. Contudo, há uma segunda lente que olha para a liquidez. Os investidores estão, por isso, a assumir riscos no mercado de ações, no cambial e na dívida", afirma Marc Chandler, diretor na consultora financeira Bannockburn Global Forex, ao jornal Expresso.

Um processo de euforia para uns poucos e crise para a grande maioria em que o Luxemburgo participa. Um dos responsáveis de estratégia da consultora PwC do Luxemburgo, Olivier Carré, concluio o óbvio: "A covid-19 reforçou os mais fortes e enfraqueceu os mais fracos".

Por todo o lado, também no Grão-Ducado, aparecem as nuvens escuras do desemprego. Se não forem tomadas medidas para uma maior partilha social dos custos da crise económica, que se segue à pandemia, será difícil manter o modelo de manutenção do consenso social no Luxemburgo. Só é possível manter um país com direito à greve restringido e com ausência de conflitualidade social, quando existe um crescimento contínuo que permite enriquecer os mais ricos e ir distribuindo alguns proveitos a quem trabalha.

O previsível crescimento do desemprego vai agravar ainda mais o empobrecimento de parte da sociedade luxemburguesa. Quando se esgotarem os apoios estatais, sobretudo o recurso ao desemprego parcial, as empresas vão ter a tendência a cortar nos custos de trabalho. Um conjunto de medidas que são facilitadas por uma legislação laboral que torna fácil despedir. Até agora, esse tipo de legislação não encontrava muita resistência devido ao crescimento da procura de mão de obra. Quando alguém era despedido numa empresa, facilmente conseguia encontrar emprego noutra. Uma situação que neste momento dificilmente se vai verificar.

Antes da crise do coronavírus, as associações patronais no Grão-Ducado defenderam a necessidade de "furar" as reuniões tripartidas com o Governo e os sindicatos, para negociarem a evolução da distribuição de rendimentos e as normas laborais diretamente com o Governo. Nessa altura, o executivo não teve uma ação forte para a reposição do modelo de concertação social. Durante a crise pandémica, com a justificação de tomar medidas a tempo, o executivo deixou na prática de consultar os trabalhadores.

A covid-19 pode provocar na sociedade luxemburguesa, para além das consequências na saúde, um aumento das desigualdades e até um golpe mortal no modelo de consenso social e negociação tripartida.

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