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Editorial. A barbárie dos pequenos poderes
Editorial Sociedade 3 min. 10.06.2020

Editorial. A barbárie dos pequenos poderes

Um Camões em tempos de covid-19.

Editorial. A barbárie dos pequenos poderes

Um Camões em tempos de covid-19.
Ilustração: Florin Balaban
Editorial Sociedade 3 min. 10.06.2020

Editorial. A barbárie dos pequenos poderes

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Pequenos poderes e biopolítica são dois conceitos criados pelo filósofo Foucault que se aplicam na perfeição aos dias que hoje vivemos. O mundo nunca mais vai ser o mesmo.

Um funcionário de uma repartição de Finanças que nos exige um documento que é impossível de obter. Um porteiro de uma discoteca que decide cobrar 100 euros de entrada. A vigilante da escola que não deixa entrar a nossa filha porque chegamos trinta segundos depois do toque.

Tropeçamos neles, nas mais variadas situações. Falo dos pequenos poderes, conceito criado pelo filósofo Foucault que mudou a modo de olhar para as relações de poder. São arbitrários, muitas vezes mesquinhos, incontroláveis e cegos.

Mas a tirania destes pequenos poderes pode atingir níveis de violência sem controle que, em casos extremos, podem mesmo levar à morte. O assassinato bárbaro do George Floyd, cujas imagens correram o mundo e indignaram milhões de pessoas, não é mais que um ato tirano de um pequeno poder que levou à morte de um inocente, sem explicação. Numa sociedade profundamente racista, a indignação de milhões ultrapassou as fronteiras dos EUA e gerou um movimento que se estendeu a outros continentes. Assim, "o poder é guerra, guerra prolongada por outros meios", escreveu Foucault.

Um Camões em tempos de covid-19.
Um Camões em tempos de covid-19.
Ilustração: Florin Balaban

Na maior economia do mundo todos os anos a polícia dispara e mata cerca de mil pessoas por ano. São números revelados pelo Washington Post. Depois, há estudos que comprovam que a violência gera mais violência. Investigadores das universidades de Harvard e Carnegie Mellon revelam que é nas zonas em que há uma maior percentagem de pessoas com porte de arma que acontecem mais tiroteios da polícia.

Confinamento, distanciamento social, uso de máscaras, não são mais que ferramentas de aplicação deste biopoder.

Visionário, Foucault criou, também, o conceito de biopolítica, na década de 70, que se aplica a papel químico à situação que vivemos atualmente. Hoje, mais que nunca, "o controlo da sociedade sobre os indivíduos, não é feito apenas através da ideologia, mas através do corpo dos indivíduos", escreveu Foucault. O 'biopoder' que não é mais que a aplicação e o impacto do poder político em todos os aspetos da nossa vida.

Confinamento, distanciamento social, uso de máscaras, não são mais que ferramentas de aplicação deste biopoder. Foi principalmente em Vigiar e Punir (1975) nos anos de 1970, que Foucault mostrou como surgiram, a partir do século XVII, técnicas de poder que, centradas no corpo dos indivíduos, causaram resultados profundos e duradouros no âmbito macropolítico.

A utilização de uma aplicação para controlar o evoluir da pandemia, – que está a ser usada em muitos países – tem implicações graves na violação da privacidade e no controle dos movimentos das pessoas. Uma app que não é mais que colocar a tecnologia ao serviço da biopolítica. Nesta edição falamos dos prós e dos contras destas aplicações.

Numa entrevista exclusiva ao responsável pelo estudo Con–Vince, feita pela jornalista Paula Santos Ferreira, revelamos uma previsão inquietante: "Cerca de 97% da população do Luxemburgo ainda corre o risco de ser infetada". Depois respondemos à eterna questão se podemos, ou não, fazer férias neste verão. Uma dúvida que preocupa milhões de emigrantes portugueses, espalhados pelo mundo.

Nas nossas páginas damos a conhecer, ainda, a história de Licínio Oliveira, um leitor cego do Contacto, que todas as quartas-feiras ouve as notícias que publicamos. Uma história extraordinária de uma pessoa extraordinária contada por Ricardo J. Rodrigues.

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