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EDITORIAL: 10 de Junho esférico
Editorial Sociedade 3 min. 08.06.2016 Do nosso arquivo online

EDITORIAL: 10 de Junho esférico

EDITORIAL: 10 de Junho esférico

Foto: Reuters
Editorial Sociedade 3 min. 08.06.2016 Do nosso arquivo online

EDITORIAL: 10 de Junho esférico

Assinala-se esta sexta-feira mais um 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Os portugueses no Luxemburgo não fogem à regra e preparam-se para festejar aquele que já foi o Dia da Raça e do Anjo Custódio do Reino de Portugal, que terá ajudado D. Afonso Henriques a vencer os mouros invasores.

Assinala-se esta sexta-feira mais um 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Os portugueses no Luxemburgo não fogem à regra e preparam-se para festejar aquele que já foi o Dia da Raça e do Anjo Custódio do Reino de Portugal, que terá ajudado D. Afonso Henriques a vencer os mouros invasores.

Este é o dia em que se assinala a morte do grande poeta Luís Vaz de Camões (10 de Junho de 1580), símbolo de Portugal, que para muitos continua vivo e actual, e até vai mudar de casa no Luxemburgo: de Bonnevoie para Merl (ver artigo da página 4). (“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”).

Também esta sexta-feira o dia vai ser de festa para os amantes do desporto-rei. É o início do Euro2016, que se disputa este ano em França, com os anfitriões a receberem a Roménia no jogo de abertura.

Além da data, estes dois eventos nada têm a ver um com o outro, a não ser talvez a figura da esfera: a armilar, símbolo dos Descobrimentos marítimos e início da “globalização portuguesa”, e por outro, um dos expoentes máximos da actual globalização: o esférico do futebol e tudo o que gira à sua volta.

Luís Vaz de Camões imortalizou melhor do que ninguém, na sua magna obra Os Lusíadas, a esperada epopeia dos feitos portugueses. Era a história de Portugal que precisava de ser contada. Uma história que naquele tempo culminava nos Descobrimentos.

Quatro dias depois do 10 de Junho, a selecção das quinas vai começar “os descobrimentos” do Euro2016.

A nau da cruz de Cristo vai ter pela frente um drakkar viking repleto de islandeses. Se sair vencedora poderá ser o início de uma nova epopeia. Que se faça história!

Para escrever esta epopeia à maneira da Odisseia, Camões precisava de uma viagem. A descoberta do caminho marítimo para a Índia (1497-1499), comandada por Vasco da Gama, foi o pano de fundo d’Os Lusíadas.

A figura de Vasco da Gama até chegou a ser usada como narrador n’Os Lusíadas. Hoje, Fernando Santos também poderá sê-lo. Mas não basta uma viagem ao Oriente ou até França. É preciso um enredo, um fio condutor, uma obra de arte com protagonistas.

N’Os Lusíadas os heróis de carne e osso não estavam à altura da convocatória. Eram autênticas estátuas de pedra em campo, sem alma, sem mística. A solução encontrada por Camões foi recriar heróis sobre-humanos, os deuses. Estes tinham objectivos e lutavam por eles, dando dinâmica à obra.

Já os heróis de Fernando Santos precisam transcender-se em campo, enfrentar tempestades, trombas de água, fogos de Santelmos, Adamastores, dar o que têm e o que não têm se quiserem candidatar-se à imortalidade dos deuses.

Depois de preso por envolvimento numa rixa, e a troco de ser liberto, Camões foi enviado aos 27 anos para a Índia como homem de guerra, apesar de letrado. “Numa mão a espada, noutra a pena”. O estágio no Oriente não lhe foi fácil, sempre envolvido em problemas por onde passou: Goa, Golfo Pérsico, Ternate (nas ilhas Molucas, Indonésia), Macau, Cochinchina (Sul do Vietname), onde naufragou salvando apenas Os Lusíadas.

Viveu no Oriente 17 anos da “globalização portuguesa”, tempo que lhe serviu para se dar conta de um erro crasso que lhe faria repensar Portugal. Era preciso dizê-lo.

Sob a capa do Velho de Restelo (“C’um saber só de experiências feito”), Camões disse a verdade: Portugal não tinha gente para tanta terra. Em vez de “dilatar a fé e o império”, o poeta defendia que Portugal deveria então concentrar-se no norte de África.

Saberia do que falava, pois ele mesmo tinha estado dois anos em Ceuta, onde perdera um olho, provavelmente em batalha.

Mas ninguém dá ouvidos a quem só tem um olho para ver e os vaticínios do Velho do Restelo viriam à tona mais tarde com a decadência do Império.

O Dia de Portugal deve ser um dia de festa e alegria. Ninguém quer ver os erros do passado repetidos. Que a selecção que enverga a cruz de Cristo tenha gente para tanto terreno de jogo.

Que se faça história e que se escreva uma nova epopeia, com ou sem a ilha dos Amores como prémio.