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Edgar Cabanas. “Mais que uma ilusão, a felicidade é uma realidade dececionante”
Sociedade 8 min. 06.11.2019

Edgar Cabanas. “Mais que uma ilusão, a felicidade é uma realidade dececionante”

Edgar Cabanas. “Mais que uma ilusão, a felicidade é uma realidade dececionante”

Foto: DR
Sociedade 8 min. 06.11.2019

Edgar Cabanas. “Mais que uma ilusão, a felicidade é uma realidade dececionante”

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A felicidade tornou-se o alfa e ómega da vida. A indústria da felicidade com os seus livros de auto-ajuda e a sua psicologia positiva garantem que ela depende só de nós. No meio de tudo isto todos os problemas sociais se dissolvem e a ideologia da felicidade serve para esconder a sua existência no manto diáfano do consumo feliz. O Contacto falou com o psicólogo Edgar Cabanas, co-autor do livro “A Ditadura da Felicidade”.

A felicidade é hoje algo de mais importante do que foi no resto da história da humanidade?

A felicidade é um tema recorrente ao longo da história do qual se tem ocupado sobretudo a filosofia. Desde os autores gregos e latinos, mas com vários pensadores, não só ocidentais como também orientais, a escrever sobre o assunto. É uma discussão que atravessa o tempo. O problema é que a felicidade apesar desse lastro de discussões é um conceito muito difícil de definir. O seu conteúdo é diferente conforme as culturas e os períodos históricos em que as pessoas vivem. Por exemplo, não era o mesmo a felicidade para Aristóteles que para Confúcio. Há muito pouco tempo apareceram movimentos populares e científicos de origem norte-americana que impuseram a sua ideia de felicidade a cada vez mais lugares e culturas. É um conceito de felicidade muito recente na história, muito peculiar e marcadamente norte-americano. Uma das responsáveis pela divulgação dessa ideia de felicidade como sendo algo de universal foi feita pela psicologia positiva ou a chamada ciência da felicidade.

Essa ideia de uma felicidade mensurável que, tal como o utilitarismo económico, pretende saber que satisfação se tem é uma ideia muito ligada a um determinado modelo económico ou tem em si alguma parte de um ideal eterno e constante da busca da felicidade humana?

Até há pouco tempo, mesmo a psicologia, da qual nasce esta psicologia positiva, estavam de acordo que a felicidade era uma questão relativa aos contextos culturais e sociais em que se expressava. Mas a certa altura, alguns psicólogos começaram a pensar que a felicidade podia ter elementos objetivos e que estes podiam ser estudados pela psicologia. O que se passou? Quando procuraram esses elementos supostamente objetivos a toda a felicidade, não os encontraram ou pelo menos de uma forma científica. Por muito que estes psicólogos da felicidade garantam que esses elementos comuns existem, há cada vez mais críticas a que se possa provar que há esses elementos objetivos. Quando aplicamos o método científico de uma forma rigorosa damo-nos conta que há muitos problemas.

Não se pode considerar, como no caso da física quântica, que se pode não entender o mundo dos quanta, mas os conceitos são operacionais? Na psicologia positiva não há coisas que melhoram a vida das pessoas concretas?

Obviamente que a psicologia positiva se apresenta como uma disciplina que vai melhorar a vida das pessoas, todos dizem isso. A questão é se melhora ou não. O que oferecem pode ser tentador e esconder uma mensagem de empoderamento para certas pessoas: a ideia que a felicidade depende unicamente de cada pessoa, em qualquer circunstância, seja rico ou pobre, tenha-lhe acontecido uma desgraça ou não, tenha acesso à educação ou não, seja rico ou pobre, pertença a uma minoria ou não. A psicologia positiva afirma que independentemente disso tudo, qualquer pessoa depende só de si para atingir a felicidade. É uma mensagem que aparentemente é muito empoderadora, mas tem muitas consequências, uma delas é que está a dizer que, ao fim cabo, se sofres ou és feliz é porque o queres ser. De tal maneira que se consideras a felicidade uma escolha, o sofrimento passa também a ser uma escolha. No fundo, garantem que se as pessoas sofrem, fazem-nos porque querem. Se a felicidade é tão fácil e se os psicólogos garantem ter as chaves da felicidade, então porque razão continua gente a sofrer? Resta concluir que o fazem porque querem e se calhar porque o merecem. Na verdade esse tipo de discurso que garante que para mudar a tua vida basta mudares tu mesmo, e que não é preciso mudar as tuas circunstâncias nem o teu entorno, é tentador e pode ser popular até nas pessoas mais vulneráveis. Mas sabe-se que mudar não é assim tão fácil, e dificilmente é possível sem alterar as condições em que a pessoa vive.

Esta psicologia positiva não aparece como uma espécie de braço armado da ideia que não há sociedade? Se só há problemas individuais que se resolvem individualmente não deixa de haver relações sociais?

É óbvio que a psicologia positiva tem uma componente ideológica. Mais, pode-se dizer que ela mesmo é uma poderosa ferramenta ideológica que funciona para esconder alguns dos factos mais cruéis da economia de livre mercado. O que o capitalismo fomenta é uma ideia de felicidade que é muito consumista e individualista. E isso manifesta-se no âmbito da política, no mundo laboral e no consumo que são as três áreas que mais analisamos no livro e em que se vê mais claramente o alinhamento da ideia de felicidade com a ideologia neoliberal. Isso é muito claro. Apesar de haver psicólogos positivos que podem não estar de acordo com o neoliberalismo, mas na prática o que defendem e difundem está alinhado com o neoliberalismo.

No livro falam, citando Foucault, de uma mudança de paradigma entre uma sociedade de disciplina para o uma sociedade de controlo, em que os mecanismos de controlo ficam internalizados na própria pessoa. O discurso da felicidade faz parte desse mecanismo de controle, convencendo as pessoas a auto explorarem-se, associando o êxito laboral à felicidade.

No livro desenvolvemos muito essa ideia de como o discurso da felicidade é usado pelas empresas. O setor empresarial não é estranho ao aparecimento desse discurso da felicidade. Desde os anos 50 a mudança no management foi no sentido a uma “emocionalização” da relação dos trabalhadores com a empresa e da responsabilização destes. As empresas foram dissolvendo as hierarquias e começaram a apostar mais na flexibilização e externalização, sublinhando a ideia que cabe ao trabalhador a responsabilidade dos seus êxitos e fracassos laborais. E que quem trabalha tem que assumir responsabilidade nas suas tarefas, objetivos e projetos profissionais. Faz-se o discurso que a pessoa cresce porque cresce a empresa. Nessa narrativa, os interesses da empresa e do trabalhador não são complementares, são idênticos. O que nós defendemos no livro é que não é verdade esta ideia do que faz feliz as empresas é o mesmo que faz feliz os trabalhadores. Muitas vezes os interesses são diferentes. Hoje em dia, o que fazem as empresas é externalizar muitas coisas, nomeadamente o trabalho, sobrecarregando os trabalhadores com muito mais trabalho, às vezes pelo mesmo ordenado. Tudo isso é feito com menos segurança no trabalho e com menos estabilidade laboral. Isso é problemático. Os níveis de stress de Burnout no trabalho não param de aumentar. Os trabalhadores estão cada vez mais insatisfeitos, mais stressados e menos integrados. Têm uma grande quantidade de problemas e apesar de todo o investimento que as empresas fazem na psicologia positiva e na felicidade, as empresas gastam milhões e milhões de euros em felicidade. Num dos últimos relatório da Gallup afirmava-se que as empresas gastam mais de 48 milhares de milhões de dólares anuais em aumentar a “felicidade” dos trabalhadores.

No final do livro recuperam uma alegoria que creio que é usada por Descartes e também por Robert Nozick, que é um pouco o cenário de Matrix: como é que os homens sabem se a sua vida e felicidade são reais e não estão pura e simplesmente ligados a máquinas que os estimulam e enganam. Uma alusão à nossa situação em que a felicidade é concebida em função da economia e do consumo. Se nos desligássemos da máquina produtiva haveria uma outra felicidade?

Mais que dizer que a felicidade é uma ilusão, o que dizemos é que ela é uma realidade dececionante. Não no sentido que alguém está a criar uma ilusão, mas no sentido que forma parte da realidade em que vivemos hoje. Muitas pessoas têm a esperança que a felicidade depende só deles próprios, funcionam e veem-se a si mesmo perante uma situação em que essas expetativas não são cumpridas. Prometem às pessoas que a felicidade depende de cada um e prometem que a felicidade está ao alcance de todos e isso não é assim. O que temos de encontrar é novas formas de felicidade que se ajustem aos tempos atuais mas que não promovam os efeitos mais perversos desta forma de vida, que as combatam. Os cientistas sociais não devem ser políticos e justificativos do existente. Nós produzimos conhecimento mas não produzimos escolhas políticas. São as pessoas do mundo político que têm de decidir quando se trata da forma de viver das pessoas. Isso não cabe aos cientistas. O que é bom e o que é mau. É uma coisa que criticamos nos psicólogos: propor uma alternativa e um caminho de felicidade não é um problema científico é uma tarefa política.

Se toda a ciência é feita por humanos, como é possível separar o conhecimento científico destas opiniões políticas?

É uma pergunta epistemológica importante. Posso dizer que quando escrevemos o livro separamos interesses. O nosso trabalho não foi pago por nenhuma entidade que eventualmente lucraria com as suas conclusões. Nenhuma entidade privada que tenha interesses na felicidade ou em eliminá-la. Mas criticamos quem o faça. No livro damos pistas sobre empresas que financiam a psicologia positiva e que depois lucram com isso. Mostrando que também, por causa disso, as conclusões da chamada ciência da felicidade são suspeitas.

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