Escolha as suas informações

É sobre um amigo...
Opinião Sociedade 7 min. 16.11.2020

É sobre um amigo...

É sobre um amigo...

Opinião Sociedade 7 min. 16.11.2020

É sobre um amigo...

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Tenho um amigo que, farto de estar solteiro e sem ter forma de encontrar mulheres durante este difícil tempo de pandemia, decidiu tentar a sua sorte no mundo virtual.

Começou por perguntar ao Google quais eram as melhores apps para encontrar "o amor da sua vida" (fim de citação) e a imensa sabedoria do maior motor de pesquisa do mundo propôs-lhe como primeiro resultado uma agência matrimonial ucraniana.

O meu amigo até clicou, mas desencorajou-se quando o formulário de inscrição lhe pedia mais informação do que aquela que ele estava decidido a partilhar. Por que razão querem saber a cor dos meus olhos e o meu peso? O meu amigo, que até está a pensar fazer regime, optou por dizer 7 quilos a menos do que o que pesa, e que é mais ou menos o necessário para voltar a vestir aqueles jeans caríssimos que não lhe servem há dois anos...

Meia dúzia de mentiras depois, o meu amigo chegou ao final do inquérito e apareceu-lhe uma página conhecida de todos nós em qualquer outro site de compras em linha: um formulário para inserir os dados do cartão de crédito. O meu amigo não é forreta, mas nunca pagou um jantar antes de comer e aprecia bastante a política de devoluções da Amazon, por isso decidiu ficar por ali. Saiu do navegador esperando que o site não guardasse os seus (falsos) dados pessoais e prontamente se ligou no telemóvel à loja de aplicações para procurar novas pistas.

Depois de muitas buscas e de instalar e desinstalar meia dúzia de apps, o meu amigo acabou por abrir uma conta no Tinder. Afinal todos os amigos solteiros do meu amigo estão no Tinder, deve ser por alguma coisa. Contudo, o meu amigo não levou o raciocínio até ao fim porque todos os seus amigos, e amigas, que estão no Tinder continuam sem parceiros...

Conta aberta, o meu amigo decidiu não colocar fotografia. Não quero cruzar alguém que me conhece e que pense que estou desesperado a este ponto, pensou o meu amigo. Apesar da firma decisão, o Tinder não parou de o chatear com a importância de colocar uma bela fotografia que o ajudaria a encontrar um 'match' mais rapidamente. O meu amigo cedeu. Publicou obviamente uma foto de há três ou quatro anos, da altura em que entrava nas tais calças de ganga.

A partir daí foi só 'swipar', que é o termo que se utiliza no Tinder. Se gostas da pessoa que te aparece no ecrã atira-la para a direita, se não gostas manda-la para a esquerda. O Tinder escolheu claramente o seu campo ideológico, apesar de ninguém se preocupar com isso, a não ser quem não tem mais o que fazer ou os autores de crónicas de jornal.

Para quem nunca utilizou o Tinder (somos raros, mas "que los hay, los hay"), é preciso explicar que não chega gostar de alguém para poder interagir com essa pessoa. É preciso que, graças ao algoritmo da aplicação e à intervenção de Santa Rita que tem a seu cargo os amores impossíveis, a pessoa de quem o meu amigo gostar também veja a sua fotografia e faça o 'swipe' para a direita. Se a utilizadora 'swipar' para a esquerda perde-se uma história de amor daquelas das telenovelas da SIC...

O meu amigo, engenheiro e de espírito prático, tomou uma decisão estratégica: quantas mais pessoas enviar para a direita, mais hipóteses tenho de fazer 'match' com alguém. Se bem o pensou melhor o fez, sem refletir que, para quem vive no Luxemburgo, isso significa gostar de fronteiriças alemãs ou holandesas, apesar de o meu amigo não falar uma palavra dessas duas línguas. Já para não referir a enorme panóplia de nacionalidades que pululam no Tinder com morada do Grão-Ducado e que dizem algures no perfil que só falam russo ou chinês... Mas quem é que lê os perfis?! O meu amigo não.

Não tinham passado cinco minutos e já o meu amigo tinha dois 'matches'. Curiosamente, ambas tinham ar oriental. Não sendo necessariamente fã de asiáticas o meu amigo apressou-se a reagir. Bonjour, eu sou o Zé (nome fictício), vivo no Luxemburgo há sete anos (tempo fictício) e gostei muito das tuas fotos.

A conversa passou rapidamente do Tinder para o WhatsApp onde tanto a Vivi como a Donna (nomes reais pensava o meu amigo) começaram a contar o seu dia. Engraçado, pensou o Zé (recordo que é um nome fictício), ambas têm o mesmo discurso: onde estudaram, o magnífico trabalho que têm, as duas trabalham no setor financeiro e as fotos que partilham das suas refeições parecem tiradas do Instagram de um chefe estrelado.

A Vivi partilhou mesmo uma foto sua em frente a um Mercedes branco novinho em folha com matrícula de Singapura, com a legenda: comprei o meu primeiro carro graças aos investimentos em bitcoin. O meu amigo Zé (que como já expliquei não se chama nem Zé nem José), até ficou intimidado. Uau! Estas mulheres são independentes e ricas. Entretanto, a Donna tinha-lhe explicado que agora estava na City de Londres onde trabalha para um grande banco internacional.

Apesar de a distância do Luxemburgo a Londres ser muito menos do que a de Bragança a Lisboa, o Zé (que na realidade não se chama assim) decidiu concentrar-se na Vivi que, afinal, estava cá no país. E esperou o momento mais propício para lhe propor um encontro. Sem querer parecer insistente ou precipitado, aproveitou o facto de ela partilhar um prato de legumes sob raios de sol para dizer: e se fossemos dar um passeio no parque de Merl agora que o sol apareceu?

A espera foi terrível: um minuto nada; dois minutos nada; três minutos nada. Será que exagerei?, pensou o meu amigo. Se calhar fui muito rápido e vou assustá-la, voltou a pensar. Se calhar deveria ter esperado mais um diazito, pensou ainda. Mas com um sonoro palavrão, que os vizinhos de baixo devem ter ouvido, decidiu não pensar mais nisso e esperar calmamente pela reação da Vivi. Uns sete minutos depois, o WhatsApp acordou. A Vivi dizia ao Zé (que na realidade se chama Manel) que podiam marcar encontro para jantar a partir de 28 de novembro.

Só?! pensou o Manel (nome verdadeiro). Mas decidiu responder que sim, que nesse dia estava disponível e que ela podia sugerir o restaurante e tudo. Ela não respondeu com mais detalhes, mas continuou a partilhar fotos de comida saudável, obrigando o Manel a fazer um segundo jantar por volta da meia-noite porque aquelas imagens lhe davam mesmo muita fome.

A conversa continuou durante dois ou três dias entre partilhas de comida e vistas de uma janela iguais a tantas outras, obrigando o Manel a subir ao sótão para retribuir com uma imagem decente dos tetos de Esch-sur-Alzette que não parecesse Beirute depois da explosão com tantas gruas e obras.

Entretanto, a Vivi explicou melhor ao Manel o que fazia: que procurava investidores em bitcoins, que tinha destinado a sua vida a tornar ricas as pessoas que a rodeavam e que ficaria tão feliz se o Manel a deixasse torná-lo rico e reformado aos 45 anos (idade fictícia).

O Manel estava a gostar muito da Vivi mas, como sempre foi um poeta na alma e um teso na carteira (factos reais), começou a perder a paciência e decidiu confessar que não queria investir 100.000 euros em bitcoins "porque o dinheiro não é tudo". Colocado sob pressão por parte da bela Vivi, acabou por admitir que não, que não tinha 100.000 euros disponíveis para investir (facto real, matizado pelo acrescento da palavra “disponíveis).

A Vivi explicou-lhe em três linhas de WhatsApp que anulava o jantar de dia 28 de novembro e que o Manel não era homem para ela porque demonstrava uma falta de confiança imensa. Eu abri-te a minha casa, partilhei contigo a minha comida e agora tu fazes-me isto? (frase real).

O Manel respirou fundo. Bloqueou a Vivi no WhatsApp, desmatchou-a no Tinder e acendou um charro (facto provável do qual não temos confirmação; poderia ter sido um Marlboro que ele antes de deixar de fumar preferia essa marca).

Três minutos depois, com as ideias mais claras, voltou ao Tinder: olha, a Svetlana que está a 1875 quilómetros daqui diz que gosta de passar férias em Portugal e até tem no perfil uma foto tirada na Praça do Comércio! Super like!

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.