Escolha as suas informações

E se todos fôssemos Karura?
Opinião Sociedade 5 min. 25.11.2020

E se todos fôssemos Karura?

E se todos fôssemos Karura?

Foto: Guy Wolff
Opinião Sociedade 5 min. 25.11.2020

E se todos fôssemos Karura?

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Um pouco por todo o mundo, trabalhadores precários de aplicações móveis de táxis e entregas protestam. Nem todos estamos no mesmo barco: as shares da Uber em bolsa atingiram máximos históricos este mês. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

 São três histórias em três cidades, mas podiam ser apenas uma. Todas se resumem à uberização do trabalho, agravado em contexto pandémico, e à TINA – there is no alternative – que as mega-corporações, e os governos que as acolhem de braços abertos perante a cenoura do empreendedorismo selvagem, nos vendem.

1. No início de novembro, um amigo chegou a casa num uber. A condutora contou-lhe que nesse dia tinham parado três mil carros em Lisboa em protesto contra a descida do preço base das viagens de uber. Isso significava que o motorista, se quisesse, teria de cobrir a diferença para o preço-base, e, para tal, tinha de competir com outros motoristas que aceitassem as condições “negativas” da corrida. A uber põe os “seus” trabalhadores a competir entre si: a lei do mais forte é a da selva. Sem surpresa, não havia uma única notícia que cobrisse o protesto em Portugal. Nenhuma reportagem. Ninguém lhes deu voz – três mil pessoas em greve. Talvez quando bloquearem a ponte 25 de Abril e serem por isso criminalizados poderemos ver tudo através do olho-de-deus do drone da SIC.

2.Este verão, em São Paulo o “Breque dos Apps” foi organizado por motoboys e ciclistas para reivindicar o aumento na remuneração do frete; aumento da taxa mínima por corrida; fim dos bloqueios e desligamentos; fim do sistema de pontuação (que restringe o acesso às áreas com maior procura) – isto é, sistema de estrelinhas da uber; seguro para roubo ou acidente; auxílio-pandemia.

Na Folha de São Paulo, um dos dirigentes sindicais que organizou o protesto explica: “O motofretista paga a moto dele, o combustível dele, o INSS dele, o seguro de vida dele para chegar a ganhar uma taxa de R$0.60 por entrega por quilómetro? O aluguel de uma moto em São Paulo é de R$602 por mês. Isso é exploração.” Segundo o dirigente há cerca de 15 mil motoboys com carteira em São Paulo. A Associação diz que devem ser 50 a 70 mil entregadores na cidade. Traduzindo: esses 50 mil não têm carteira assinada. Não contam. Não existem. São invisíveis, provavelmente, “sem-papéis”, trabalhadores informais. Em Lisboa não é diferente. E é precisamente porque os invisíveis têm de continuar a trabalhar para sobreviver, que a uber continua refastelada no seu sofá: ela sabe que se os 15 mil motoboys pararem, vai haver sempre exército de precários para lhes fazer o favor das entregas.

Parecem coisas básicas: seguro para roubo ou acidente, auxílio-pandemia? Imagino os senhores da Uber e os seus acionistas a beber sunset cocktails nas piscinas da zona alta do Vale de Sílica – que até podia ser silicone – com os seus portões anti-roubo, o seu seguro contra todos os riscos e ainda os privilégios do tele-trabalho de quem encaixa shares de capitais no bolso de cada vez que o Mohamed entrega uma pizza com a sua bicicleta.

3.Em 2019, em Nairobi, centenas de condutores bloquearam a app em protesto durante 15 dias. Benjamin Walker, no podcast “The Theory of Everything”, cobriu o protesto no Quénia e deu voz aos trabalhadores. As condições não são muito diferentes de outros trabalhadores das cidades do norte global. Ouçamos: “A uber está a entrar no mercado africano porque não há regras. É isso que queremos dizer ao governo: definam regras, definam leis para regular estes tipos. Eles estão a tirar vantagem da economia de partilha (gig economy).”

Interessante essa palavra – gig. Em inglês, ela tem dois sentidos: primeiro, século XVIII, de uma carruagem puxada por um cavalo; segundo, da década de 1920, uma performance de um músico, sobretudo popularizada pelo jazz. E porque o jazz é feito desse improviso, é precisamente de cavalos de corrida constantemente a improvisar para chegar com contas certas ao fim do mês que se faz a gig economy.

Em Nairobi, os grevistas explicaram que não estavam a lutar contra a tecnologia. “O que dizemos é que a tecnologia não pode servir para nos escravizar. O negócio deles [uber] não é feito para as pessoas. É feito de uma maneira a acabar com as pessoas. O modelo de negócio é extremamente agressivo. They are taking people out”. Aqui a tradução é dúbia: pode significar “out of business”, isto é, por causa da concorrência; ou “out”, morto. Como contava outro condutor, o suicídio tem sido constante entre os motoristas de uber no Quénia: “Sei que se continuo assim, no futuro próximo, vão-me deixar cair. Cair a sete palmos de terra”. Morrer para trabalhar. Trabalhar para morrer.

Os taxistas em greve contornaram a uber desligando a aplicação e “indo Karura”. O cliente pede a viagem e verifica o valor. Espera o táxi, entra no carro. E sugere: vamos Karura? O taxista concorda, acordam o preço indicado pela app. Ambos desligam a aplicação, o dinheiro vai todo para as mãos do motorista. Claro, a uber descobriu e criminalizou os motoristas. O governo do Quénia concordou, muitos foram até presos, além de pagarem multas.

Ironicamente, Karura é o nome de uma floresta nos arredores de Nairobi onde, na rebelião dos Mau Mau contra o regime colonial britânico (1952-60), os rebeldes se escondiam em caves na floresta para organizar insurreições armadas. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas