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E se pudesse saber qual a dieta mais adequada para si?
Sociedade 6 min. 08.01.2019

E se pudesse saber qual a dieta mais adequada para si?

E se pudesse saber qual a dieta mais adequada para si?

Foto: Pixabay
Sociedade 6 min. 08.01.2019

E se pudesse saber qual a dieta mais adequada para si?

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
Imagine que através de uma análise laboratorial conseguia saber que tipo de alimentação mais se adequa ao seu metabolismo. Esta é a ambição de Alberto Noronha, o jovem investigador português a viver e a trabalhar no Luxemburgo desde 2014.

"Qual dos fatores que influencia a nossa saúde e sobre o qual é possível termos mais poder sobre ele? Aquilo que comemos", pergunta e responde Alberto Noronha. O português de 30 anos, recentemente doutorado em bioinformática e nutrição pela Universidade do Luxemburgo, deu mais um passo para perceber os efeitos da nutrição na saúde e no metabolismo de cada um.

Natural de Braga, Alberto interessou-se desde muito cedo pelo uso da informática para o estudo dos problemas biológicos. "Através de bases de dados e modulação computacional podemos fazer diagnósticos mais rigorosos sobre doenças que afetam os humanos", refere ao Contacto.

A nutrição é, de acordo com o investigador, "um dos grandes desafios do século a par com as alterações climáticas". Da sua tese de doutoramento resultou a criação de uma base de dados que integra informação sobre o metabolismo humano e bactérias da flora intestinal, e dados sobre estudos nutricionais. O objetivo é ajudar a explicar os mecanismos por detrás do efeito de diferentes dietas e padrões nutricionais na saúde.


Alberto Noronha investiga como o que comemos interage com o metabolismo e as bactérias intestinais, e de que forma a nutrição pode ajudar no tratamento e prevenção de doenças.
Alberto Noronha investiga como o que comemos interage com o metabolismo e as bactérias intestinais, e de que forma a nutrição pode ajudar no tratamento e prevenção de doenças.
Foto: Pierre Matgé

"O meu interesse foi sempre perceber como vários dados entram em jogo, nomeadamente fatores ambientais, as bactérias intestinais, metabolismo, nutrição entre outros, para perceber como podemos ajudar a prevenir doenças, com planos adaptados a cada pessoa", conta. E esse é, aliás, o elemento primordial da sua tese. "Integrar esta informação complexa e perceber como é que estes sistemas interagem entre si", esclarece. 

Inúmeros fatores afetam a saúde e o bem-estar, entre eles a genética, a bactérias intestinais, o estilo de vida e, naturalmente, aquilo que comemos. "Em consequência, tudo isto afeta o nosso metabolismo e a nossa resposta a doenças", refere. A nutrição, com uma "componente biológica e cultural", tem um papel cada vez mais importante nas nossas vidas. Daí que o trabalho de Alberto ganhe maior relevância.

"Nutrição personalizada" no combate às "doenças silenciosas"

O jovem chegou ao Luxemburgo em 2014. Hoje em dia trabalha como investigador associado no Centro de Sistemas Biomédicos da Universidade do Luxemburgo, onde concluiu a tese de doutoramento em março de 2018. Nos últimos meses tem vindo a preparar o lançamento de uma spin-off com o objetivo de criar planos de "nutrição personalizada". No futuro, a empresa venderá análises laboratoriais ao metabolismo dos pacientes e às bactérias da flora intestinal, de forma a relacioná-los com os hábitos alimentares de cada um. 

"Queremos perceber porque a resposta a uma mesma comida varia tanto de pessoa para pessoa", explica. E, desta forma, utilizar a nutrição como uma ferramenta terapêutica que ajuda a tratar e a ultrapassar certo tipo de doenças, nomeadamente as chamadas "doenças silenciosas", de que o Luxemburgo é exemplo. "As que têm como origem uma associação muito grande com o metabolismo e que estão associadas a uma má nutrição: diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade", explica. E Alberto tem uma ambição: "Gostava que isto fosse acessível a toda a gente".

 "Comida luxemburguesa não é propriamente saudável"

Num mundo onde o vegetarianismo e o veganismo ganham novos adeptos a cada segundo, onde os produtos orgânicos são habitués nos supermercados, e onde os "bowls detox" e as "green food" são as estrelas em menus de restaurantes, não é exagero assumir que a nutrição é algo por que cada vez mais nos interessamos. Mas é errado pensar que estamos a comer melhor, denota o investigador luso. Estes produtos mais saudáveis têm "certos custos associados" e quem os consome é ainda uma "minoria", salienta.

Olhemos para o Grão-Ducado. "Se olharmos para os padrões nutricionais do Luxemburgo, a verdade é que os padrões nutricionais têm-se deteriorado, mas também a qualidade da comida", refere Alberto. "A comida tradicional típica desta zona não é propriamente uma dieta saudável", onde abundam as carnes vermelhas e enchidos.

Séculos de padrões nutricionais e estilos de vida pouco saudáveis geraram, desta forma, uma realidade pouco animadora entre os residentes do Grão-Ducado. Um estudo da ORISCAV-LUX (Observatório dos Riscos e da Saúde Cardiovascular do Luxemburgo) de 2007/8 conclui que 85% da população tinha um ou mais fatores de risco associados a doença cardiovascular, por exemplo, diabetes, hipertensão ou obesidade. Mais: 35% da população sofre de hipertensão e 70% demonstra alterações nos lípidos (gordura presente no sangue). O estudo refere também que 54% da população residente no Luxemburgo é obesa (com um índice de massa corporal acima de 25).

Nas suas investigações Alberto, juntamente com a equipa, têm concluído que há cada vez mais ligações diretas entre o estilo de vida, incluindo a alimentação, e o "potencial de resiliência a certo tipo de doenças". Nestes casos, a nutrição pode ajudar a prevenir ou atenuar estes sintomas. "O maior fator para restabelecer o equilíbrio dessa comunidade é a nutrição e uma dieta saudável", acredita o investigador.  Por exemplo, "certo tipo de alimentos ajudam ao tratamento de Parkinson, à absorção do medicamento", acrescenta.

Desta forma, entender de que forma a saúde é afetada por aquilo que comemos e vice-versa, e como diferentes fatores afetam a digestão e processamento dos nutrientes é cada mais essencial nos nossos dias. "Acho que a ideia é tentar descobrir em cada pessoa o que é que funciona para ti", conclui.

Nutrição não deve ser olhada "de forma simplista"

Devemos ou não beber leite e derivados? O consumo diário de ovos é saudável? Quantas calorias devemos consumir diariamente ? As dietas keto funcionam para toda a gente? Apesar de não ser formado em saúde, este é um território que o português explora de forma convicta devido ao seu vasto conhecimento científico. Alberto acredita que a nutrição não deve ser olhada de forma simples. Isto é, "o leite tem benefícios mas para algumas pessoas pode não ser assim tão benéfico". Da mesma forma, nem todas as dietas resultam da mesma maneira em diferentes pessoas. 

O que já é ponto assente para a comunidade científica é que a saúde é afetada por aquilo que comemos e vice-versa. Da mesma forma, diferentes fatores afetam a digestão e processamento dos nutrientes. "Se isolarmos estas coisas e olharmos de uma forma muito simplista para um comportamento que nós desenvolvemos ao longo de milhares de anos vamos sair sempre com respostas bastante simplistas e que não vão explicar porque é que há esta discrepância de resultados”, acrescenta. 

E num mundo inundado de informação sobre dietas e fórmulas mágicas de perda de peso, Alberto deixa bem claro que muito do metabolismo de cada ser humano pode ajuda a explicar várias coisas. Por um lado, porque certas dietas não funcionam da mesma forma em diferentes pessoas, ou porque uma determinada dieta pode não ser a mais adequada para um determinado indivíduo. "Acho que a ideia é tentar descobrir em cada pessoa o que é que funciona para ti. De forma a podermos tomar decisões mais informadas", remata.

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