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E se a Coca-Cola lhe oferecer flores... isso é plástico
Opinião Sociedade 4 min. 18.10.2022
Ambiente

E se a Coca-Cola lhe oferecer flores... isso é plástico

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E se a Coca-Cola lhe oferecer flores... isso é plástico

Foto: Reuters
Opinião Sociedade 4 min. 18.10.2022
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E se a Coca-Cola lhe oferecer flores... isso é plástico

Hugo GUEDES
Hugo GUEDES
Se aprecia uma boa ironia, leia este texto, porque esta história é candidata a ironia da década; e seria deliciosa não fosse chocante.

Quem é o maior poluidor de plástico do mundo? Resposta fácil, é a Coca-Cola Company. São mais de 3 milhões de toneladas de embalagens de plástico por ano.  Daquele puro e duro, só utilizado uma vez antes de ser deitado ao chão ou num rio perto de si, e que perdurará no planeta durante os próximos dez milénios – isto se o próprio planeta ainda existir ao fim desse tempo, o que neste ponto da situação já ninguém acredita. 

Patrocinar o evento mais 'verde' que existe é jogada de mestre que combina a melhor hipocrisia com o mais refinado desplante

Má consciência? Nenhuma. A empresa jurou nunca abandonar o plástico ("os nossos clientes gostam, porque é leve"), recusa-se a produzi-lo a partir de fontes renováveis e luta com determinação contra qualquer tentativa de o reciclar, pondo em tribunal os países que tentam aplicar sistemas de reciclagem de garrafas vazias. Ao mesmo tempo, gosta de publicitar as suas contribuições duvidosas para esquemas que põem a responsabilidade (e a culpa) pelas garrafas tresmalhadas em cima dos consumidores – nunca sobre a própria companhia que produz o lixo e lucra (muito) com ele.


Coca-Cola é o maior poluidor de plásticos do mundo
A marca norte-americana ocupa esta posição há três anos consecutivos.

A Coca-Cola tem um historial de 150 anos a poluir o planeta. Actualmente regurgita por ano 120 mil milhões de garrafas de plástico (usado uma vez), e praticamente todo esse plástico é produzido, obviamente, a partir de combustíveis fósseis, que sozinhos são responsáveis por um terço da gigantesca pegada ecológica da empresa: 5,17 milhões de toneladas de equivalente CO2 só em 2021... uma subida de 8% em relação ao ano anterior.

E assim vão crescendo não só as alterações climáticas como os dois "novos" continentes no meio dos oceanos, as manchas de plástico no Atlântico (tamanho difícil de calcular, mas com centenas de km de largura) e no Pacífico (aproximadamente três vezes o tamanho de França). À medida que se vão partindo e transformando em microplásticos entram na cadeia alimentar, devastando a saúde da fauna dos mares, primeiro, e dos humanos, depois: calcula-se que em média uma pessoa ingere a cada seis meses o equivalente a uma malga de sopa cheia de plástico. Para os portugueses, que adoram peixe, provavelmente são duas malgas.

Agora outra pergunta. Quem é o novo patrocinador único da COP27, a cimeira global do clima apresentada como uma espécie de "última oportunidade" onde, sob a égide da ONU, líderes de todo o mundo se reúnem no próximo mês para tomar decisões difíceis de forma a tentar salvar um planeta cada vez mais inabitável?

Acertou outra vez! É a Coca-Cola Company. Patrocinar o evento mais "verde" que existe é jogada de mestre que combina a melhor hipocrisia com o mais refinado desplante, adicionando-lhe uma pitada de perfídia e um enorme dedo médio levantado na direcção daqueles que, como eu, tinham ainda uma ingénua esperança em que algum progresso poderia sair da cimeira que decorre de 6 a 18 de Novembro em Sharm-el-Sheik, no Egipto.

Aquando da assinatura do contrato de patrocínio em que o governo egípcio embolsará mais de 400 milhões de euros, as reacções negativas foram provavelmente mais fortes que o esperado; isso, claro, ainda gera mais publicidade para a marca. Na verdade, um estudo independente alega que o tema "sustentabilidade" ocupa apenas 3% de todas as conversas sobre a Coca-Cola nas redes sociais. Traduzindo, quem bebe a água castanha cheia de xarope de milho de alto conteúdo em fructose simplesmente não se importa de onde vem ou para onde vai a garrafa.

Sobra o pequeno detalhe da facada letal na credibilidade da cimeira que se propõe salvar o planeta, vendida por um punhado de dinheiro pelo governo de um país que, tal como o seu novo patrocinador, também não se preocupa muito com direitos humanos ou com o regime totalitário russo. Mas sem stress. Quando tudo colapsar, podemos sempre comer notas de banco e beber uma Fanta laranja (só para variar um bocado).

 (Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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