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E que tal essa ansiedade antes do Natal?
Opinião Sociedade 4 min. 30.11.2022
Andamos todos ao mesmo

E que tal essa ansiedade antes do Natal?

Opinião Sociedade 4 min. 30.11.2022
Andamos todos ao mesmo

E que tal essa ansiedade antes do Natal?

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Para muitos é motivo de festa. Para tantos é apenas motivo de preocupação e irritação. Seja qual for a razão que tenham, o Natal não é igual para todos. Alguns só querem que passe depressa.

Não me recordo da idade que teria, mas ainda andava no liceu. O Natal aproximava-se e alguém falava dos preparativos e da comida e das prendas e da quantidade de gente que se juntava lá em casa. Éramos miúdos, não associávamos isso a uma carga de trabalhos danada nem ao dinheirão que se gasta nem à ideia de termos de estar com pessoas que só víamos uma vez por ano e de quem nem gostamos. 

Para nós, Natal significava férias, comezaina e presentes. Já éramos crescidos para não acreditar no Pai Natal mas ainda miúdos para acreditarmos que a época deveria ser de festa.

Mas não para todos.

Sei que foi a primeira vez que ouvi falar daquilo e por isso estranhei tanto. E por isso ainda me lembro. Uma colega soltou baixinho enquanto revirava os olhos: "eu só quero que passe rápido".

O que se passava na casa da F não é diferente do que se passa em muitas casas, em muitas famílias, em muitas cidades e em muitos países. A ansiedade da época, o trabalho de preparar tudo, as listas de prendas, a preocupação em ter a casa em condições e a mesa farta... mas sobretudo o sacrifício hercúleo de estar com gente com quem não vamos à bola. Ou, por vezes, o sacrifício de estar com gente. Apenas estar com gente.

Gostamos tanto de períodos de festa e de motivos para juntar a família à mesa que esquecemos bastas vezes aqueles que não gostam assim tanto. Aqueles que não gostam nada. Aqueles que passam mal e começam a sofrer quando se acendem as iluminações coloridas nas ruas e as montras se enfeitam e as conversas começam a andar todas em torno do mesmo.

Não porque sejam "bichos do mato", não gostem de gente, sejam más pessoas ou não tenham amigos. Não é porque não gostem de receber pessoas e passar sete horas na cozinha ou não gostem de sair do ninho e visitar família. É mesmo porque não conseguem. Se calhar até gostariam de conseguir. Mas não conseguem. Seja qual for a razão.

Para muita gente, o Natal e as outras épocas festivas são "apenas" um foco de ansiedade e preocupação. São "apenas" uma razão para terem vontade de beber mais, de comer mais, para garantir que têm um bom stock de ansiolíticos, para se prepararem com antecedência para o sorriso que terão de colocar na cara. Por eles, pelos maridos ou mulheres, pelos pais, pelos sogros, pelos filhos. Sobretudo pelos filhos. Pelos miúdos fazem tudo e mais um par de botas e até aguentam a estucha do Natal.

Sabem aquela tia que está sempre de trombas e sentada a um canto? Ou aquele primo que tem um ar estranho e que não larga o telemóvel e põe constantemente uma cara de quem está farto de estar ali? Não os julguem. Não lhes coloquem um rótulo. Em vez disso, experimentem este ano perguntar-lhes se estão bem. Se estão tristes por alguma razão. Se querem conversar sobre alguma coisa. 

Se querem sair dali um pouco para não estarem em esforço. Perguntem-lhes se preferem arroz doce ou mousse de chocolate e se gostariam antes de uma aletria e no próximo ano vocês tratam disso.

No caso da minha colega do liceu, era a mãe que fazia um esforço grande e ficava sempre deprimida naquela altura. E isso, claro, contaminava-a. No caso da vossa tia ou do vosso primo, pode ser outra coisa qualquer. Seja o que for, tentem entendê-los e ouvi-los. Pode ser que faça a diferença no próximo Natal.

Até porque eles vão precisar de força para o que vem a seguir. Logo depois chega a passagem de ano e a necessidade de fingirem que acreditam que os próximos 365 dias serão melhores. E logo eles, que não gostam de passas nem de champanhe.

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Paulo Farinha
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