Escolha as suas informações

É político? Descubra o déspota que há em si
Opinião Sociedade 3 min. 23.03.2021

É político? Descubra o déspota que há em si

Manifestantes num protesto silencioso, na Suíça, contra as medidas sanitárias para conter a pandemia.

É político? Descubra o déspota que há em si

Manifestantes num protesto silencioso, na Suíça, contra as medidas sanitárias para conter a pandemia.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 23.03.2021

É político? Descubra o déspota que há em si

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A literatura de autoajuda é um grande negócio, tão bom que a quantidade de títulos continua a multiplicar-se, o que inevitavelmente leva a algumas repetições.

Basta uma busca rápida para encontrar um "Descubra o Milionário que há em si" (de P. Carrilho), "Descubra o Génio que há em si" (D. L. Katz), "Descubra o Líder que há em si" (A. Baptista) e, de forma mais intrigante, até um "Descubra a Cabra que há em si" (E. Hilts). Mas não há nenhum livro que nos ensine a encontrar o tirano que temos dentro de nós, e isto é porque ele não é necessário; já existe a oportunidade perfeita.

Acabam de sair duas análises de fôlego provando aquilo de que já desconfiávamos: a pandemia está a destruir as nossas liberdades. O vírus, além de perigoso, tem também as costas muito largas... e constitui uma formidável arma de controlo social. No primeiro relatório, "Democracia debaixo de Fogo", a Freedom House explica que as pontuações do seu ranking de liberdades estão em declínio global há quinze anos, e que 2020, quando nada menos que 73 países pioraram a sua performance, foi o pior de sempre. 

Mesmo nas consolidadas democracias europeias a visão de conjunto é extremamente desagradável, e ao aproximarmos o olhar para estudar os pormenores, o caso piora: da Alemanha a França, da Bélgica a Espanha, de Portugal ao Luxemburgo, o denominador comum à actuação dos poderes públicos é o da desorientação (mal) escondida atrás de regras prepotentes, discriminatórias dos mais pobres e das minorias, e não sujeitas ao controlo público dos parlamentos ou dos media – com estes servindo de mera caixa de ressonância para as narrativas espalhadas pelos governos, mesmo quando contraditórias entre si.

Agora que sentiram o odor a sangue do poder 'de emergência' ilimitado, os nossos queridos líderes não vão querer perder esses privilégios ao terminar a pandemia.

O segundo relatório provém da União para as Liberdades Civis na Europa, e as suas 233 páginas começam com palavras esclarecedoras: "A democracia e o Estado de Direito sofreram um golpe fundo em muitos países europeus no ano da pandemia Covid-19".

O esmagamento dos direitos e liberdades individuais – de movimento, de associação, de protesto, de privacidade – e do espaço reservado à sociedade civil é ainda mais preocupante ao desaparecerem também a liberdade de imprensa e a independência judicial, porque é exactamente quando as democracias se fragilizam que se tornaria mais importante ter guardiões independentes e um sistema de contrapoderes. Esse sistema está decadente, e a decadência não é temporária: agora que sentiram o odor a sangue do poder "de emergência" ilimitado, das restrições arbitrárias, das leis asfixiantes aprovadas à pressa sem passar pelos olhos de cidadãos ou deputados, os nossos queridos líderes não vão querer perder esses privilégios ao terminar a pandemia. Até porque muitos dos novos poderes que eles acumularam (como a mordaça imposta aos media) têm pouco ou nada a ver com controlar o vírus.

O perigo é triplo: que os governos controlem ainda mais todos os nossos comportamentos, que estejamos demasiado exaustos (ou distraídos com telenovelas) para nos importarmos com isso, e que, nesta distopia em que vivemos há um ano, as próprias ideias do que é inaceitável numa sociedade livre já não sejam claras. O que fica é uma certeza: não podemos confiar nos nossos políticos para que, de sua iniciativa, nos devolvam as liberdades roubadas. O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.