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"É impossível separarmos o ambiente da saúde e a covid-19 foi um despertar mundial para isso"
Sociedade 1 10 min. 05.06.2020 Do nosso arquivo online

"É impossível separarmos o ambiente da saúde e a covid-19 foi um despertar mundial para isso"

"É impossível separarmos o ambiente da saúde e a covid-19 foi um despertar mundial para isso"

Foto: Schutterstock
Sociedade 1 10 min. 05.06.2020 Do nosso arquivo online

"É impossível separarmos o ambiente da saúde e a covid-19 foi um despertar mundial para isso"

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Celebra-se esta sexta-feira, 5 de junho, o Dia Mundial do Ambiente e é cada vez mais apontada a relação entre a pandemia e o impacto da ação do homem na natureza. Carmen Lima, autora do livro 'Não há Planeta B', fala sobre ela e explica como o momento de retoma económica pode ajudar a reduzir esse impacto e a melhorar a saúde global.

Membro da associação ambientalista portuguesa Quercus, Carmen Lima é autora do livro 'Não há Planeta B' (lançado pela editora portuguesa Chá das Cinco). Na data em que se assinala o Dia Mundial do Ambiente, 5 de junho, e num ano dominado por uma pandemia, para a qual muitos investigadores apontam como causa estrutural a destruição dos ecossistemas pelo homem, esta engenheira do ambiente explica até que ponto se estende essa relação. E a resposta não é animadora. 

Se os problemas ambientais estão a montante do aparecimento do novo coronavírus, eles também potenciam as formas mais graves da doença, como refere a especialista, que fala, em entrevista ao Contacto, sobre como as concentrações de poluição na China e na Europa terão agravado os sintomas e o impacto da doença nas populações. 

Com o verão à porta, com as altas temperaturas e a consequente possibilidade de ocorrência de incêndio, estão criadas novas combinações ambientais de risco para os que forem afetados pela pandemia. Mas a retoma económica pode apontar para um futuro mais esperançoso começando já a transição verde.

Leia, abaixo, a entrevista com Carmen Lima:

Nesta pandemia, foi-se falando e noticiando muito a queda dos índices de poluição do ar, sobretudo por causa do confinamento. Mas muitos ambientalistas não têm uma perspetiva muito otimista sobre a durabilidade desse efeito - e agora já entrámos em desconfinamento. Qual é a sua opinião?

Nós, inicialmente até tínhamos razões para ser otimistas porque quando se iniciou o estado de emergência na maioria dos países e quando, por exemplo, no caso da China, houve a cessação de algumas atividades industriais e também dos transportes, quer o aéreo, quer o rodoviário, aquilo que se verificou foi uma diminuição da poluição atmosférica e foi, inclusivamente, confirmado pela NASA de que em algumas zonas do mundo os níveis de poluição atmosférica tinham diminuído e a qualidade do ar tinha melhorado. E também foi relatado nas redes sociais que em determinadas regiões do planeta as espécies que viviam mais confinadas nas zonas de arvoredo estavam-se a aproximar das zonas urbanas. Portanto, inicialmente parecia que tinha vindo trazer alguma tranquilidade ambiental ao planeta. E trouxe, certamente, uma questão muito importante: a reflexão.

Em que sentido?

Houve de alguma forma, não só da parte da população, mas também dos industriais e políticos e dos influenciadores de opinião pública uma necessidade de se falar sobre o trajecto que o planeta levava e sobre a importância de mudarmos alguns hábitos de vida, de consumo, para que o impacto ambiental diminuísse e para que alguns problemas - que estavam identificados como os grandes problemas do século, como é o caso das alterações climáticas -, pudessem de alguma forma ser combatidos e invertidos. Por outro lado, o combate à covid-19 também criou alguns aspetos negativos, como o facto de a proteção necessária para impedir que as pessoas adoeçam ser feita recorrendo essencialmente a materiais descartáveis. Isso levou a um aumento de consumo desses materiais, quer por parte dos prestadores de cuidados de saúde, quer através do retomar da economia, que foi feito de forma muito assente na utilização de materiais descartáveis. E não têm como destino o encaminhamento para reciclagem. Nós não só começámos, no combate à covid-19, a produzir uma maior quantidade de resíduos, como esses resíduos nem sequer podem ser reciclados. Paralelamente, durante o estado de emergência houve a suspensão na recolha seletiva porta-a-porta que criou uma diminuição em cerca de 50% dos materiais que eram encaminhados para reciclagem e nos ecopontos houve uma diminuição nas redes de recolha. 

Carmen Lima
Carmen Lima
DR

Neste caso, porquê?

Muitas vezes, as pessoas até faziam a separação em casa, mas depois, por os ecopontos estarem cheios, viam-se limitadas ou impossibilitadas de colocar o que tinham separado no ecoponto. Além de estarmos a produzir mais lixo, também diminuímos a quantidade que separámos e encaminhámos para reciclagem. Portanto, se fizermos uma relação entre os aspetos positivos e os aspetos negativos, provavelmente, eles anulam-se. Porque os segundos são muito significativos face aos primeiros. O que gostaria de salientar é que o que esta pandemia trouxe de importante foi a reflexão e o facto de todos termos parado um pouco para pensarmos na nossa vida e verificarmos que, no debate, é cada vez mais abordado que o aspeto como vivemos a nossa normalidade terá de mudar. Podemos dizer que houve aqui uma evolução com a pandemia da covid-19. 

A pandemia trouxe uma quebra inédita na atividade económica global. Com a necessidade de recuperação foram mobilizados fundos, também eles inéditos, na União Europeia, com algumas recomendações para que sejam gastos na transição verde. Esta é uma boa oportunidade para os estados europeus reconverterem a sua indústria nesse sentido e torná-la mais amiga do ambiente ou haverá um regresso a atividades mais poluentes para uma recuperação mais rápida da economia?

Isso é sempre um risco que corremos, porque as questões económicas sobressaem sempre em relação às questões ambientais e às questões sociais. Agora, eu acredito que este é o momento. Após quase o desligar da economia, o novo regresso permite aos industriais fazerem esta mudança ou as adaptações necessárias a tornar o seu funcionamento e a sua laboração o mais sustentável possível. E isso trará benefícios não só ambientais, como também económicos, no futuro. Porque os aspetos ambientais fazem parte das políticas europeias e, portanto, quem adotar o mais depressa possível esta forma de laborar e esta forma de produzir, respeitando os aspetos ambientais, irá estar na linha da frente quando todas as políticas ambientais estiverem concretizadas. Se não se fizer a adaptação agora, terá de se fazer no futuro. E se agora se tem o auxílio dos fundos comunitários, é certamente o momento para fazer essas adaptações. Aquilo que temos verificado também em muitos industriais portugueses é que estão a fazer muitas mudanças para tornar os seus métodos produtivos mais sustentáveis e mais amigos do ambiente, porque a procura externa assim o exige. 

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Seria uma boa altura para os estados começarem a pôr em prática o Pacto Ecológico Europeu, ou o chamado Green Deal, defendido pela instituições europeias?

Exatamente. Este ligar novamente da economia é o momento e a oportunidade para fazer essa adaptação.

Ao que tudo indica, o novo coronavírus tem origem  zoonótica, ou seja, foi transmitido por animais. O que está também ligado à relação do ser humano com o meio ambiente e à destruição de habitats e alterações climáticas, que levam à aproximação e maior transmissão entre espécies. Os cientistas antevêem mais pandemias se continuarmos a ter esta relação com o meio ambiente. Concorda?

Concordo plenamente, até porque nós sabemos que afetando a fauna e a flora do meio natural, iríamos de alguma forma criar um desequilíbrio no sistema ecológico e que isso traria consequências para o homem. Nós sentimos essas consequências a nível das alterações climáticas, da perda da biodiversidade, mas obviamente que iríamos sentir essas consequências com um impacto ao nível da saúde das populações. E o vírus da covid-19 é exatamente o exemplo disso. Porque não nos podemos esquecer que o efeito que nós provocamos no meio ambiente, aquilo que recebemos em troca, afeta muito da nossa saúde. Existe já  reconhecimento por parte da Organização Mundial de Saúde (OMS) que muitas doenças respiratórias, por exemplo, são provocadas exatamente pela poluição. Inclusivamente, já há o reconhecimento que a diabetes tipo 2 pode ser provocada também pela poluição. Ao interferimos no equilíbrio da biodiversidade, consumindo animais selvagens, por exemplo, iríamos certamente ter efeitos ao nível da saúde, como o vírus da covid-19 e como outros coronavírus, que no passado também tiveram impacto na saúde das populações. 

E o que podemos fazer com esse conhecimento?

Nós temos que de uma vez por toda perceber que existe um limiar até onde podemos avançar e que se avançarmos para além desse limiar, vamos criar uma consequência negativa no ambiente em que nós vivemos e na nossa saúde. É impossível separarmos o ambiente da saúde, porque vivemos num planeta onde existe um equilíbrio e ele faz-se entre a natureza e o homem e entre a saúde e o ambiente. Não podemos separar estes aspetos, como se eles não tivessem qualquer relação, quando sentimos na nossa saúde o efeito que provocamos no ambiente.

DR


Existem estudos que associam elevadas concentrações de gases poluentes na Europa a uma maior taxa de mortalidade da covid-19. Também partilha dessa conclusão?

Sim, parece-me muito coerente essa análise. Analisando os contaminantes ambientais que existem quer nas cidades, quer nas zonas rurais, a maior parte das consequências que verificamos do contacto com esses contaminantes é o enfraquecimento do sistema imunitário e muitas vezes uma maior exposição a doenças do foro respiratório. E isto é exatamente a reação que o coronavírus provoca, ou seja ataca mais quem está frágil do sistema imunitário e provoca doenças do foro respiratório. Elas são obviamente potenciadas pela poluição atmosférica. Uma zona contaminada provoca nos pacientes uma fragilidade do sistema imunitário e expõe-nos de uma forma mais direta às doenças e, portanto, um paciente que esteja exposto à covid-19 vai adoecer e estará mais frágil a desenvolver o estado mais grave da doença que passa pelas doenças respiratórias. Por estar num ambiente mais contaminado, essas doenças vão ser agravadas pela má qualidade do ar que ele respira. Isto é uma bola de neve e a covid-19 foi um despertar mundial para o facto de os impactos ambientais no planeta terem consequências para a saúde.

A Organização Mundial de Meteorologia alertou recentemente que a pandemia vai agravar problemas provocados pelas vagas de calor. Esperam-se este ano novos recordes de temperaturas na Europa e com eles maior risco de incêndio, e de ar poluído pelo fumo dos fogos. Será mais outro desafio para conter o vírus e o seu impacto na saúde.

Exatamente. Poderá ser um desafio que teremos de enfrentar e acho que os nossos governante já deveriam estar a planificar a época de incêndios, que, considerando as temperaturas que estão previstas para os próximos meses, possam vir a surgir. Portugal teve um desempenho satisfatório relativamente ao combate e ao controlo da propagação da covid-19, mas nós não nos podemos esquecer que o vírus não desapareceu e de todos os outros condicionalismos que vão surgir. Com os incêndios, que volta a provocar má qualidade do ar e poluição atmosférica, estaremos a criar em zonas do interior, onde a qualidade do ar até tem sido satisfatória zonas críticas onde haverá a tal combinação da má qualidade do ar com a propagação da covid-19. Depois, há o facto de se sentir nos últimos anos uma maior intensidade das temperaturas e de isso poder provocar uma fragilidade aos ditos doentes de risco, além de potenciar situações em que as pessoas se sintam mais à vontade para ter mais contacto físico. 

Em que medida?

O período de verão é um período em que, quer a população emigrante, quer a população do litoral do país regressa às aldeias e pode levar para as aldeias a covid-19, da qual, neste momento, estão protegidas. Portanto, má qualidade do ar, regresso das pessoas às aldeias e os ajuntamentos, potenciados pelo calor, poderão provocar um novo pico de covid-19 em algumas zonas do país. Pico, esse, que poderá ser potenciado de forma negativa - como vimos na China ou em Itália - pela má qualidade do ar  provocada pelos incêndios que possam vir a ocorrer nessas zonas.

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