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Doentes cabo-verdianos evacuados para Portugal vivem em "condições desumanas"
"Os nossos doentes chegam a Portugal de havaianas em pleno Inverno e são, muitas vezes, esquecidos no aeroporto pelos representantes da embaixada de Cabo Verde em Lisboa", denunciou Grace Beatriz

Doentes cabo-verdianos evacuados para Portugal vivem em "condições desumanas"

Foto: Aleida Vieira
"Os nossos doentes chegam a Portugal de havaianas em pleno Inverno e são, muitas vezes, esquecidos no aeroporto pelos representantes da embaixada de Cabo Verde em Lisboa", denunciou Grace Beatriz
Sociedade 2 min. 20.03.2014

Doentes cabo-verdianos evacuados para Portugal vivem em "condições desumanas"

Grace Beatriz, escritora e activista pela melhoria de condições dos doentes cabo-verdianos evacuados para Portugal, esteve na 31a edição do Festival das Migrações.

Os relatos e imagens que a escritora mostrou na Luxexpo chocaram a plateia.

"Os nossos doentes chegam a Portugal de havaianas em pleno Inverno e são muitas vezes esquecidos no aeroporto pelos representantes da Embaixada de Cabo Verde em Lisboa", relatou.

Ao chegarem a Portugal, são encaminhados para uma das três pensões destinadas aos doentes evacuados, com condições "escandalosas", garantiu.

"Numa das pensões existe uma única casa de banho, com condições desumanas, onde cerca de 30 pessoas têm os seus cuidados de higiene diários", disse, acrescentando que "para cozinhar as pessoas fazem fila porque o único fogão que existe só tem duas bocas e uma delas está avariada".

Para esta activista, a falha vem, principalmente, das autoridades cabo-verdianas, que enviam os doentes tardiamente para os tratamentos – na sua maioria doentes oncológicos –, atribuindo a cada um sessenta euros mensais para cobrir todas as despesas, incluindo transportes, alimentação, vestuário e produtos de higiene.

Todos os anos são evacuados para Portugal cerca de 50 a 70 doentes cabo-verdianos, na sua maioria doentes oncológicos ou com insuficiência renal.

A escritora do livro "Saudades de Danny" confessou que lamenta a desunião dos cabo-verdianos em casos como este e o oportunismo de muitas entidades envolvidas.

"Há muita gente que se aproveita da vulnerabilidade dos doentes", acusou, acrescentando que "as autoridades dos dois países deviam fiscalizar mais as pensões e as condições em que vivem os nossos doentes".

Grace Beatriz explicou que, felizmente, tem havido cada vez menos doentes a serem evacuados para tratamento no estrangeiro.

"Neste momento cerca de 50 pessoas chegam por ano para tratamento, antes eram 90. Muitos tratamentos já são feitos em Cabo Verde, mas ainda falta muito para fazer. Sonho com o dia em que os nossos doentes não precisem de sair do país deixando os seus filhos e familiares para morrerem longe numa terra que não é a nossa", desabafou.

Enquanto esse dia não chega, muitas mães são obrigadas a prostituir-se para poderem alimentar os filhos doentes, denunciou a escritora.

Grace Beatriz lamentou a fraca participação da comunidade cabo-verdiana no Luxemburgo na conferência, mas faz um balanço positivo da vinda ao Grão-Ducado.

"Vieram poucas pessoas mas é assim a nossa comunidade. Contudo, aqueles que vieram mostraram-se muito sensibilizados com esta causa, o que para mim já é uma vitória", disse ao CONTACTO.

Aleida Vieira