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Doenças públicas e lucros privados
Editorial Sociedade 2 min. 02.07.2019

Doenças públicas e lucros privados

Doenças públicas e lucros privados

Foto: Matrix
Editorial Sociedade 2 min. 02.07.2019

Doenças públicas e lucros privados

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
A legislação mundial sobre patentes e propriedade intelectual preocupa-se mais em proteger os lucros abusivos da indústria farmacêutica que tornar universais as melhorias da ciência.

Cerca de mil milhões de pessoas sofrem de “doenças negligenciadas”, chamadas assim porque “estão relacionadas com a pobreza, não têm muito interesse para o mercado porque não dão suficientes lucros”, segundo afirmou à BBC, o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Sinval Brandão. A tuberculose, o paludismo são algumas das doenças que afetam milhões de pessoas no mundo, e que, no entanto, não são objetivos primeiros da investigação da indústria farmacêutica, pelo motivo dos seus pacientes sofrerem de uma maleita mais grave para essas empresas: são muito pobres. 

 Segundo dados da Federação Industrial da Indústria Farmacêutica, são gastos anualmente cerca de 150 mil milhões de dólares em investigação, uma verba que é várias vezes superior aos gastos em armamento dos vários países. Visto por esse prisma, estamos perante um número positivo, o problema é que as prioridades dessa investigação e os seus objetivos não são a cura das maleitas da humanidade, mas o lucro com as doenças das pessoas. 

 A legislação mundial sobre patentes e propriedade intelectual preocupa-se mais em proteger os lucros abusivos da indústria farmacêutica que tornar universais as melhorias da ciência.

 Há empresas que registam, como suas plantas na Amazónia, descobertas sobre a vida e o corpo humano que podiam ajudar a curar milhões; e os Estados deste mundo, em vez de protegerem as pessoas, defendem até ao último euro dos contribuintes os negócios dos privados. 

 O caso da luta pela sobrevivência da bebé Matilde tem tudo para nos fazer refletir. Os seus pais desesperados fazem um apelo à sociedade para que os ajudem a comprar um remédio com um custo próximo de dois milhões de euros. As pessoas, até aqui no Luxemburgo, ajudam em massa. Isto apesar de ser difícil que seja dado em pouco tempo esse remédio à bebé doente – não está ainda aprovado na Europa pelas autoridades competentes e a criança não tem condições para viajar para os EUA. Mas, como é natural, os pais fazem tudo o que podem para salvar a sua filha. 

Uma luta com que toda a gente se identifica. Era bom que o fado desta criança nos permitisse ver mais além e perceber que ela não está sozinha. Há muitos milhões de crianças e de pessoas neste mundo que têm uma sentença de morte, porque a saúde deixou de ser uma luta comum, para passar a ser uma garantia de lucro de muito poucos. 

 Frente a isso, os países cotizam-se, como o Luxemburgo e Portugal, para comparticipar remédios com custos milionários, quando deveriam velar para que as conquistas da medicina fossem para todos os habitantes do mundo e não só os lucros para muito poucos. 

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