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Doenças mentais atingem quase 18% da população do Luxemburgo

Doenças mentais atingem quase 18% da população do Luxemburgo

Sociedade 6 min. 28.11.2018

Doenças mentais atingem quase 18% da população do Luxemburgo

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
São mais frequentes do que se imagina. A OCDE analisou o problema das doenças mentais, a sua dimensão, os custos e adverte que os países têm de tomar medidas para apoiar quem tem uma doença mental e para prevenir os grupos de risco.

"As pessoas com um problema mental não têm o reflexo de ir logo ao médico, como quando têm uma gripe. Deixam passar muito tempo antes de falar com alguém e de irem ao médico. E as coisas agravam-se, muitas vezes, por causa disso." Quem é o afirma é Fränz D’Onghia, psicólogo e diretor do Centro Prevenção Depressão, que falou com o Contacto sobre doenças mentais, problema que afeta muitas pessoas durante alguma altura da vida.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) afirma que mais de uma em cada seis pessoas sofre de problemas mentais no Luxemburgo. A OCDE traçou um diagnóstico sobre as doenças mentais na Europa no relatório Panorama da Saúde 2018. Assim, no caso particular do Grão-Ducado, as doenças mentais afetam 17,6% da população, um valor ligeiramente acima do verificado para a média da OCDE, de 17,3%. Ansiedade e depressão são os problemas mais comuns, seguindo-se álcool e drogas, bipolaridade e esquizofrenia.

No conjunto da OCDE, são 84 milhões de pessoas afetadas, sendo a ansiedade o problema com maior prevalência, afetando 25 milhões de pessoas. A depressão surge em segundo lugar, com 21 milhões de pessoas. A OCDE estima que 11 milhões tenham problemas de álcool e droga e cinco milhões têm doenças mentais severas, como bipolaridade e esquizofrenia. Por país, Finlândia, Holanda, França, Irlanda e Portugal aparecem no top dos cinco dos países com maior prevalência deste tipo de doença. A Bulgária e a Roménia surgem como os países com incidência menor de problemas mentais, com percentagens em torno dos 14%.


31% das crianças no Luxemburgo já foram alvo de bullying
O relatório da OCDE "Panorama da Saúde 2018" analisa os problemas mentais nas crianças na Europa. Letónia, Lituânia e Portugal são os países onde o fenómeno é mais preocupante.

O relatório explica que as diferenças podem ter a ver com o facto de, em alguns países, haver consciência maior de que a doença mental é um estigma menor em relação a estes problemas, pelo que poderá haver uma tendência maior para procurar ajuda médica, aumentando, no final, o número de casos reportados. Da mesma forma, as mulheres tendem a ter mais problemas ligados à ansiedade, depressão e doença bipolar. A exceção tem a ver com problemas de álcool e drogas, que afetam duas vezes mais os homens do que as mulheres.

O relatório indica também que aqueles que têm rendimentos mais baixos ou menos qualificações têm maior probabilidade de reportar depressão crónica do que aqueles que têm um nível educacional mais elevado ou rendimentos mais altos. Quem tem emprego tem menos probabilidade de sofrer de problemas de depressão ao contrário de quem está no desemprego.

No que se refere à depressão, há alguns sintomas e sinais a que se deve estar atento, “sobretudo se durarem mais de 15 dias”, explica o médico, Fränz D’Onghia. Uma tristeza constante, ansiedade ou indiferença, perda de interesse por todas as atividades das quais se gosta – incluindo relações sexuais –, um cansaço que não é habitual, ou baixo nível de energia, perda de apetite (visível na perda de peso) ou um apetite fora do normal (visível no ganho de peso), transtornos do sono, como insónias, acordar muito antes da hora prevista ou precisar de muitas horas de sono, entre outros (ver caixa ao lado).

A lista de sintomas é longa e o facto de haver uma conjugação destes sinais não significa que seja depressão. D’Onghia exemplifica: "Tem de se perceber, por exemplo, se se trata antes de um problema com a tiróide, que possa estar a provocar os mesmos sintomas". "É importante que o diagnóstico seja bem feito", adverte.

Sintomas de depressão:

  • Tristeza constante, ansiedade ou indiferença.
  • Perda de interesse por todas as atividades das quais se gosta- incluindo relações sexuais.
  • Cansaço que não é habitual, ou baixo nível de energia.
  • Perda de apetite (visível na perda de peso) ou um apetite fora do normal (visível no ganho de peso).
  • Transtornos do sono, como insónias, acordar muito antes da hora prevista ou precisar de muitas horas de sono.
  • Perda de capacidade de se envolver emocionalmente.
  • Sentimentos de desespero, pessimismo, culpabilidade, desvalorização ou impotência.
  • Isolamento social.
  • Problemas de concentração, memória e de capacidade de tomar decisões.
  • Agitação ou irritabilidade não habituais.
  • Problemas físicos persistentes, como dor de cabeça, problemas digestivos ou dor crónica que não desaparece depois dos tratamentos.
  • Pensamentos mórbidos, suicidas, tentativas de suicídio ou auto-mutilação.

Para o psicólogo, a percentagem de pessoas afetadas por algum problema mental é superior à indicada agora pela OCDE. O médico defende que, ao longo de um ano, cerca de um terço da população vai sofrer de doença mental, "que pode não ser crónica". O médico refere-se não só a doenças crónicas, mas também a fases de depressão ou ansiedade, como a que é sentida por muitos nesta altura do inverno. Há, então, que diferenciar a depressão crónica da sazonal, como a que ocorre, por exemplo, na altura do inverno. Menos luminosidade e uma tendência maior para o isolamento podem levar a estados mais depressivos nesta altura do ano. "Os sintomas não são severos como os da depressão 'mais clássica'", afirma D’Onghia.

No Luxemburgo, os custos com problemas mentais são de 1,6 mil milhões de euros, o equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB), valor abaixo dos 4,1% da média da UE.

Além do impacto nas despesas do Estado, há que contar ainda com o efeito no mercado laboral. Segundo o estudo da OCDE, quem sofre de depressão crónica tem menor probabilidade de trabalhar. O Luxemburgo é mesmo um dos países, onde este tipo de problema tem mais impacto: apenas cerca de 50% da população entre os 25 e os 64 anos com depressão trabalha. Mesmo entre os que trabalham, o absentismo tende a ser mais elevado e a produtividade menor, segundo a OCDE. Os custos podem ter chegado a 19 mil milhões de euros em 2015 na UE.

A OCDE recomenda, por isso, aos países que desenvolvam e introduzam políticas e medidas que previnam a doença e que reduzam o estigma de que ainda é alvo. O relatório frisa que todos os Estados-membros dizem ter políticas para esse efeito. Contudo, uma das lacunas encontradas tem a ver com a prevenção deste tipo de problema entre os desempregados: apenas nove Estados-membros dizem ter medidas deste género. A OCDE destaca como exemplo positivo a Grécia. Em 2013, foi criado um centro de apoio psicológico para os desempregados de longa duração num subúrbio de Atenas. Os apoios vêm do Ministério da Saúde grego e do Fundo Social Europeu.

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