Escolha as suas informações

Documentário retrata imigrantes
 portugueses em busca do "Eldorado" luxemburguês
Sociedade 4 min. 10.02.2016 Do nosso arquivo online
Estreia em Março

Documentário retrata imigrantes
 portugueses em busca do "Eldorado" luxemburguês

Fernando é um dos quatro imigrantes que o filme acompanha
Estreia em Março

Documentário retrata imigrantes
 portugueses em busca do "Eldorado" luxemburguês

Fernando é um dos quatro imigrantes que o filme acompanha
Imagem do filme cedida pela Samsa
Sociedade 4 min. 10.02.2016 Do nosso arquivo online
Estreia em Março

Documentário retrata imigrantes
 portugueses em busca do "Eldorado" luxemburguês

Quase sete anos depois do lançamento das primeiras sementes, o documentário "Eldorado", sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, vai finalmente chegar aos cinemas luxemburgueses. Durante três anos, os realizadores acompanharam a história de quatro imigrantes lusófonos em busca do "Eldorado" luxemburguês. O resultado é um filme a meio caminho entre o documentário e a ficção que quer mostrar as "alegrias e tristezas" dos imigrantes portugueses.

São três realizadores, mas à conversa com o CONTACTO estão apenas dois, o português Rui Eduardo Abreu e o luxemburguês Thierry Besseling (Loïc Tanson, o terceiro, não pôde estar presente). "Eldorado", o documentário assinado pelos três, é o primeiro filme sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo e é esperado há vários anos.

O projecto foi mesmo anunciado nos cinemas luxemburgueses em Julho de 2009, com um "spot" provocatório que questionava os estereótipos em relação aos portugueses. "Não estão fartos de clichés?", perguntava-se no anúncio. Depois, silêncio rádio. Foram precisos sete anos para concluir o documentário, agora seleccionado para a competição no Luxembourg Film Festival, que decorre em Fevereiro, e a conversa começa logo por aí: porquê tanto tempo?

"Foi o tempo necessário", diz Rui Eduardo Abreu. "No início era uma ideia vaga, proposta pela ASTI (Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes). Mas a realizadora alemã que foi convidada para fazer o filme acabou por não poder continuar, e como eu já estava ligado ao projecto, a Samsa convidou-me para continuar", recorda.

A produtora luxemburguesa chegou a pensar fazer três curtas-metragens sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, tendo convidado mais dois realizadores para o projecto. Mas o documentário ganhou vida própria e os três acabaram por decidir trabalhar em equipa.

"Fizemos muita pesquisa sobre a emigração, e acabámos por documentar durante três anos a vida de quatro personagens", conta o jovem realizador português.

"Eldorado" conta as histórias de três imigrantes portugueses e um cabo-verdiano recém-chegados ao Luxemburgo: Fernando, à procura de trabalho, Carlos, a braços com a justiça, Jonathan, um adolescente com dificuldades de integração na escola, e Isabel, uma divorciada atormentada pelo passado. "Há um homem de 40 anos que vem ao Luxemburgo procurar trabalho, e acompanhamo-lo praticamente desde que sai do avião", explica o realizador português.

A duração das filmagens permitiu-lhes também "documentar as mudanças na vida destas pessoas, e as mudanças não se vêem no quotidiano, não se vêem no dia-a-dia, produzem-se numa certa duração", acrescenta Thierry Besseling.

Os três anos de filmagens permitiram também aos realizadores criar uma relação de confiança com os imigrantes – as "personagens" do filme, como Rui e Thierry insistem em chamar-lhes, sublinhando a linha fina que separa o documentário da ficção (o filme termina aliás com "uma parte mais ficcional", adiantam).

"Não somos mercadores de emoções que chegam e dizem: 'dêem-nos os vossos segredos, e agora adeus'", diz Thierry Besseling. "Conseguimos aproximar-nos tanto das personagens que conseguimos mostrá-las para além da nacionalidade, de uma forma universal, mostrando as suas alegrias e tristezas, as suas forças e fraquezas, as suas emoções, o que ultrapassa os 'clichés' em que as pessoas estão encerradas", defende o realizador luxemburguês.

O resultado "são histórias muito pessoais, histórias íntimas, que permitem apreender estas personagens, não como a empregada de limpeza ou o trabalhador da construção, mas como pessoas de corpo inteiro – o Jonathan, a Isabel, o Fernando e o Carlos", defende Rui Abreu. "Foi esta riqueza e beleza que quisemos mostrar a quem só os vê como empregada de limpeza ou trabalhador da construção", completa Thierry.

Rui Eduardo Abreu (à esq) e Thierry Besseling, dois dos realizadores, com os cartazes de promoção do documentário
Rui Eduardo Abreu (à esq) e Thierry Besseling, dois dos realizadores, com os cartazes de promoção do documentário
Foto: Pierre Matgé

Os quatro imigrantes que dão corpo ao documentário já viram o filme, e ficaram comovidos com o resultado. Agora, "Eldorado" vai enfrentar o teste do público: primeiro na ante-estreia, a 27 de Fevereiro, no cinema Utopolis, depois a partir de 16 de Março, com a estreia nos cinemas Utopolis, na capital e em Belval.

É possível que as maiores críticas venham do público português, confrontado com um espelho que lhes mostra muitas das dificuldades que os imigrantes enfrentam de facto no país? Antecipando as críticas, Rui Abreu recusa que o filme perpetue o estereótipo do português que trabalha nas obras e da portuguesa que faz limpezas.

"Não aceitamos como crítica que é positivo mostrar um arquitecto e que é negativo mostrar uma empregada de limpeza. Há muita gente que tem medo de aceitar esta realidade, e são eles que os condenam e os querem deixar na sombra. Nós quisemos dar-lhes voz e visibilidade".

Rui Eduardo Abreu nasceu em Portugal em 1981, mas veio para o Luxemburgo 
com onze anos. Licenciado 
em Etnologia pela Universidade 
Paris VII, fez uma pós-graduação e um mestrado em cinema documental. Thierry Besseling e Loïc Tanson, formados em realização, são autores de várias curtas-metragens.

Paula Telo Alves


Notícias relacionadas

Eldorado
Imagine que é presidente dos EUA e que de repente descobre a série televisiva “House of Cards”. Ou então – um exemplo mais realista -, imagine que é assassino em série e dá de caras com as aventuras de Dexter. Mais fácil ainda: imagine que é imigrante português no Luxemburgo e vai ver o documentário “Eldorado”.
Nenhum português do Luxemburgo vai ficar indiferente a “Eldorado”
"Eldorado", o documentário sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, vai ser exibido hoje em ante-estreia pública no cinema Utopolis. Uma sessão a que se segue uma mesa-redonda sobre a imigração portuguesa organizada pela Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI), que vai contar com o filósofo Cristovão Marinheiro e o embaixador de Portugal.
Fernando dans sa chambre de fortune.