Escolha as suas informações

Divino populismo
Comentário Sociedade 2 min. 23.07.2020

Divino populismo

Divino populismo

Foto: Pixabay
Comentário Sociedade 2 min. 23.07.2020

Divino populismo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
À entrada do edifício, o jovem de 21 anos desmontou do seu cavalo, agachou-se para apanhar um punhado de terra e atirou-a sobre a sua própria cabeça coberta por um turbante branco. Queria assim demonstrar a sua humildade perante Deus.

Não era um jovem qualquer: à cabeça de um exército de 80 000 homens, o sultão Maomé II acabava de conquistar a magnífica Constantinopla, centro da civilização ocidental com as suas riquezas e o seu saber, a "nova Roma" depois da decadência da original. Na cidade fumegante e o onde o sangue ainda "corria pelas ruas como água nas goteiras depois de uma tempestade", como escreveu um cronista da época, já tinham começado os três dias de pilhagens, roubos, violações e assassínios que o sultão tinha autorizado, mas mal entrou pelos portões ele dirigiu-se imediatamente ao troféu mais apetecido da capital do império bizantino.

Não era um edifício qualquer: a Hagia Sophia, catedral da Divina Sabedoria. Durante mil anos, foi simultaneamente a igreja mais importante do império romano do Oriente, a maior catedral do mundo, o edifício que mudou a História da Arquitetura. Ali se refugiaram centenas de habitantes apavorados, crentes que o invasor muçulmano respeitaria a "proteção divina" – a mesma que no dia anterior o último imperador cristão, Constantino XI, tinha ido pedir em oração. De nada serviu, todos seriam mortos ou escravizados. Naquela fatídica terça-feira 29 de maio de 1453 (e até aos dias de hoje a terça-feira é considerada como um dia de azar no mundo helénico), Maomé II entrou na catedral e proclamou-a como mesquita. Em seguida, declarou-se como imperador de todos os cristãos e continuador do império bizantino que na prática tinha acabado de destruir.

A Hagia Sophia poderia ser um símbolo de tolerância: museu, mesquita e catedral no mesmo espaço.

No templo da sabedoria venceu o obscurantismo: mosaicos, pinturas e relíquias de valor incalculável foram destruídos ou cobertos por um reboco de gesso. Não mais seriam vistos por cinco séculos, até que Kemal, fundador da Turquia moderna, laica e republicana, conseguiu a transformação da Hagia Sophia em museu – visitá-lo é mergulhar numa mistura de civilizações, um dos lugares mais relevantes da Humanidade (não há exagero). Experiência extraordinária que 3,5 milhões de pessoas puderam viver no ano passado.

Em mais um sinal de retrocesso civilizacional deste mundo tão governado pelos caprichos de autocratas populistas, esses bons tempos acabam em dois dias. Não é uma expressão tipo "esta vida são dois dias", é literal: esta sexta-feira a Hagia Sophia volta a ser usada como mesquita, os mosaicos e os frescos cobertos, a frase "Não há outro deus que não Alá e Maomé é o seu profeta" a retinir, lancinante, aos ouvidos de ortodoxos, cristãos e laicos por todo o mundo. Foi o sultão/presidente Erdogan, desesperado pela queda do seu partido islamista nas sondagens, desejoso de desviar as atenções de uma economia em farrapos e de uma gestão desastrosa da epidemia covid-19, quem o decidiu.

Não apenas o edifício é universal, mas também poderia e deveria ser um poderoso e útil exemplo, símbolo de ecumenismo e tolerância: museu de segunda a quinta, mesquita para as orações de sexta, fechada ao sábado para descanso e catedral ortodoxa para as orações de domingo. Mas isso seria num mundo de bom senso e líderes iluminados; nesta nossa realidade, somos mais uma vez vítimas do nacionalismo beligerante e das demonstrações de poder identitário. Um dia isto ainda acaba mal.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.