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Opinião. Diversidade de inclusão, política de exclusão
Opinião Sociedade 4 min. 28.07.2022
Reino Unido

Opinião. Diversidade de inclusão, política de exclusão

A ministra do Interior, Priti Patel (de vestido cor-de-rosa) de origem afro-indiana, alinha pelos Conservadores britânicos.
Reino Unido

Opinião. Diversidade de inclusão, política de exclusão

A ministra do Interior, Priti Patel (de vestido cor-de-rosa) de origem afro-indiana, alinha pelos Conservadores britânicos.
Foto: Justin Tallis/AFP
Opinião Sociedade 4 min. 28.07.2022
Reino Unido

Opinião. Diversidade de inclusão, política de exclusão

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Nunca uma corrida à liderança dos Conservadores britânicos apresentou tanta diversidade étnica. Politicamente, não são diferentes do homem branco cis hetero chamado Boris.

Foi notícia no Guardian, New York Times, Washington Post, Atlantic, Financial Times. Se os grandes media notaram é porque era importante: quatro dos oito candidatos à liderança dos Conservadores, no Reino Unido, eram de origem asiática e africana. Rishi Sunak de origem indiana; Suella Braverman, filha de pais do Quénia e Maurícia; Kemi Badenoch, origem nigeriana; e Nadhim Zahawi, curdo, nasceu em Bagdade. A Atlantic perguntou: "Como é que os Conservadores se tornaram tão bons [na diversidade]?"

Aqueles comités de Diversidade e Inclusão (D&I) que as grandes empresas têm vindo a criar para receber prémios de inclusão pela diversidade étnica dos seus boards consultivos ou executivos, muito menos brancos, muito menos masculinos, estão finalmente a dar resultados. É enfim possível ter uma equipa diversa, racial ou sexualmente: mas que nada os impeça de continuar a penalizar trabalhadores por causa dessa mesma diversidade.

(...) (a) quem servem de facto as políticas (aparentemente) progressistas se continuam a perpetuar o status quo, a discriminação, a racialização dos trabalhadores e imigrantes?

As mulheres no Reino Unido, independente da cor, e sobretudo se não são brancas, continuam a receber menos que os homens. E até grandes empresas britânicas com políticas progressistas de D&I têm disparidades salariais muito acima da média: na EasyJet, por exemplo, o salário de uma mulher é de 36p por cada libra ganha por um homem.

Em 2019, a directora de D&I da EasyJet gabava-se da forma como a empresa tinha "investido fortemente" (curioso verbo) em D&I. "A EasyJet emprega pessoas de mais de 50 nacionalidades diferentes e a direcção executiva é composta 50% por mulheres. Além disso, temos o objectivo ambicioso de contratar 20% de mulheres piloto até 2020." Mas meteu-se a pandemia, esse empecilho para a diversidade, e não se concretizou. Nada que impedisse a easyjet de continuar com a sua robusta política de D&I, conseguindo até dobrar a receita: de 153 milhões de libras (2021), para uma previsão de 1,1 mil milhões em 2022. Com aquela "diversidade" salarial.

"É um bom sinal", dizia, na Visão, Bernardo Pires de Lima, sobre os candidatos a líder dos Tories: "Pena que tal não os tenha impedido de alinhar nos últimos anos com políticas de imigração desumanas." O Governo liderado pelo homem branco loiro cis e hetero, Boris Johnson (também ele um imigrante), tem sido excelente em D&I, o mais diverso da história do Reino Unido.

Começando pelo ministro das Finanças, Rishi Sunak, agora na recta final para a liderança dos Tories (com Liz Truss) que poderá tornar-se no primeiro PM não branco. Ex-gestor da Goldman Sachs, sabe bem de fiscalidade, nomeadamente a que empurrou mais de dois milhões de britânicos para o banco alimentar, enquanto protegia a sua milionária esposa ao abrigo do estatuto de não-residente, conseguindo assim evadir milhões em impostos.

Até à ministra do Interior, Priti Patel, origem afro-indiana, que não teve pejo em condenar com os seus polícias e bastões os protestos do Black Lives Matter no Verão de 2020, nem em pôr em prática a mais racista política de imigração de que há memória, desde o escândalo do Windrush até à repatriação forçada de requerentes de asilo, agora para "campos de concentração" no Ruanda.


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Esta D&I vem de anos de políticas de inclusão no Reino Unido, nomeadamente nas universidades de topo, ou não tivesse Sunak estudado em Oxford. Não me interpretem mal: é evidente que a diversidade e a inclusão são importantíssimas e que países como o Reino Unido têm trabalhado para que jovens de minorias étnicas tenham oportunidades no acesso à escola ou ao trabalho. Mas (a) quem servem de facto as políticas (aparentemente) progressistas se continuam a perpetuar o status quo, a discriminação, a racialização dos trabalhadores e imigrantes? Se continuam, afinal, a ser Conservadores? Em que é que Sunak é diferente de Boris, impondo austeridade aos britânicos, favorecendo os seus amigos banqueiros?

Nada como jogar a cartada do lugar de fala para se medir em palmos o privilégio de Sunak, Patel e Lda, que advoga a diversidade para acesso exclusivo ao poder, a mercantilização da inclusão como um pin na lapela, e exclui todos os outros da distribuição da riqueza e da verdadeira igualdade de oportunidades.

Aliás, o debate entre Liz Truss e Sunak esta semana foi exemplar: quando confrontados com a onda de greves no UK dos transportes aos correios, da aviação ao SNS, ambos admitiram, categóricos, que mudar a legislação laboral e o direito à greve é um imperativo do/a próximo/a PM. Trabalhadores a desafiarem a natural acumulação de riqueza é uma afronta à igualdade de oportunidades desta elite, enfim, étnica e sexualmente diversa.

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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