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Ódio em tempos de cólera
Editorial Sociedade 3 min. 06.01.2021

Ódio em tempos de cólera

Ódio em tempos de cólera

Editorial Sociedade 3 min. 06.01.2021

Ódio em tempos de cólera

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O medo justifica fazer do estado de exceção um estado permanente, o medo justifica que haja pessoas que passem a acreditar em muros, agressões e soluções totalitárias. Onde se fala na cultura de agressão em tempos de redes sociais.

O medo, o afastamento social e as doenças são melhores multiplicadores do ódio do que o amor. Um pouco por todo o mundo a comunicação direta entre as pessoas foi substituída, para muita gente que pode estar em casa, por uma comunicação mediada por computador.

As redes sociais que são anteriores à pandemia tendem a formatar um determinado tipo de participação. Quem lê as caixas de comentários fica com a nítida sensação que os grunhos saíram dos buracos em que viviam escondidos anteriormente. Assiste-se a uma espécie da “libertação” da palavra insultuosa, inimputável e odiosa.

Por dever de profissão, leio vários jornais e notícias. No outro dia, tropecei numa notícia do semanário português Expresso sobre a morte do cantor Carlos do Carmo. Aí um número significativo de comentários eram insultos e expressões de puro ódio contra o falecido. Em causa estavam as posições políticas públicas que teve numa fase da sua vida depois da revolução do 25 de Abril de 1974.

As novas tecnologias não criaram este clima de ódio, sempre houve pessoas que não se conseguem colocar no lugar do outro, e que se recusam a pensar a dor que o seu comentário pode acarretar a um familiar ou conhecido da pessoa que morreu. As bestas e os sociopatas não nasceram com a internet. O problema das redes sociais é que lhes dá a manada que transforma a sua cobardia individual numa matilha agressiva capaz de pedir sangue.

Este corte que a pandemia fez no curso da nossa vida vai repercutir-se por muito tempo. O isolamento social e a perda de rede e de comunidade é anterior a esta crise pandémica e há muito está inscrita num modelo económico que tornou tendencialmente precárias e líquidas, para usar o conceito do filósofo polaco Zigmunt Bauman, todas as relações sociais; mas a pandemia agravou o isolamento e o medo.

Os homens e mulheres vivem e realizam-se socialmente e os seus anseios e problemas ultrapassam em muito o quadro da sua existência individual. Precisam desse quadro coletivo para melhorarem as suas vidas, por muito que a ideologia dominante e os incontáveis manuais de autoajuda garantam que só há problemas individuais.

O medo justifica fazer do estado de exceção um estado permanente, o medo justifica que haja pessoas que passem a acreditar em muros, agressões e soluções totalitárias.

Para podermos ultrapassar a pandemia e as sua consequências temos que reconstituir laços sociais e construir comunidades de vontade que tenham a capacidade de eliminar injustiças e desigualdades.

Se não impedirmos que neste planeta tenhamos uma sociedade em que as 300 pessoas mais ricas têm mais património e rendimento que os 4.000 milhões dos mais pobres, caminhamos para um abismo de todos os perigos e de todas as violências.

O medo, a desigualdade, a injustiça e a insegurança vão tornar este mundo cada vez mais inabitável.

A manutenção de um tal grau de desigualdade só é possível pela utilização de uma violência permanente sobre os menos afortunados. Uma realidade que é visível todos os dias fora dos países mais desenvolvidos e mesmo entre os centros e os subúrbios das grandes metrópoles da Europa.

A democracia, a liberdade não têm a mesma vigência no centro rico de uma cidade ou nos bairros em que vivem os mais pobres e muitas vezes os imigrantes.

É este tipo de divisão espacial de desvalorização humana do outro, que se verifica nas redes sociais, que legitima e permite a multiplicação de episódios, como a tortura e morte de um cidadão ucraniano às mãos de agentes da polícia de fronteiras portuguesa. Nessas catacumbas eletrónicas pode-se ler catadupas de comentários a afirmar que a família estaria feliz com a morte ao pontapé de um pai e marido, porque isso lhe teria dado acesso a uma indemnização do Estado português.

A violência virtual é a forma de incentivo e de legitimação da agressão nas ruas.

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