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Dinheiro não dá felicidade... mas compra vacinas
Opinião Sociedade 3 min. 23.02.2021

Dinheiro não dá felicidade... mas compra vacinas

Trabalhadores da Pfizer armazenam as vacinas da farmacêutica em frigoríficos à chegada de uma nova remessa em Puurs, na Bélgica.

Dinheiro não dá felicidade... mas compra vacinas

Trabalhadores da Pfizer armazenam as vacinas da farmacêutica em frigoríficos à chegada de uma nova remessa em Puurs, na Bélgica.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 23.02.2021

Dinheiro não dá felicidade... mas compra vacinas

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Manhã gelada, final de Janeiro. Dois aviões aterram perto de Beaver Creek, uma aldeia isolada do norte do Canadá, a dois passos do Alasca. Um deles traz uma equipa médica encarregada de vacinar contra a Covid-19 os 100 habitantes do vilarejo; alguns lugares foram considerados pelo governo do país como prioritários para as primeiras vacinas, devido à sua população envelhecida e vulnerável, grande parte deles indígenas, quase todos em grupos de risco.

O segundo avião, no entanto, não era esperado. Este voo privado trazia a bordo o multimilionário Rod Baker, dono de casinos, e a sua mulher Ekaterina, aspirante a atriz. Alegando que o nevoeiro os forçou a aterrar ali no meio do nada, apanharam uma boleia desde o improvisado aeroporto até à pequena aldeia, onde há uma bomba de gasolina, um restaurante e dois motéis em madeira, tudo gelado e deserto, a desolação de uma existência difícil ali à vista de todos. 

Nem isso foi suficiente para demover o jovem casal do seu propósito: fingir que eram empregados de um motel local, e assim receber a vacina, ultrapassando na fila, em minutos, pessoas que ali vivem há oito décadas. Mal o líquido da Pfizer lhes entrou nas veias, os milionários correram de volta à avioneta que os levaria de volta ao condomínio de luxo em Vancouver, a 3000 km de distância – só que a pressa dos Baker levantou suspeitas e a polícia apanhou-os. Justiça para quem quebra a lei? 

Nem por isso: a multa ficou em 1500 euros, menos do que custou a viagem e meros amendoins para quem tem uma fortuna de 40 milhões. Compensa colocar em causa a saúde de toda uma comunidade que, pelo seu isolamento, não tinha até aí registado nenhuma infecção.

Onde há vacinas, há uso de poder, influência e dinheiro para saltar a fila.

Pelo absurdo, pelo desplante dos personagens que pensam (ou sabem?) estar acima de tudo e todos, esta história tornou-se célebre. Até porque certamente o casal Baker é um caso isolado a nível mundial, uma excepção à regra nestes planos de vacinação sempre eficazes, ordeiros e éticos, em que todos esperam pacientemente a sua vez e entendem que importa definir as diferentes fases não olhando as posses materiais, mas sim para o papel que cada um desempenha na sociedade.

O parágrafo anterior era a brincar. Os Baker só se destacam por serem incompetentes em usar os seus privilégios: em toda a parte onde há (algumas) vacinas multiplicam-se os casos de pessoas que usam o seu dinheiro, a sua influência ou (à velha maneira portuguesa) as suas "cunhas" para saltarem à frente de todos e receberem a sua dose de líquido imunológico. Na lista de escândalos há generais espanhóis, governantes polacos, autarcas austríacos, filhas de milionários brasileiros e etc., mas a verdadeira vergonha é sabermos que isto não passa de uma minúscula ponta visível de um gigantesco icebergue encoberto.


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Neste mundo de cada-um-por-si-e-ninguém-por-todos em que vivemos – uma situação ironicamente agravada pela própria pandemia – sabemos que não há ninguém com verdadeiro poder que não esteja já vacinado neste momento. E os nossos lamentáveis líderes políticos, em vez de assegurarem a justiça e eficácia da distribuição de vacinas, continuam entretidos a inventar novas formas de intensificar a repressão sobre as populações exaustas. Assim fica muito difícil de manter acesa a esperança.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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