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Dia dos Avós? A sério?
Opinião Sociedade 5 min. 27.07.2022
Andamos todos ao mesmo

Dia dos Avós? A sério?

Andamos todos ao mesmo

Dia dos Avós? A sério?

Foto: Reinaldo Rodrigues
Opinião Sociedade 5 min. 27.07.2022
Andamos todos ao mesmo

Dia dos Avós? A sério?

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Há famílias em que os avós já morreram e há famílias em que são eles a educar os netos. Há famílias para todos os gostos, avós para todas as necessidades (e idades) e netos para todos os feitios.

"Boa noite e vê lá se amanhã as minhas netas nos telefonam."

Segunda-feira à noite, ao despedir-me da minha mãe, ainda a ouvi lançar esta frase que me entrou pelo ouvido mas não ressoou na cabeça. Ri-me e respondi cá dentro: "a ver se amanhã [terça-feira, 26 de julho] as miúdas dizem alguma coisa".

Os meus pais tiveram um papel importantíssimo na educação dos netos e apoio familiar. Sorte danada da minha irmã e dos meus sobrinhos, que contaram com a disponibilidade e saúde dos avós numa altura crucial da vida deles. Já eu e as minhas filhas não tivemos a mesma sorte. A energia da matriarca e do patriarca não é a mesma para aguentarem o embate de crianças pequenas. Quem me manda a mim ser sete anos mais novo do que a minha irmã e ainda por cima ter sido pai já tarde?

Por isso, quando a minha mãe soltou aquela despedida na segunda-feira, a ficha não me caiu e apenas pensei que estaria com saudades das miúdas. O que é recíproco, aliás, como prova o facto de as minhas filhas perguntarem diariamente quando vamos para a aldeia ter com os avós este verão. Mas a verdadeira razão daquela frase, o motivo real daquela despedida, só foi atingida no dia seguinte, ao ligar a televisão e reparar no rodapé de um canal de notícias: “Hoje celebra-se o Dia dos Avós”. Bolas, então era isso!

Uma busca rápida na Internet diz-me que o Papa Francisco instituiu no ano passado o primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos no quarto domingo de julho, numa alusão à celebração litúrgica de São Joaquim (pai de José) e Santa Ana (pai de Maria), que ocorre a 26  deste mês. Chega-me isto pela agência Ecclesia, o órgão especializado oficial da Conferência Episcopal Portuguesa. Uma fonte fidedigna, portanto, a justificar o facto de os avós de Jesus terem dado origem a uma efeméride mais do que justa.

Depois, ao continuar a pesquisar, lá percebo que a data não é fixa em todo o mundo. Em Portugal, Espanha e Brasil cai, de facto, a 26 de julho. Em França bate no primeiro domingo de março, na Alemanha no segundo domingo de outubro (e no dia 2 desse mês em Itália), nos Países Baixos a 4 de junho, no México a 28 de agosto e nos EUA a 11 de setembro. No Luxemburgo, onde o jornal Contacto está sediado, descobri que o Dia dos Avós não se comemora. Bolas, há datas para tanta coisa e ninguém trata disto no Grão-Ducado? Alguém se chega à frente?

Não sei se a ideia do cardeal Bergoglio em colocar ordem nesta tremenda confusão que são os dias dos avós pelo mundo inteiro vai ter eco e se, dentro de uns anos, caminharemos para uma data única. Mas pouco importa. Na terça-feira abri as redes sociais e vi imagens de amigos meus com os avós que já não têm, com os avós com quem estiveram logo de manhã, com os avós que visitaram no lar, com os avós com quem fizeram um passeio de carro, com os avós com quem vão ainda fazer tanta coisa. Vi um tsunami de frases de pensadores, catadupas de postais, enchentes de canções sobre avós e netos. Vi árvores genealógicas, velhos livros que pertenceram a quem já não está cá, casas antigas erguidas por mãos já partiram. Vi fotografais de avós novos, avós velhos, avós que estão aí para as curvas e avós de 40 e muitos anos ou 50 e poucos, garantido que conseguem o melhor dos dois mundos: estragar os netos com mimos e ter saúde para ajudar a educá-los.

Se estivéssemos em período escolar, tenho a certeza que nas creches e escolas teria sido dia de trabalhos manuais com rolos de papel higiénico, cartolinas, missangas ou caricas. Tudo isso que eles levam para casa no Dia do Pai ou da Mãe, mas agora aplicado aos mais velhos.

Há famílias em que os netos falam com os avós de vez em quando e há netos que não deixam passar um dia sem ouvir a voz dos avós. Há famílias em que os netos almoçam diariamente com os avós e há avós que às vezes trocam o nome aos netos – a idade e a quantidade de descendentes baralha as cabeças a toda a gente. Há famílias em que os avós vivem ao virar da esquina e há famílias em que os avós estão noutro país ou noutro continente. Há famílias em que os avós já morreram e há famílias em que são eles a educar os netos. Há famílias para todos os gostos, avós para todas as necessidade e netos para todos os feitios.

Se não telefonaram aos vossos avós ou netos na terça-feira, façam-no hoje. Vão sempre a tempo. Se telefonaram, liguem outra vez. Nunca é demais. Mas não esperem que a vossa mãe vos lembre que as netas não lhe telefonaram naquele dia.

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