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Devoção, música e gastronomia na peregrinação a Wiltz

Devoção, música e gastronomia na peregrinação a Wiltz

Foto: Anouk Antony
Sociedade 5 min. 16.05.2018

Devoção, música e gastronomia na peregrinação a Wiltz

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
Depois da visita de Marcelo Rebelo de Sousa, a procissão em honra de Nossa Senhora de Fátima, em Wiltz, não será a mesma. Houve menos gente do que no ano passado. Já a mistura do sagrado com o profano é para ficar.

À porta do número 58 da rue de Noertrange, no início da subida para o santuário e ainda perto da igreja de Niederwiltz, estava sentada, num banco, Ana Rosa Campos a ver a procissão passar. Aos 80 anos e depois de uma operação à coluna, mal consegue caminhar. “Basta-me a devoção”, diz ao Contacto a octogenária de Trofa.

Em pé, do lado esquerdo, a nora Conceição Araújo, sobrinha de um padre da Maia, Porto, e catequista antes de se casar, também seguia o evento. “Já tive uma vida de solteira muito ativa na igreja e tudo isto para mim é mais do que conhecido e muito vivido também. É algo que me toca”.

Sentado do lado direito de Ana Rosa Campos está o filho Joaquim de Jesus. Por causa de um problema num pé, também não consegue acompanhar a procissão até lá cima, onde está o santuário de N. S. de Fátima. “Normalmente venho todos os anos. Antigamente ia até lá cima, mas há um ano e tal que estou com este problema. No ano passado fiquei de pé, mas este ano tive de ficar sentado”, conta Joaquim de Jesus, que tem acompanhado a mãe a Wiltz desde a chegada ao Luxemburgo, em 1974, depois de o pai se estabelecer por cá.

Antes da procissão come-se ali no mercado ao lado da igreja e nos ’stands’ ao longo da estrada: frango assado, fritos, cachupa (prato cabo-verdiano) e muitas guloseimas. Com o preço inflacionado há quem faça muito dinheiro à conta da N. S. de Fátima.

Foto: Anouk Antony


O andor sai da igreja, passa por entre o fumo e cheiro das grelhadas e faz parar o som elétrico do duo português que canta à beira da estrada “Tu és a minha deusa, a minha princesa, a única musa do meu coração”, kizomba do moçambicano Juvencio Luyiz, e muita música popular.

Por entre os cerca de 15 mil romeiros veem-se bonés de Portugal, camisolas de Cabo Verde e uma bandeira da Guiné-Bissau enrolada num braço. A turba segue rua acima, abafando o trio sentado ali à porta do n° 58, depois de terem chegado às 11h de Esch-sur-Alzette.

“Mas este ano não tem tanta gente como no ano passado, por causa do tempo, se calhar. Previram chuva, mas não veio chuva nenhuma”, compara Joaquim.

“Acho que cada vez está melhor. O ano passado, com o Marcelo é que se arrasou tudo, com tanta gente”, complementa mãe Ana Rosa, enquanto o carro com o altifalante passa à frente a debitar decibéis de cânticos e rezas.

Foto: Anouk Antony

As Fátimas de Cabo Verde

Fátima Aires vive em Ettelbruck e vem à celebração “há 15 anos seguidos”. Para esta cabo-verdiana, o momento alto é a procissão, “mas também quando se reúne amigos e familiares por esta ocasião”. E este ano Fátima faz-se acompanhar por uma amiga da sua ilha, Brava, que veio de Roterdão, Holanda, para participar.

“A Fátima convidou-me para vir assistir. Vim só para três dias e regresso já no sábado [dia 12]. É uma festa bonita, alegre e deu também para rever uma conhecida da ilha de São Vicente, que não via há mais de 25 anos”, conta a amiga Elisabete Fernandes. “No próximo ano, se Deus quiser, voltarei”, promete a cabo-verdiana.

Irondina dos Santos Pereira faz parte há dois anos do grupo coral Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos, em Esch. Também é do arquipélago da morabeza, mas da ilha de Santiago. Na cidade onde nasceu, em Assomada, a padroeira também é a N. S. de Fátima.

“Gosto muito de aqui vir não só porque reencontro muitos amigos, mas porque também é a festa da padroeira de onde nasci em Cabo Verde, no Município de Santa Catarina. Não estou em Cabo Verde, mas encontrei um pedaço de Cabo Verde aqui no Luxemburgo, em Wiltz, onde venho desde que cheguei, há sete anos. Tenho, por isso, uma ligação mais forte e uma grande devoção”, diz ao Contacto, já depois da oração e de acender as velas.

Foto: Anouk Antony

A fé no feriado

Mas nem todos os que vêm a Wiltz são fiéis. Desde as proximidades do santuário até Esch-sur-Syre há um mar de gente acampada em família a gozar o feriado.

“Isto já foi vivido mais religiosamente. Há a parte em que acompanhamos a nossa senhora, que está bem, mas há também muita gente que vem e só faz grelhadas. Isso é pena. Poderia haver aqui muito mais gente, mas eles ficam pelo caminho, a quilómetros, e nem vêm até aqui”, desabafa Conceição Araújo, a sobrinha do padre da Maia.

E as pessoas que vêm a pé de longe? “A Nossa Senhora não quer tanto sacrifício, mas devoção”, responde a sogra Ana Rosa Campos. “Acho isso mal. Não vale a pena as pessoas ficarem aleijadas”, complementa o filho Joaquim.

Foto: Matic Zorman