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Deus fala francês
Opinião Sociedade 4 min. 02.04.2021

Deus fala francês

Deus fala francês

Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 02.04.2021

Deus fala francês

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Contudo, a vida de emigrante leva-nos a frequentar também povos que não falam a língua mais linda do mundo e que não sabem o prazer que é dizer uma boa caral****.

Uma amiga minha afirma, com um certo snobismo, que não diz palavrões em português mas que, de vez em quando, lhe saem alguns em francês. No trânsito acontece-me lançar uns connards ou um abrutti quando alguém se atravessa à minha frente, diz.

Tentei perceber melhor o que vai na cabeça da Maria Rita. Fiquei surpreendido com a confissão, sobretudo porque ela é uma daquelas pessoas que gostam de cultivar uma certa imagem. Nunca pensei que viesse com tal conversa.

O assunto surgiu durante uma conversa sobre um artigo que aqui escrevi sobre estrangeirismos. Muitos dos meus amigos concordaram comigo, que também são alérgicos a estrangeirismos gratuitos. E, de repente, alguém disse: e vocês em que língua dizem palavrões? Eu, que sou do norte, e que passei a universidade a partilhar um apartamento com vimaranenses disse logo que me habituei desde então a dizer uns sonoros fo**-se sempre que me corre mal a vida. Acrescentei que no Luxemburgo tive o azar de ficar amigo de alguns portuenses de gema, e de um emprestado que ainda era pior, o que provocou que, a partir daí, nem sequer o verbo f**** chegava. Tornou-se necessário arrevezar os palavrões com delícias como o car**** que o f*** ou f***-se lá o car**** mais a grandessíssima p*** que o pariu.

Ultimamente, passo bastante tempo com um bracarense e o problema não se esbateu, antes pelo contrário. Mudou foi a entoação. Agora prolongo vogais e o car**** tradicional implica que o segundo “a” seja prolongado, como se estivesse ao mesmo tempo a levantar a mão e a preparar-me para bater em alguém. Ai as belas tradições minhotas...

Contudo, a vida de emigrante leva-nos a frequentar também povos que não falam a língua mais linda do mundo e que não sabem o prazer que é dizer uma boa caral****.

Curiosos, esses povos menores perguntam, mais qu’est-ce que ça veut dire foudass? Ou interrogam-se sobre o sentido de caraille. Je n’ai jamais bien compris ce que ça veut dire, costumam lamentar-se.

Costumo responder com uma lição de fonética: ó Jean-Jacques, se eu não sou capaz de distinguir os três sons ã quando digo algo tão simples como un enfant, por que cara**** tu hás-de pronunciar bem a palavra cara***?

Depois de várias tentativas risíveis, lá tenho de lhes explicar que a palavra quer simplesmente dizer bite; o que se revela um verdadeiro anticlímax. Caraille c’est bite? Alors pourquoi tu traite hier Manuel de grande cara***?

Tive de explicar que a beleza da língua portuguesa está nas suas nuances e nos múltiplos sentidos que pode ter essa palavra. E que quando trato o Manuel de grande car**** não estou nem zangado com ele nem a elogiar o seu físico.

Alors bite ça ne veut pas toujours dire bite?

Expliquei-lhe que, efetivamente, cara*** pode ser usado, por exemplo, para demonstrar ternura por alguém, ou mesmo admiração. Mas também pode ser a mais profunda manifestação de desprezo por alguém, como nas alturas em que uso cara*** para falar do patrão.

Eh ben, c’est compliqué le portugais, conclui o Jean-Jacques que, diga-se em abono da verdade, até já começa a dizer cara*** mais ou menos por causa de tanto nos ouvir a repetir a palavra lá no armazém.

Vinha isto a propósito da reflexão da Maria Rita sobre o facto de não dizer palavrões em português – ela não sabe o bem que lhe fazia uma caral**** de vez em quando – mas que vai pronunciando alguns em francês.

O Zé Carlos acrescentou que ele é mais em inglês. Que lhe saiem fucks pela boca fora quando está nos jogos vídeos ou lá no trabalho quando não engata com a origem de um bug. Isso é porque estás a pensar em inglês, apostei. O Zé Carlos diz que sim, porque, lá no trabalho falamos todos inglês e a minha cabeça está sintonizada para aí.

Mas a Maria Rita, que, recordo, nunca disse um palavrão na língua de Bocage, nem na de Gil Vicente, acha que é porque os palavrões em estrangeiro são menos fortes que em português. Serão mais chiques, aventei, mas na verdade acho é que não têm a mesma força porque nós não crescemos com eles, nem lhes damos um significado tão forte como aqueles que nos acompanham desde a infância e fazem parte do nosso património... genético.

Tudo isto fez-me refletir sobre a língua em que digo palavrões e, sobretudo, sobre o grande mistério que é desvendar em que idioma penso.

Recordo-me de uma viagem entre Bruxelas e Luxemburgo durante a qual quase tive um acidente. O carro fugiu de traseira e só com muita sorte evitei o embate contra o rail de proteção. Nesse momento, em pleno drift, não disse cara***, não disse fuck, nem nada que se pareça. Gritei mon Dieu.

Não sei se foi porque ia a falar francês com a minha copilota ou porque o meu cérebro decidiu que só com ajuda divina lá íamos. Tenho é de reconhecer que resultou.

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