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Policiando o corpo das mulheres
Opinião Sociedade 3 min. 21.07.2021
Desporto

Policiando o corpo das mulheres

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Policiando o corpo das mulheres

Foto: EPA
Opinião Sociedade 3 min. 21.07.2021
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Policiando o corpo das mulheres

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Atletas que não querem despir-se. Atletas obrigadas a vestir-se. Todos estes casos têm em comum o policiamento do corpo feminino.

As atletas da selecção de andebol de praia da Noruega há muito que se queixam dos regulamentos da Federação Europeia de Andebol, demasiado restritivos sobre o tamanho dos equipamentos. "As mulheres devem usar um biquíni em que o top deve ser um soutien justo bem cavado nos braços. A cueca não pode ter mais do que 10 cm dos lados", dizem os regulamentos internacionais. Já agora, para os homens: "Os tops dos homens devem ser cavados e cingidos. Os calções dos homens, se não forem muito largos, podem ser mais compridos mas têm de estar 10cm acima do joelho."

A Federação Feminina de Andebol de Praia norueguesa, sabendo que as queixas não iam ser ouvidas, estava disposta a pagar a multa (50 euros por atleta/jogo) caso as jogadoras usassem calções mais compridos. Mas a organização do Campeonato Europeu de Andebol na Bulgária avisou que desqualificaria a equipa.

Dias antes, a atleta britânica paralímpica de 4x100m estafeta e salto em comprimento, Olivia Breen, foi criticada por uma oficial nos Campeonatos britânicos porque as suas cuecas eram demasiado reveladoras. "Há muitos anos que uso este tipo de cueca, precisamente desenhadas para competição. Espero poder usá-las em Tóquio. Fez-me pensar se um atleta masculino também seria criticado assim", disse Breen, 24 anos, com paralisia cerebral, duas vezes campeã mundial.

Nenhum dos casos é único e traz, a dias das Olimpíadas de Tóquio, de novo a discussão sobre equipamentos de atletas femininas, sobretudo em modalidades que as obrigam a revelar o seu corpo, como voleibol ou andebol de praia, ténis ou atletismo. Isto sempre por oposição à indumentária masculina. Os investigadores Sailors, Teetzel e Weaving analisaram as imagens da cobertura mediática das jogadoras de vólei de praia em várias Olimpíadas e concluíram, sem surpresa: "Exigindo que as mulheres usem equipamentos mais justos, que cubram menos área do corpo, estas regras efectivamente promovem a objectificação e a ‘exploração sexual’ de atletas femininas."

A seleccionadora francesa de andebol de praia, Valérie Nicolas, afirmou: "As jogadoras dizem-me que estão desconfortáveis, se sentem nuas e observadas. É um desporto com muito movimento e estamos constrangidas pelo biquíni. Também há desconforto associado com menstruação, já para não dizer motivos religiosos."

Uma polémica semelhante estalou em Fevereiro, quando atletas alemãs de vólei de praia se recusaram a seguir as recomendações da organização do Campeonato Mundial, no Qatar, ameaçando boicotar o torneio. Por motivos religiosos, o Qatar pediu que as atletas do Mundial usassem calças e t-shirts. A Federação Internacional de Vólei de Praia, ao contrário da de Andebol, permite várias opções para mulheres, que incluem biquíni, fato-de-banho completo ou uma tshirt (cavada ou não) e calções até 3cm acima do joelho. A Federação explicou que o Qatar fez este pedido por "respeito às tradições do país organizador".

Estes conflitos devem-se a uma visão sexista das federações sobre as modalidades, explica a espanhola Pilar Calvo, secretária-geral da Associação para Mulheres no Desporto Profissional: "O grande problema é que as mulheres estão sub-representadas nos órgãos das Federações e não têm qualquer influência no processo de decisão sobre este e outros assuntos." É mais um policiamento dos corpos das mulheres e da sua liberdade, do que qualquer regra lógica sobre conforto e performance atlética. No fundo, elas deviam poder usar o equipamento que quisessem.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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