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2700 euros de salário inicial inteiro e limpo
Opinião Sociedade 4 min. 09.09.2021
Desigualdades

2700 euros de salário inicial inteiro e limpo

Alunos numa aula na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Desigualdades

2700 euros de salário inicial inteiro e limpo

Alunos numa aula na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Foto: Lusa
Opinião Sociedade 4 min. 09.09.2021
Desigualdades

2700 euros de salário inicial inteiro e limpo

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
250 mil euros para comprar casa em Lisboa. 2700 euros de primeiro salário. É fácil imaginar o país em que vivem as elites portuguesas: intencionalmente alheadas do mundo que lhes paga os privilégios.

Estava a escrever esta crónica quando recebi um email anunciando o novo romance de Miguel Sousa Tavares, prestes a sair com a chancela mais poderosa em Portugal, a Porto Editora. Cito: "Uma reflexão sobre o pavor coletivo em situações de crise e as consequências desse estado de emergência. Numa época em que ser-se velho significa somente caminhar para um fim inevitável, o autor lembra-nos que existem homens e mulheres que são testemunhas de um passado inapagável, provas de que a liberdade é o último dos nossos bastiões."

Um pavor "colectivo em situações de crise" será Sousa Tavares perceber que um jovem não ganha 2700 euros de salário inicial inteiro e limpo ao entrar no mercado de trabalho, como afirmou ao primeiro-ministro, António Costa. Às vezes nem os 700 euros com que Costa lhe respondeu: um contrato muito precário, a prazo, salário mínimo a seis meses seguidos de desemprego. Enquanto isto os media apresentavam acriticamente os "23 mil empregos que ninguém quer": há empregos para engenheiros civis recém-licenciados a salário mínimo (665 euros). Um engenheiro civil recém-licenciado ganha 2700 no primeiro emprego, sim: na Noruega.

De facto, a "liberdade é o último dos nossos bastiões": a liberdade de alguns para comprar casa em Lisboa a 250 mil euros, como disse o candidato do PSD à autarquia, Carlos Moedas. Moedas sabe bem quem compra casa em Lisboa (não são jovens nem portugueses) e quanto custa a renda de um quarto para "um jovem" estudante ou trabalhador. O mapa interactivo do Observatório do Alojamento Estudantil revelava "o preço médio da renda em Setembro, em Lisboa, está nos 326 euros; 250 no Porto e Faro; 200 euros em Braga." A idade média de quem partilha casa chega aos 34 anos (no Público).

O alheamento das elites não tem só a ver com a bolha de privilégio em que vivem. Mas sobretudo com o enorme desprezo por quem, diariamente, com muita precariedade laboral, familiar, e, tantas vezes, de saúde física e mental contribui precisamente para os servir.

A economista Susana Peralta citou um estudo da Gulbenkian que mostra que em 2017 apenas 24% dos sub-30 tinha casa própria, comparada aos 41% (2011) e 64% (2001); Portugal é o quarto país da UE com maior taxa de desemprego sub-30. Acrescentava que "a percentagem de trabalho temporário situava-se nos 22%, o que coloca o país no topo da OCDE em termos de precariedade laboral. O valor médio escondia grandes diferenças etárias: entre os sub-25, a percentagem de contratos temporários situava-se acima dos 60% e na faixa etária 25-34 era de cerca de 35%. (...) A pandemia trouxe uma destruição dos contratos a prazo, o que atingiu bastante os trabalhadores mais jovens", disse.

Esta semana ainda (parece, mas não é coincidência), o presidente da Confederação de Agricultores Portugueses disse ao ECO que o Governo não deveria mexer no salário mínimo "em tempo de crise". Observo regularmente a quantidade de dividendos distribuídos "em tempo de crise" pelas empresas do PSI-20. Para os regulares entrevistados pelo ECO, rentistas com carteiras de fundos, 2700 euros por mês são rendas "precárias" que oscilam tragicamente consoante a solidez dos mercados.

Não se pense que é realmente por falta de noção que as elites económicas, políticas e mediáticas afirmam estas barbaridades sobre a realidade laboral portuguesa e a situação de jovens estudantes e trabalhadores. O aparente alheamento sobre o "resto da gente" é intencional: basta ver como as notícias sobre trabalho e desemprego são cobertas pelos media; basta ver as páginas do Expresso ou do Eco para se perceber quem são os protagonistas diários no discurso formatado sobre economia e trabalho. Spoiler alert: não são "os jovens", a não ser que venham de boas famílias e lá pululem, junto aos seus pais e padrinhos, como se estivessem na Caras do Executive Digest.

O alheamento das elites não tem só a ver com a bolha de privilégio em que vivem. Mas sobretudo com o enorme desprezo por quem, diariamente, com muita precariedade laboral, familiar, e, tantas vezes, de saúde física e mental contribui precisamente para os servir.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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