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Denunciadora do Facebook diz que UE pode ser o líder mundial contra o mal das redes sociais
Sociedade 4 min. 09.11.2021
Parlamento Europeu

Denunciadora do Facebook diz que UE pode ser o líder mundial contra o mal das redes sociais

Parlamento Europeu

Denunciadora do Facebook diz que UE pode ser o líder mundial contra o mal das redes sociais

Foto: AFP
Sociedade 4 min. 09.11.2021
Parlamento Europeu

Denunciadora do Facebook diz que UE pode ser o líder mundial contra o mal das redes sociais

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Frances Haugen disse no Parlamento Europeu que a lei dos serviços digitais que está a ser discutida pode travar a desinformação, ameaças à democracia e perigo para a saúde mental dos milhões de utilizadores do Facebook.

Se a União Europeia conseguir "acertar numa lei dos serviços digitais, linguística e etnicamente diversa para os 450 milhões de cidadãos pode mudar o jogo para o mundo inteiro", disse esta segunda-feira Frances Haugen, a antiga responsável pela área de desinformação do Facebook, que nas últimas semanas tem denunciado em várias instituições a atuação deliberadamente danosa dos responsáveis da rede social de Mark Zuckerberg. 

Frances Haugen foi convidada pela comissão do mercado interno e de proteção do consumidor (IMCO) do Parlamento Europeu para se pronunciar sobre a lei dos serviços digitais europeia que está a ser discutida.

Na sessão que se prolongou por várias horas na tarde de dia 8, os eurodeputados consultaram a mulher que decidiu pôr a boca no trombone e entregar milhares de documentos onde se prova que os responsáveis da principal rede social de Mark Zuckerberg sabiam o mal que faziam e "sempre escolheram o lucro sobre a defesa dos seus utilizadores nas milhares de vezes em que havia um conflito de interesses".

Num testemunho eloquente, Haugen defendeu que a lei dos serviços digitais atualmente em discussão entre as instituições europeias "tem o potencial de ser um padrão internacional" e pode inspirar outros países, incluindo os Estados Unidos, "a criar novas regras para proteger a nossa democracia". "É uma oportunidade única numa geração de alinhar o futuro da tecnologia com a democracia", insistiu Haugen. O corpo legislativo europeu pode ter o poder, disse, de "mostrar ao mundo como transparência, regulação e transparência devem funcionar" e pediu aos legisladores para serem ousados.

"Uma verdade assustadora"

Aos deputados que seguiram a sessão, Haugen mais uma vez definiu o Facebook como o império do mal deliberado. "Escolhi trabalhar no Facebook porque achava que a empresa tinha o potencial de alimentar o melhor que há no ser humano. Estou aqui hoje porque acho que o Facebook é danoso para as crianças, promove a divisão, enfraquece as nossas democracias e muito mais". E é um mal perpetrado de propósito. "Os responsáveis sabem como fazer o Facebook e o Instagram mais seguros, mas não o fazem porque colocam os seus lucros gigantescos antes do interesse das pessoas", acusou.


A desinformação alimentou-se da pandemia
Como é que estamos de desinformação online? A pergunta tornou-se mais pertinente durante a pandemia, quando as páginas anti-vacinas e a menorizar o impacto da covid-19 circularam nas redes sociais mais depressa que as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Tal como as tabaqueiras que sabiam os malefícios do tabaco quando promoveram nos anos 50 campanhas de marketing sob falsos pressupostos, também o Facebook opera com total conhecimento dos danos, sustentou a norte-americana. "Os responsáveis da empresa escondem informação vital do público, das autoridades dos EUA e dos governos do mundo inteiro", salientou. "Só o Facebook vê os bastidores do Facebook. Ele é o juiz, o júri, o magistrado e a testemunha", disse Haugen sobre a opacidade da multinacional.

Frances Haugen referiu que decidiu denunciar as práticas da empresa porque identificou "uma verdade assustadora: quase ninguém fora do Facebook sabe o que se passa dentro do Facebook". Ao longo dos anos, segundo a whistleblower (lançadora de alerta, em português) mais famosa do momento, o Facebook conduziu investigações internas que demostram que o seu algoritmo tem a capacidade de reproduzir massivamente desinformação, campanhas de ódio e provoca danos graves na saúde mental, especialmente de setores vulneráveis da população, como é o caso dos adolescentes, sendo as raparigas as grandes vítimas. "O Facebook tornou-se uma companhia de 1 bilião de dólares vendendo os seus produtos em troca da nossa segurança e sobretudo da segurança das nossas crianças".


Frances Haugen contra o império Zuckerberg
Tenho esperança que não será preciso esperar meio século para encontrar um travão para o flagelo monopolista chamado Facebook.

 O tempo para agir é agora

Haugen já depôs no Congresso norte-americano e no parlamento inglês e na sua tournée europeia foi ainda ouvida em Berlim e estará na quarta-feira no parlamento francês.

Recentemente, numa operação considerada de relações públicas para limpar o nome, o Facebook criou uma empresa mãe de nome Meta. Os depoimentos de Frances Haugen têm sido vistos como mais uma machadada na reputação da rede social depois do escândalo da Cambridge Analytica, em 2018, em que foi denunciado que o Facebook vendeu dados dos seus utilizadores para incentivar o voto em massa em Donald Trump. E o mesmo processo foi usado para dar a vitória ao Brexit no Reino Unido.


Welcome to "Meta". O Facebook mudou de nome
O diretor executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, revelou hoje que a empresa vai mudar de nome para Meta, numa tentativa de abranger a sua visão de realidade virtual para o futuro, a qual designa por "metaverso".

Haugen salientou que "numa eleição os algoritmos do Facebook levam a que o que seja distribuído em massa são os conteúdos extremistas e não um estudo esclarecedor sobre uma questão política. E isto conduz a resultados trágicos para as democracias".

Frances Hugen considerou no Parlamento Europeu em Bruxelas, que a melhor resposta à impunidade em que o Facebook atualmente opera é a criação de novas regras e standards tal como estão a ser discutidos na União Europeia. E que o ponto de partida é o acesso aos dados: "É o que permite aos investigadores avaliar o perigo de todo o sistema".

"Eu decidi falar com grande risco pessoal, porque ainda temos tempo para agir, mas temos que agir agora", defendeu Frances Haugen no seu longo depoimento. "Porque se o Facebook continuar a operar no escuro iremos ver uma escalada trágica", rematou.

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Em entrevista por e-mail, a comissária europeia para a Justiça, Consumidores e Igualdade de Género analisa a entrada em vigor, esta sexta-feira, dia 25, do regulamento geral para a proteção de dados que deve deixar os europeus mais protegidos de escândalos como o da manipulação pela Cambdridge Analytica. Admite que o Facebook envia sinais confusos acerca da sua posição sobre privacidade e fala do assassínio de jornalistas na Europa.
Vera Jourova.