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Deixaria o seu filho ser cobaia da vacina anti-covid para crianças? Dois pais explicam porque deixaram
Sociedade 3 6 min. 18.02.2021 Do nosso arquivo online

Deixaria o seu filho ser cobaia da vacina anti-covid para crianças? Dois pais explicam porque deixaram

Deixaria o seu filho ser cobaia da vacina anti-covid para crianças? Dois pais explicam porque deixaram

Credit: Cincinnati Children’s
Sociedade 3 6 min. 18.02.2021 Do nosso arquivo online

Deixaria o seu filho ser cobaia da vacina anti-covid para crianças? Dois pais explicam porque deixaram

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Abhinav, de 12 anos, e Katelyn, de 16 anos, são voluntários nos ensaios clínicos da vacina da Pfizer para os mais novos num hospital dos EUA. Eles e os pais contam porque tomaram esta decisão.

Abhinav, 12 anos, e Katelyn, 16 anos, são dois dos 236 participantes nos ensaios clínicos da vacina anti-covid para crianças e adolescentes que a Pfizer está a realizar no Hospital Pediátrico de Cincinnati, EUA.

Este é um dos vários hospitais que estão testar a vacina da Pfizer para combater a pandemia na população escolar em que participam um total de 2559 voluntários com idades entre os 12 e 17 anos. Destes testes, com cobaias humanas menores de idade, depende a futura disponibilização da vacina da Pfizer contra a covid-19 para os mais novos.

Katelyn foi a voluntária mais nova a ser testada neste hospital norte-americano, levando a primeira dose a 14 de outubro de 2020. Abhinav iniciou no final de outubro os seus testes. Agora continuam a ser seguidos durante dois anos pela equipa médica e periodicamente vão às consultas e realizam análises e exames médicos para vigiar os efeitos da vacina e a duração da imunização.

Cincinnati Children’s

Levaram a vacina ou um placebo?

Mas nem Abhinav nem Katelyn (com a mãe na foto acima) sabem se receberam a vacina anti-covid da Pfizer ou lhes foi administrado um placebo (uma substância sem qualquer propriedade farmacológica), pois é assim que funcionam, em geral, os ensaios clínicos de vacinas.

Neste caso, os 2.559 participantes neste estudo pediátrico da Pfizer estão divididos em dois grupos, uma metade recebe a verdadeira vacina anti-covid e a outra metade recebe o placebo. Nenhum voluntário sabe em que grupo está. Sabem sim, que têm 50% de hipóteses de terem sido vacinados contra a covid-19.

Cincinnati Children’s

Elogios e críticas

Mesmo assim, os pais de Abhinav ( na foto em cima com o pai) e Katelyn e os próprios filhos aceitaram participar nos ensaios clínicos. A divulgação das fotografias dos dois menores a receberem a primeira dose da vacina, ou placebo, pelo hospital despertou a curiosidade dos media dos EUA e do mundo e se há muitos elogios pela “coragem” e pelo “ato heroico”, também há adultos que criticam os pais por apoiarem os filhos e deixá-los ser cobaias humanas nos ensaios destas vacinas pediátricas. Isso mesmo contou Laurie Evans a mãe da adolescente à revista Time.

“Recebi alguns comentários no Facebook - 'Que tipo de mãe deixaria seus filhos participarem nisso?'”, disse a mãe de Katelyn salientando também que a filha recebeu muitos elogios. Nos corredores da escola “professores e outros alunos dizem: 'Ei, é tão fixe', a participação nos ensaios ou 'Tu és tão corajosa!'”.

“Não considero que sejamos heróis mas sim que ajudamos a combater a pandemia”, declarou Laurie Evans que é professora primária em Cincinnati.

Para "ajudar muitas pessoas"

 “Nós sentimo-nos como pessoas normais, mas que estamos a fazer algo minúsculo que ajudará muitas pessoas”, disse, por seu turno, a jovem de 16 anos ao site do “Good Morning America”.

Aos 12 anos, também Abhinav considera que a sua participação nos ensaios irá “impedir que o vírus se espalhe e infete outras pessoas”, como referiu à cadeira de televisão norte-americana CNN.

"Penso que todos na minha escola gostariam de voltar ao normal", declarou Abhinav confessando que espera ter recebido a verdadeira vacina.  "Penso realmente que uma vacina pode impedir a propagação da infeção. A partir de agora, eu provavelmente vou pedir a outras crianças que também se vacinem", acrescentou.

Também Katelyn deixou folhetos a pedir voluntários para os ensaios clínicos na escola e no grupo de coro que frequenta.


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 Toda a família quis participar

Em ambos os casos foram os pais que viram os anúncios da Pfizer a convidar voluntários adultos e menores para se voluntariar para os ensaios clínicos da vacina contra a covid e perguntaram aos filhos se eles se queriam inscrever.

Aliás, em casa do menino e de Katelyn todos se voluntariaram para os testes clínicos, sendo o pai de Abhinav, Sharat, um dos voluntários nos ensaios clínicos da vacina anti-covid da Pfizer para adultos, a fase 1 dos ensaios clínicos no início de 2020. Os testes para a vacina pediátrica compõem a fase 3 dos ensaios clínicos. A última fase.

“Estes são ensaios clínicos para adultos e crianças com duração de dois anos. Depois de comprovada a segurança dos ensaios clínicos nos adultos, ampliamos os ensaios aos adolescentes com 16 e 17 anos, e logo de seguida, também com base nos resultados iniciais de segurança alargámos os ensaios à faixa etária dos 12 aos 15 anos”, explicou ao Contacto Bryce Anslinger, assessor de imprensa do Hospital Pediátrico de Cincinnati. 

“Regularmente partilhamos resultados preliminares dos ensaios clínicos com a Pfizer”, precisou. De salientar que a vacina da Pfizer contra a Covid-19 está autorizada a partir dos 16 anos, todas as outras só a partir dos 18 anos.

Sharat é médico no Hospital de Cincinnati e quando soube dos ensaios clínicos para a vacina pediátrica debateu com a mulher a possibilidade do filho deles, de 12 anos, se voluntariar também. Para Sharat os ensaios clínicos da Pfizer são “seguros” e poderiam “proteger” Abhinav de ser infetado com a covid-19. Por tudo isto os pais falaram com o menino que acabou por aceitar.

"Proteger o nosso filho"

"Pensámos principalmente em proteger o nosso filho. Depois, porque isso ajudaria também a ciência. Sentimos que era uma coisa boa a fazer”, declarou Sharat à CNN.

O mesmo pensou a mãe de Kathelyn, Laurie Evans. Esta professora primária e os dois filhos, Katelyn de 16 anos, e Andrew de 20 anos, inscreveram-se todos como voluntários dos ensaios clínicos em adultos e crianças. Mas só Kathelyn que apresentou a candidatura em maio de 2020, altura em que abriram as inscrições para menores de 18 anos, foi chamada para participar, e isso só aconteceu só em outubro. Os ensaios clínicos em adolescentes iniciaram-se logo dois dias depois da autorização da Agência norte-americana do Medicamento (FDA).

A equipa do Cincinnati foi “muito precisa sobre todos os aspetos do teste e todos os riscos de segurança”, explicou Laurie Evans ao site de notícias ‘Cincinnati’. “E os riscos são mínimos”, acrescentou. Esta mãe referiu que a filha tem acesso 24 horas por dia, 7 dias por semana aos médicos.

 “Nós sabíamos que teríamos um bom suporte se algo acontecesse”, sublinhou Laurie Evans ao site de notícias da sua cidade.

“Eles enviaram-nos um dossier de 11 páginas com todos os ‘ses’ e porquês, como e o quê”, contou Katelyn à revista Time. Os médicos explicaram-nos [os efeitos colaterais] o que as pessoas tiveram nos testes de Fase 1.  O corpo um pouco dolorido. Febre baixa. Coisas pequenas assim. Nada drástico ou terrível”, acrescentou a adolescente.

Também a farmacêutica Moderna está a realizar ensaios clínicos idênticos nos EUA com três mil voluntários das mesmas idades e a AstraZeneca vai iniciar este mês testes com 300 participantes, entre os 6 anos e os 17 anos, no Reino Unido. Até ao final deste ano, as farmacêuticas querem ter a vacina anti-covid pediátrica disponível. O mesmo desejo tem a Casa Branca.

  “Esperamos que no final da primavera ou início do verão as crianças possam começar a ser vacinadas de acordo com as normas da FDA [a agência norte-americana do medicamento]”, declarou Anthony Fauci, o principal conselheiro médico do presidente Joe Biden, numa conferência na Casa Branca, a 27 janeiro. O desejo de Fauci, é que as crianças possam estar já a ser vacinadas “quando começar o próximo ano letivo, em setembro”.  

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