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De cimeira em cimeira até ao fracasso final
Opinião Sociedade 3 min. 09.11.2021
COP26

De cimeira em cimeira até ao fracasso final

Ação com a mensagem "No New Worlds" (não há mundos novos) é vista em Glasgow, na Escócia, onde decorre a Cimeira das Nações Unidas sobre o Clima.
COP26

De cimeira em cimeira até ao fracasso final

Ação com a mensagem "No New Worlds" (não há mundos novos) é vista em Glasgow, na Escócia, onde decorre a Cimeira das Nações Unidas sobre o Clima.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 09.11.2021
COP26

De cimeira em cimeira até ao fracasso final

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Se os votantes não estão dispostos a sacrifícios, podemos exigi-los aos políticos por eles eleitos?

Durante a sua primeira semana, a COP26 em Glasgow trouxe boas notícias para o planeta. Ou pelo menos é isso que a versão oficial nos quer fazer acreditar, com factos e títulos cuidadosamente escolhidos; ouviram-se discursos dramáticos e declarações de boas intenções vindas um pouco de todo o lado, mas até ao momento os resultados concretos são bem mais magros, sobretudo depois de escrutinados.

Um bom exemplo é o do acordo de eliminação das centrais energéticas a carvão. A queima de carvão é a culpada número 1 pelas emissões de gases no planeta, pelo que acabar com o seu uso é absolutamente crucial para o objectivo de limitar os danos das alterações climáticas; o acordo anunciado envolve 46 países e 450 bancos que se comprometem ir fechando as centrais a carvão já existentes, além de não financiar novas.


Mais de 20 países deixam de financiar combustíveis fósseis no estrangeiro até 2022
Mais de vinte países e instituições - incluindo Portugal - comprometeram-se hoje a deixar de financiar projetos de combustíveis fósseis até ao fim do ano de 2022, uma resolução de que ficaram fora países como a China ou a Rússia.

Um mau acordo é melhor do que nada? Na realidade, este documento não é vinculativo - é apenas uma promessa com datas variáveis, e sem punições por incumprimento - e os maiores poluidores com carvão (China, EUA, Índia, Austrália) não o assinaram. "O que mais salta à vista neste débil acordo é que o uso de carvão continuará como até aqui", avisa a Amigos da Terra, uma associação ecologista internacional. Nesse sentido, anunciar pomposamente "o fim do carvão está à vista" é uma promessa enganosa que têm o efeito contrário ao desejado, apaziguando as nossas consciências e retirando pressão sobre a resolução - urgente - do problema.

Um mau acordo não passa de uma promessa enganosa com um efeito contrário ao desejado.

Algo parecido se passa com o acordo sobre as florestas. Neste momento, calcula-se que uma área florestal equivalente a 30 campos de futebol desapareça a cada minuto. É evidente que esta loucura significa, a médio prazo, o fim dos ecossistemas neste planeta e cerca de uma centena de países - entre eles, de forma tão surpreendente como crucial, o Brasil - prometeram, até 2030, acabar com a desflorestação e passar mesmo a reflorestar mais do que a área que desaparece, promessa essa acompanhada de 17 mil milhões de euros. Soa óptimo, mas é bom lembrar que um acordo-promessa muito parecido, assinado por muitos dos mesmos países na COP de 2014, não teve qualquer efeito em abrandar o corte de árvores.


Salvar as florestas? Sim, podemos
O primeiro acordo político de Glasgow foi assinado por mais de 100 líderes e promete restaurar as florestas da Terra até 2030. Boris Johnson referiu-se a ele como momento histórico.

Um dos maiores problemas em aplicar as soluções necessárias a um vasto problema global é que a Humanidade está dividida de múltiplas formas - países, facções, ideologias, interesses. Outro problema que decorre desse é que os líderes políticos que representam essas diferentes populações deveriam ser "melhores" que elas (mais visionários, mais inteligentes, mais responsáveis, mais altruístas, mais verdadeiros, mais decididos). Mas não são. São humanos representando humanos, com todos os seus defeitos, nomeadamente o egoísmo, a ganância e a preguiça.

Acaba de ser publicada uma grande sondagem onde uma amostra de franceses, alemães, neerlandeses, americanos e ingleses, entre outros, responderam maioritariamente estar "orgulhosos" do esforço que já fazem para proteger o planeta e não estarem dispostos, por uma variedade de razões, a mudarem o seu estilo de vida - até porque consideram fazer mais do que "os vizinhos" e "o Governo". Se os votantes não estão dispostos a sacrifícios, podemos exigi-los aos políticos por eles eleitos? Honestamente, não. É por isso que as decisões duras vão voltar a ser adiadas para a próxima cimeira.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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