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Cuidado com as “apps”
Sociedade 4 min. 29.07.2019

Cuidado com as “apps”

Cuidado com as “apps”

Foto: Sophie Wiessler
Sociedade 4 min. 29.07.2019

Cuidado com as “apps”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Uma investigação em cibersegurança descobriu que quase 13 mil aplicações conseguem espiar e aceder aos dados pessoais mesmo que o utilizador tenha negado o acesso. As leis existem e prevêm multas de 20 milhões, mas não são aplicadas. “Um escândalo” frisa o partido Pirata do Luxemburgo.

Quase 200 milhões de pessoas já instalaram e se divertiram com a FaceApp, a aplicação que nos faz envelhecer 40 anos, ou ver como ficamos com outros cortes de cabelo. Esta aplicação gratutita da empresa russa Wireless Lab que lidera os top de downloads da App Store (iOS) e da Play Store (Android) tem sido também notícia devido aos alertas de que poderia estar a ter acesso aos dados e historial dos utilizadores, e estar partilhá-los, sem autorização. A FaceApp já se defendeu, num comunicado oficial, declarando que as suas funções podem ser utilizadas sem que o utilizador se identifique, pelo que não tem acesso a “nenhum dado que possa identificar uma pessoa”, diz.

Uma investigação recente ao nível da cibersegurança feita em conjunto por institutos dos EUA, Canadá e Madrid analisou 80 mil aplicações da Play Store e descobriu que 12.923 aplicações acedem aos dados do utilizadores, como publicações, contactos, fotos, entre outros, mesmo que estes tenham proibido o seu acesso.

Nas conclusões do estudo, em que se explica como as aplicações conseguem aceder aos dados, os especialistas do International Computer Science Institute, em Berkeley, USA, da Universidad de Calgary, Canadá, do IMDEA Networks Institute de Madrid, e da AppCensus realçaram que “milhares de milhões de utilizadores” têm sido “espiados” por estas aplicações, embora não divulguem a lista dos infratores. As empresas conseguem também saber a geolocalização do utilizador. Esta e os dados pessoais são para os cientistas os fatores “mais intrusivos e perigosos”.

Estas ‘apps’ estão a violar as leis de privacidade e proteção de dados, quer dos EUA quer da Europa, até as relativas “às crianças”, vinca o estudo.

Também para Pedro Veiga, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e ex-coordenador do Centro Nacional de Cibersegurança o utilizador tem de ter cuidado e proteger os seus dados. “É um problema de educação. As pessoas não devem instalar aplicações nos seus equipamentos quando não precisam delas. Mas acham-no divertido”. Em declarações ao Expresso este especialista acrescenta: “As pessoas dizem que é gratuito. Bom, você não paga diretamente, paga indiretamente, dando a sua privacidade. Não há almoços grátis. Até ao histórico têm acesso… para quê!?”.

“É importante educar o cidadão desde cedo e é por isso que é importante cada pessoa prestar atenção aos seus dados, e não os divulgar sem pensar”, considera este deputado. E avança: “É um escândalo e muito triste ver o que as empresas estão dispostas a fazer para conseguir dados dos consumidores”, declara ao Contacto Starsky Flor, copresidente do partido Pirata no Luxemburgo..

Por isso, o Partido Pirata defende que os cidadãos devem poder “modificar ou apagar os seus dados pessoais. Deve ser um direito para todos, sempre que os dados sejam recolhidos”.

Cada vez mais, os dados dos utilizadores são um bem valioso demais pois traçam o perfil de cada pessoa e são essenciais em inúmeras áreas desde estudos variados como os de mercado, a candidatura de políticos ou lançamento de produtos.

Multas podem chegar aos 20 milhões

O estudo alerta para a “necessidade de maior investimento nos mecanismos de controlo da proteção de dados pelas plataformas” como a Google ou Facebook.

O deputado do partido Pirata vinca que estes “gigantes da Internet têm os meios têm os meios para proteger o consumidor mas também têm alguma responsabilidade na situação atual. Resta ver se eles dão o seu melhor para proteger os utilizadores destas acções das aplicações”.

O reforço nas políticas de privacidade e da proteção de dados, bem como da sua aplicação pelos países é outra das recomendações dos autores do estudo internacional.

De acordo com o Regulamento Geral de Proteção de Dados e da Lei de Proteção de Dados europeu o uso sem permissão dos dados pode incorrer em multas muito elevadas para as empresas. Sanções económicas que podem chegar até aos 20 milhões de euros ou 4% da faturação anual da empresa detentora da aplicação.

“As leis devem ser adaptadas para punir quem rouba dados. Infelizmente, é mais difícil processar os países fora da União Europeia, porque as leis europeias não são aplicáveis ​​nesses países”, explica o deputado luxemburguês.

Recorde-se que em janeiro deste ano a França deu um paso inédito em frente ao multar a Google em 50 milhões de euros por desrespeitar as novas regras de privacidade europeias naquele país.

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