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Testes e certificados. "Medidas individuais de segurança continuam a prevalecer"
Sociedade 9 min. 15.07.2021
Covid-19

Testes e certificados. "Medidas individuais de segurança continuam a prevalecer"

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Testes e certificados. "Medidas individuais de segurança continuam a prevalecer"

Foto: Shutterstock
Sociedade 9 min. 15.07.2021
Covid-19

Testes e certificados. "Medidas individuais de segurança continuam a prevalecer"

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Portugal segue o Luxemburgo com teste ou certificado para entradas em vários espaços, mas a recente subida de casos no Grão-Ducado associada a saídas de lazer e as férias mostram que as regras de proteção sanitária têm de se manter, lembra especialista portuguesa.

Portugal decidiu alargar, na última semana, a utilização obrigatória dos certificados digitais e de testes de rastreio para o acesso a alojamentos e restaurantes, em concelhos de maior risco. 

Esta segunda-feira, o ministro da Economia português avançou que o Governo estava a equacionar alargar o uso de certificado digital ou teste negativo para outras atividades afetadas pelos encerramentos devido à covid-19, como parques aquáticos, sem se comprometer para já com a reabertura de bares e discotecas.

No Luxemburgo, o "covid check" permite, há cerca de um mês, que os residentes acedam às diferentes atividades culturais e de lazer e aos espaços interiores do setor da horeca, para os quais o acesso com teste é requisito desde maio.


Comunas podem proibir noite branca em caso de incumprimento das regras
O Governo vai contactar as autarquias do país para aumentarem a fiscalização nos estabelecimentos noturnos.

Através do certificado de vacinação e do avanço da campanha vacinal entre a população tem sido possível, mediante apresentação dos comprovativos incluídos no certificado (imunização pela vacina ou pela recuperação da infeção) ou de teste negativo, aceder a um conjunto cada vez maior de atividades. Com a chamada "noite branca", alguns espaços de animação noturna puderam, sob as referidas condições de acesso, solicitar autorização às comunas para abrirem os seus estabelecimentos até de madrugada.

Mas a subida exponencial de casos a seguir ao feriado do Dia Nacional, entre os jovens adultos, ainda sem a vacinação e em contextos associados a convívios e saídas noturnas, levou as autoridades luxemburguesa a equacionarem um travão a essas licenças. 

No passado dia 8 de julho, o vice-primeiro-ministro Dan Kersch garantiu, em conferência de imprensa que as comunas podem recusar a autorização de noite branca (até às 3h) se houver pessoas em incumprimento da lei, anunciando um reforço da articulação com as forças policiais. 

Esse anúncio foi feito na mesma semana em que o Governo divulgou que o exponencial aumento de casos de covid-19, ocorrido na semana de 28 de junho a 4 de julho, estava associado a atividades de lazer e convívio e saídas à noite, que representaram 33,6% da origem dos casos.

Nessa semana, 787 pessoas testaram positivo - um aumento recorde de mais 635%, face aos 107 da semana anterior -, a taxa de positividade passou de 0,27 para 2,22% e a incidência subiu de 17 casos por 100 mil habitantes para 124 casos por 100 mil habitantes, no espaço de apenas uma semana.


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A nova 'lei covid', que vai vigorar entre 16 de julho e 14 de setembro, prevê multas de até 6.000 euros para quem infringir as regras.

No rastreamento de contactos, feitos pelas autoridades de saúde luxemburguesas, e confirmado pelos ministérios da Saúde e Administração Interna, em resposta parlamentar, 307 pessoas, entre os 18 e os 40 anos, que testaram positivo reconheceram ter participado em eventos festivos e sociais a 22 de junho (no âmbito do Dia Nacional, em particular) e em vários encontros nos dias seguintes.  

Entre essas, 245 referem ter estado em estabelecimentos de restauração e animação, tendo sido identificados 29 estruturas onde terá ocorrido a transmissão do vírus e diferentes clusters. 

Um desses estabelecimentos foi mesmo referido 109 vezes pelas pessoas infetadas, muitas das quais admitiram que, em vários locais de diversão, os espaços exteriores estavam cheios e não havia respeito pelas regras sanitárias, como o uso de máscara e o distanciamento físico.

A tentação de olhar para uma maior liberdade de acesso trazida pelos certificados digitais ou pelos testes negativos pode levar a descurar as regras sanitárias, que ainda se mantêm em vigor, e levar a comportamentos de risco.


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Numa altura em que milhares de emigrantes se juntam aos portugueses residentes em Portugal para passarem as suas férias no país, e em que o Governo começa a aliviar algumas medidas em função da apresentação daqueles documentos, é importante lembrar  que as regras de autoproteção se mantêm e continuam a ser a maior barreira para conter a transmissão do SARS-Cov-2.

Em declarações ao Contacto, Elisabete Ramos, investigadora no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia (APE), admite que "o equilíbrio é difícil, entre garantir às pessoas alguma normalidade de vida, como poder ter férias, e, por outro lado, tentar controlar a transmissão da infeção", mas reforça que o primeiro passo "é as pessoas nunca se esquecerem que as medidas individuais de segurança continuam a prevalecer em qualquer circunstância, quer haja um teste negativo ou certificado de vacinação". 

Elisabete Ramos
Elisabete Ramos
Foto: DR

"Isto significa estar sempre atento à lavagem das mãos, continuar a manter o distanciamento físico e o uso de máscara quando este não é possível", mesmo que um teste negativo ou um certificado confirmem, naquele momento, a assunção de que a "bolha" de pessoas presente num dado espaço não está infetada. 

 "Obviamente que não no núcleo mais restrito, mas com as outras pessoas que não fazem parte desse núcleo e estão na mesma instituição hoteleira, sempre que possível manter o distanciamento físico. Se, por exemplo, na piscina houver umas cadeiras mais longe, escolher essas cadeiras, mesmo que se tenha de andar mais para chegar à piscina", ilustra.

Os autotestes são seguros e fiáveis? 

Os autotestes são uma das modalidades de teste possível para aceder a diferentes espaços, tanto no Luxemburgo como em Portugal. Apesar de validados pelas autoridades de saúde dos países, os resultados que apresentam podem não ser tão fidedignos como o de um teste laboratorial e, em Portugal, vários espaços de restauração e hotelaria preferem não arcar com essa responsabilidade, não dispensando essa opção aos seus clientes.

"Do ponto de vista do individuo, é completamente seguro, porque a destruição do recipiente onde é colocado o material nunca entrará em contacto com os clientes. Penso que não há risco que seja um modo de transmissão. A questão é se ele é feito com a qualidade que deveria ser feito para se garantir que um teste negativo é, de facto, um negativo e não um falso negativo", explica a epidemiologista.

No que respeita ao controlo da transmissão da infeção, o problema reside aí, na possibilidade de haver falsos negativos. "Aqui a questão é se a qualidade do teste é feita suficientemente bem para garantir que não passam pessoas infetadas", ainda que testem negativo. 

Caso isso aconteça, considera Elisabete Ramos, será, apesar de tudo, "menos problemático" essa situação ocorrer num restaurante que num alojamento de férias. "Um indivíduo com uma carga viral baixa que teria um falso negativo [no resultado do teste], ou seja, fez um teste já estava infetado, mas o teste deu negativo porque ainda tinha uma carga viral baixa, [se estiver] num convívio num restaurante, à partida não é problemático, porque a refeição vai ser relativamente curta - estamos a falar de um par de horas - e a evolução não é tão rápida que o indivíduo que começou com uma carga viral baixa, no final esteja com uma carga viral alta, e por isso vá transmitir facilmente."


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Teste negativo ou certificado digital são, desde este fim de semana, obrigatórios para toda a hospedagem turística, em todo o território continental. Veja o que deve saber se já marcou ou vai marcar as suas férias num alojamento no país.

Contudo, num contexto de estadia mais longa, como a hospedagem num hotel ou num alojamento turístico, o impacto é diferente e mais arriscado.

"Poderá ser mais problemático porque o indivíduo teve uma prova negativa à entrada e depois a sua infeção pode evoluir para um patamar em que já se torna transmissível continuando ele a assumir que está negativo."

Por isso, Elisabete Ramos insiste na aplicação das regras que todos já conhecem, lembrando que "não há soluções perfeitas" e que "a única forma de as pessoas se protegerem é, em qualquer circunstância, continuarem a assumir que as medidas individuais têm de se manter permanentemente" e de forma automática, como entrar no carro e por o cinto de segurança, como exemplifica. 

"Estas medidas têm uma visão mais global e se se pensar de um ponto de vista de população, obviamente que testar as pessoas reduz a probabilidade de haver alguém infetado naquele contexto e, por isso, no global das pessoas irá reduzir a probabilidade de haver novos infetados. Do meu ponto de vista individual, a única forma de me proteger é garantir as medidas individuais de proteção individuais", sublinha.

Teste no regresso das férias?

Se a realização de testes, para aqueles que não têm esquema vacinal completo (a toma das duas doses há, pelo menos, 14 dias) pode ajudar a reduzir a probabilidade de a infeção se espalhar a mais pessoas, quando da ida para férias, ela deve ser também repetida no regresso?

 Essa é uma opção que "deixo ao critério de cada um", refere Elisabete Ramos, recomendando antes uma restrição da vida social e um recolhimento nas duas semanas seguintes à chegada a casa.

"É importante que as pessoas quando regressam, porque saíram e contactaram com mais pessoas, que também estejam alerta para tomar algumas medidas adicionais. Não têm, necessariamente, de ficar em isolamento, mas nas duas semanas depois de regressar de férias é boa ideia limitar os contactos ao indispensável, porque na verdade, durante duas semanas estão a arrastar consigo, não só os contactos que tiveram, mas os contactos dos contactos com quem estiveram". 

Uma das soluções, se implicar, por exemplo um regresso imediato ao trabalho é, caso seja possível escolher entre o regime presencial ou o teletrabalho,  "escolher o teletrabalho nessas duas primeiras semanas, porque é uma forma de proteger todos os colegas de trabalho. E quem diz isso, diz, por exemplo, programar um jantar com a família para contar como foram as férias. Esse jantar é melhor que seja duas semanas depois de ter regressado".


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A epidemiologista recorda ainda que os contactos de risco em contexto de férias são, por vezes, mais difíceis de identificar do que se a infeção acontecer com colegas de trabalho. "Durante as férias alguém fica doente, essa pessoa não se vai lembrar que, durante três dias seguidos, almoçou na mesa ao nosso lado, por exemplo. Por isso, mesmo que alguém seja diagnosticado, dificilmente [as equipas de saúde] chegam até nós para nos avisar", enquanto potencial contacto.  

Por isso, a epidemiologista defende que o ideal é planear o regresso de férias "não com uma restrição absoluta, mas evitando o que puder ser evitado".

Já sobre se mesmo os vacinados (com dose completa) devem fazer teste para entrarem em restaurantes e hotéis, a especialista considera que "não se justifica". "Acho que nos iria criar um nível de ansiedade, de nunca ter segurança em nada que, se calhar, não é gerível", conclui. 


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