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Covid-19. Se os países ricos comprarem todas as vacinas, o que será dos mais pobres?
Sociedade 4 min. 18.11.2020

Covid-19. Se os países ricos comprarem todas as vacinas, o que será dos mais pobres?

Covid-19. Se os países ricos comprarem todas as vacinas, o que será dos mais pobres?

Foto: AFP
Sociedade 4 min. 18.11.2020

Covid-19. Se os países ricos comprarem todas as vacinas, o que será dos mais pobres?

Especialistas apontam para a necessidade de uma distribuição equitativa das vacinas em todo o planeta, para que haja um maior impacto de prevenção de infeção e mortes associadas à covid-19.

Ao longo desta semana ficaram a conhecer-se o nível de eficácia de algumas das vacinas para a covid-19 e os governos de todo mundo puderam arregaçar as mangas de forma a dar seguimento às estratégias de imunização que vinham a ser planeadas.  A questão que surge, no entanto, é se os países pobres terão acesso a uma vacina contra a covid-19.  

Investigadores da Northeastern University (EUA) publicaram recentemente um estudo que analisa a ligação entre o acesso à vacina e a mortalidade do covid-19. Os cientistas modelaram dois cenários, em que no primeiro previam o que aconteceria se 50 países ricos monopolizassem as primeiras duas mil milhões de doses de uma vacina. No segundo cenário, a vacina seria distribuída com base na população de um país e não na sua capacidade de pagar por ela. No primeiro cenário, as mortes de covid-19 seriam reduzidas em um terço (33%) a nível mundial. Com uma partilha equitativa, a redução atingiria 61%.

O chefe da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse na passada sexta-feira, dia 13 de novembro, que qualquer "avanço científico" beneficiaria todos os países. "Não há dúvida de que uma vacina será um instrumento essencial para controlar a pandemia", declarou. Mas enquanto os países mais ricos planeiam os seus programas de imunização até ao final de 2021, os peritos advertem que os países pobres enfrentam obstáculos. 

Os responsáveis pelo desenvolvimento de vacinas Pfizer dos Estados Unidos e a BioNTech da Alemanha esperam aplicar as primeiras doses dentro de algumas semanas, assim que receberem as autorizações de utilização de emergência das agências de saúde. 


CureVac. Europa faz reserva de mais 405 milhões de doses de vacina
Depois de ter assegurado 300 milhões de doses da vacina da Pfizer/BioNTech, a Comissão Europeia anunciou hoje o quinto contrato com uma farmacêutica

As duas empresas farmacêuticas esperam fornecer até 1,3 mil milhões de doses no próximo ano. Com um custo de 40 dólares por tratamento, duas injecções separadas, as nações mais ricas apressaram-se a pré-encomendar milhões de doses antes mesmo de se saber se esta vacina será bem sucedida.  Na passada semana, e um dia depois de a Pfizer/BioNTech ter anunciado uma fiabilidade de mais de 90% da sua vacina, a Comissão Europeia assinou um contrato de reserva de 300 milhões de doses.

Mas e os países pobres? "Se só temos a vacina Pfizer e todos precisam de duas doses, é claramente um dilema ético", disse Trudie Lang, directora da Global Health Network da Universidade de Oxford, à AFP. 

Existem atualmente mais de três dúzias de outras vacinas covid-19 em desenvolvimento, onze das quais estão em ensaios da Fase 3, a última antes do licenciamento. 

Antecipando a esmagadora procura de qualquer vacina aprovada, a OMS criou em abril a iniciativa Covax para assegurar uma distribuição equitativa. A Covax reúne governos, cientistas, sociedade civil e o sector privado. A Pfizer não é membro, mas "manifestou interesse num possível fornecimento" da Covax, um porta-voz da empresa, disse à AFP. 

Partilha equitativa 

Rachel Silverman, uma responsável política do Centro para o Desenvolvimento Global, disse ser improvável que grande parte do primeiro lote de vacinas chegue aos países mais pobres. Com base em acordos de compra antecipada com a Pfizer, calculou que 1,1 mil milhões de doses foram compradas por países ricos. 

"Não resta muito para todos os outros", disse à AFP. Alguns dos países que já encomendaram, como o Japão e a Grã-Bretanha, fazem parte do Covax, pelo que é provável que pelo menos algumas doses cheguem aos países menos desenvolvidos através dos seus acordos de compra. 


Olivier Véran
França. Vacinação será gratuita e poderá começar em janeiro
O ministro francês da Saúde, Olivier Véran, disse esta terça-feira que se a vacina da Pfizer contra o coronavírus for eficaz e segura, a vacinação no país será gratuita e deverá começar no início do próximo ano.

Em contrapartida, os Estados Unidos, que têm 600 milhões de doses encomendadas, não é membro da Covax. Isto pode mudar com o Presidente eleito Joe Biden. "Precisamos realmente de evitar que os países ricos devorem todas as vacinas e haja doses suficientes para os países mais pobres", disse Benjamin Schreiber, coordenador da vacina covid-19 no Fundo das Nações Unidas para a Infância Unicef. 

Para além da ética, também os dados epidemiológicos sublinham a necessidade de uma distribuição equitativa, como aponta o estudo da Northeastern University, referido anteriormente.

Desconfiança 

Mas mesmo que o financiamento para os países pobres se materialize, a questão da logística irá surgir. Com base numa nova tecnologia chamada RNA mensageiro, a vacina Pfizer/BioNTech é frágil: tem de ser armazenada a -70°C, enquanto que "a maioria dos congeladores na maioria dos hospitais em todo o mundo estão a -20°C", advertiu Lang. 

A Pfizer e alguns governos têm vindo a preparar um protocolo de entrega há meses, mas "nada disto aconteceu em países de baixo e médio rendimento", observa Rachel Silverman.

"Temos experiência em lançar a vacina contra o Ébola", diz Benjamin Schreiber, uma vacina que tem um perfil semelhante ao da Pfizer em termos de temperatura de armazenamento. É "mais difícil, mas não impossível", armazenar e administrar com segurança a vacina covid-19 no hemisfério sul, mas isto exigiria investimento e formação significativos, afirmou.

Finalmente, mesmo que várias vacinas sejam lançadas nos próximos meses, um último obstáculo terá de ser ultrapassado: a desconfiança na imunização, uma das 10 maiores ameaças à saúde global de acordo com a OMS. A vacinação contra o Ébola nos últimos anos praticamente erradicou o vírus, mas vários estudos demonstraram que o vírus não é tão contagioso como outrora foi.

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