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Covid-19. Hidroxicloroquina entre a esperança e a fraude
Sociedade 5 min. 03.04.2020

Covid-19. Hidroxicloroquina entre a esperança e a fraude

Covid-19. Hidroxicloroquina entre a esperança e a fraude

Foto: AFP
Sociedade 5 min. 03.04.2020

Covid-19. Hidroxicloroquina entre a esperança e a fraude

Considerada por Bolsonaro e Trump como remédio milagroso, usado no tratamento da malária, a hidroxicloroquina foi recentemente estrela de dois estudos controversos em França e neste momento é um dos cinco possíveis tratamentos da covid-19 testados num estudo europeu em que participa o Luxemburgo.

 A hidroxicloroquina, um derivado da cloroquina, um medicamento contra a malária, é um fármaco reconhecido para tratar doenças crónicas, como lúpus ou artrite reumatoide. Ultimamente tem recebido especial atenção devido aos resultados de dois estudos controversos conduzidos no Instituto Hospitalar Universitário (IHU) Méditerranée Infection de Marselha pela equipa do Prof. Didier Raoult.

No primeiro estudo realizado em 42 doentes hospitalizados com Covid-19 em França, dos quais 26 doentes do centro de Marselha receberam hidroxicloroquina, com ou sem o antibiótico azitromicina- grupo de intervenção; e 16 doentes, provenientes de outros centros do Sul de França, não receberam qualquer tratamento-grupo de controlo.

O segundo estudo abrangeu 80 doentes, 65 dos quais tiveram "um desenvolvimento favorável" e tiveram alta do hospital após menos de cinco dias em média, de acordo com seus autores. Um paciente de 74 anos ainda estava em terapia intensiva no final do estudo e outro paciente de 86 anos estava morto.

Embora aparentemente promissores, estes estudos revelam alguns problemas na sua metodologia e foram, por isso mesmo, criticados. O primeiro estudo foi alvo de críticas pelo fato de os doentes não terem sido atribuídos de forma aleatória ao grupo de intervenção e grupo controlo, pelo fato deste grupo ter sido testado de modo diferente do grupo de intervenção, por incluir muito poucos participantes e por estes serem seguidos apenas durante seis dias, tempo considerado muito reduzido.

O segundo estudo foi criticado por não ter grupo de controlo para comparar e incluir participantes com sintomas bastante leves. Este aspeto ilustra bem a importância de haver um grupo controlo porque, de acordo com os especialistas, a maioria destes doentes consegue recuperar sem qualquer intervenção e sem o grupo controlo não é possível saber se a “evolução favorável” se deveu ao tratamento.

Comum a ambos os estudos foi o facto de nenhum dos dois ter sido adequadamente aleatorizado-como se diz em termos técnicos- e controlado. Como tal, ambos os estudos tendem a ser pouco conclusivos e não permitem inferir com elevado grau de certeza uma relação de causalidade entre o tratamento recebido e os resultados observados, nestes casos a carga viral ser testada positiva ou negativa.

Ao desenhar um estudo aleatorizado controlado, os investigadores devem selecionar cuidadosamente a população, as intervenções a serem comparadas e os resultados de interesse. Os participantes são recrutados e atribuídos aleatoriamente para o grupo de intervenção que recebe o fármaco a ser avaliado, ou para o grupo de controlo que recebe um placebo, que tem um aspeto semelhante ao fármaco em estudo mas sem a molécula de interesse para que o doente que o recebe não saiba qual dos dois está a tomar. É importante garantir que, no momento do recrutamento, não haja conhecimento por parte dos investigadores e dos participantes em qual grupo estes são alocados para reduzir qualquer viés nos resultados, processo designado ocultação. Uma vez que este tipo de desenho de estudos permite a comparação dos resultados de um grupo de intervenção com um grupo de controlo e permite a redução máxima possível de vieses, estes estudos são considerados modelo-padrão (gold-standard) a testar a eficácia dos fármacos. Por outro lado, no que diz respeito a intervenções terapêuticas, os ensaios aleatorizados controlados têm a desvantagem de ser morosos e dispendiosos.

Trump disse segunda-feira dia 20 que o fármaco poderia ser considerado "a gift from God" (“uma dádiva de Deus”), contrariando as expectativas dos especialistas incluindo as de Anthony Fauci, diretor do instituto de Alergias e Doenças Infecto-contagiosas dos Estados Unidos desde 1984 e membro da task-force formada para combater o coronavírus. Mais moderado do que Trump, Fauci afirmou que a evidência da eficácia da hidroxicloroquina é “essencialmente anedótica”, ou seja, subjetiva e com pouco valor científico. No entanto, a Food and Drug Administration, autoridade que aprova os medicamentos nos EUA, já autorizou a prescrição de hidroxicloroquina para tratar doentes com covid-19, mesmo reconhecendo “dados clínicos anedóticos”.

Também o presidente do Brasil partilhou o mesmo entusiasmo desmedido do homólogo americano. “A hidroxicloroquina está dando certo em tudo quanto é lugar. Um estudo francês chegou para mim agora, porque eu não sou médico, não” afirmou, Jair Bolsonaro referindo-se aos estudos do IHU Méditerranée Infection de Marselha. Já o ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, à semelhança de Anthony Fauci, foi mais cauteloso ao afirmar que “não é o remédio para salvar a humanidade” deixando ainda o alerta para efeitos adversos.

Encontra-se em curso um estudo europeu de grande dimensão para testar a eficácia de 5 diferentes moléculas, incluindo a hidroxicloroquina, contra o Covid-19 que teve início no dia 22 de março. Neste estudo coordenado pelo INSERM - um organismo público francês de investigação científica- serão incluídos 3.200 participantes oriundos da Bélgica, França, Alemanha, Luxemburgo, Países Baixos, Espanha, Suécia, e Reino Unido. Segundo o Dr. Gilles Pialoux, diretor do INSERM, "a hidroxicloroquina será comparada com outras moléculas. Nem mais nem menos". A alocação de pacientes para as várias modalidades de tratamento será aleatorizada, mas os doentes e médicos saberão qual o tratamento usado. A análise da eficácia e segurança do tratamento será avaliada 15 dias após a inclusão de cada doente

Por enquanto, as recomendações da Agência Europeia do Medicamento (EMA) para os profissionais de saúde são de usar a cloroquina e hidroxicloroquina “no contexto de ensaios clínicos”, no tratamento de doenças crónicas ou “segundo os protocolos nacionais estabelecidos”. No entanto, face aos resultados preliminares, “nenhum medicamento demonstrou ainda ser eficaz”, de acordo com o comunicado do Infarmed, autoridade portuguesa do medicamento que se encontra em estreita articulação com o organismo europeu.

Vasco Cluny

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