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Covid-19. Herói fora do sofá
Sociedade 6 min. 05.04.2020

Covid-19. Herói fora do sofá

Covid-19. Herói fora do sofá

Foto: FB
Sociedade 6 min. 05.04.2020

Covid-19. Herói fora do sofá

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Um professor algarvio começou a imprimir viseiras de proteção em casa. Numa onda de solidariedade, o projeto em Loulé está agora a produzir 100 peças por dias entregues gratuitamente.

Arlindo Martins, professor de eletricidade e eletrónica na Escola Secundária de Loulé, estava há dias sentado no sofá - como quase todos os portugueses que levaram a sério a ordem para ficarem em casa - a ver as notícias cada vez mais assustadoras. Sentiu que podia fazer mais do que apenas cumprir a sua parte de observador distante. Formado em engenharia eletrónica, este algarvio de 44 anos começou a pensar como podia ajudar “os profissionais de saúde, os verdadeiros heróis que vão todos os dias ao encontro do perigo”. Queria participar na luta, com os meios ao seu alcance.

No Facebook encontrou o Movimento Maker, “um grupo que então tinha cerca de 500 seguidores e agora já tem 12 mil” de gente com espírito de engenhocas e curiosidade científica e começou a ver “que havia pessoas a fazer viseiras para os técnicos de saúde”. Com uma impressora 3D em casa, Arlindo Martins lançou mãos à obra.

No dia 23 de março, uma segunda-feira, conta, fez a primeira viseira e publicou o resultado na sua página de Facebook. No dia a seguir pediu à diretora da escola onde trabalha a impressora existente nesta instituição e começou imediatamente a imprimir com duas máquinas em casa.

E a partir daqui a produção doméstica começou a crescer exponencialmente. “Pelo facto de ter posto no Facebook, uma amiga minha, a Marília, do Loulé Criativo, viu e decidiu juntar-se. Há uma impressora na sede da associação e ela quis participar, até porque também estava à procura de uma ideia para ajudar “. Quando Arlindo foi ver o espaço da associação, num velho palácio recuperado, perto da sua casa, percebeu que era o local ideal para dar mais velocidade à impressão de viseiras em 3D. Uma vizinha, moradora a 500 metros do local, sabendo da iniciativa, ofereceu também uma impressora. “Isto foi uma coisa rápida, espontânea a ver o que dava. E várias pessoas contribuíram com material: elásticos e acetato”. Uns dias depois, a Câmara Municipal de Loulé também aderiu ao projeto e “a partir daí, e com o envolvimento de todas as áreas da câmara, foi ainda mais rápido”. O município encomendou mais duas impressoras, e os clubes Rotary do Algarve juntaram-se e compraram uma outra máquina que está a funcionar no palácio Gama Lobo.

Produção amadora, mas validada

Na última semana, sete impressoras debitaram viseiras de PLA (um material biodegradável) a um ritmo de 1h20 cada uma para viseiras abertas ou 1h50 para viseiras fechadas. Arlindo Martins estima que desde o início caseiro do projeto até sexta à noite já tivessem sido entregues quase 400 peças a profissionais de saúde, à Santa Casa da Misericórdia, INEM, Centros de Saúde e entidades ligadas à área. “Basta que nos enviem um email e combinamos o momento em que podem vir aqui buscar”. Todo o material é fornecido gratuitamente. “Nunca me passou pela cabeça ganhar dinheiro com a miséria de alguém. Não recebo um cêntimo enquanto estivermos em estado de emergência”, explica. Num momento em que toda a sociedade se mobiliza para ajudar, com fábricas a reconverterem-se para responder às novas necessidades, também este projeto envolve a boa vontade de muita gente: “O Loulé Cópia trouxe cerca de 500 acetatos, a Universidade do Algarve também trouxe muitos. E há outras pessoas que têm trazido- até tenho falado com amigos de curso que não via há 20 anos”.

No entanto, apesar de haver muitos bons samaritanos disponíveis, Arlindo explica que há limites para a possibilidade de aceitar ajuda, por exemplo quando se trata da presença nas instalações. Neste momento, a equipa são cinco pessoas e seria necessária pelo menos mais uma “mas é muito difícil, porque é um compromisso muito grande. A pessoa que viesse para aqui tinha que ter estado pelo menos 14 dias de quarentena e tinha que ter uma noção perfeita da necessidade de estar completamente isolada e ter cuidados de higiene muito rigorosos para não provocar uma contaminação”.

Embora sendo de produção amadora, as viseiras são, explica Arlindo Martins, apropriadas para o fim a que se destinam: defender os portadores de um vírus altamente contagioso e ajudar a travar a propagação da covid-19. Por isso, as medidas preventivas nas instalações e com as pessoas que participam no projeto são também elas rigorosas. “A minha mulher é investigadora no Centro de Ciências do Mar e sabe como estes processos funcionam. É ela a responsável pela desinfeção do espaço e das viseiras, antes de saírem para entrega”. As viseiras foram validadas pela Associação Regional de Saúde (ARS) do Algarve para poderem ser entregues a profissionais de saúde, o que significa que são apropriadas “e aguentam desinfeções, podendo ser reutilizadas”.

Um soco no estômago

O casal está de momento a viver isolado, com a filha à distância, para se proteger de contágios e as deslocações para fora do espaço onde é feita a produção dão-se “com mil cuidados”. E todos os voluntários que trabalham ali estão bem cientes do sacrifício acrescido de não se poderem permitir situações de risco. “Sabia que isto tinha que ser feito com cuidado e que exige sacrifício, mas poder ajudar é muito bom”, resume Arlindo Martins. “Nunca me perdoaria se estivesse em casa sabendo que poderia contribuir de alguma forma”. Desde que criou este posto de trabalho no palácio Gama Lobo, o professor de liceu está a trabalhar todos os dias das 8h00 às 00h00, deixando as máquinas ligadas até às 2h da manhã. “Estarei aqui enquanto fizer falta e enquanto o vírus não me apanhar”, garante.

Mas, diz Arlindo Martins, “os verdadeiros heróis são os profissionais de saúde e as pessoas que não podem ficar em casa e estão expostos ao perigo. Trabalhamos para ajudá-los”. Na sexta à tarde sentiu que perdeu uma batalha “contra este vírus que ataca os mais fracos”. Tinham acabado de sair notícias de um lar de terceira idade numa pequena localidade perto, Boliqueime, onde 21 idosos tinham contraído covid-19. “Foi um soco no estômago. Tinha enviado quinze viseiras para este lar a 1 de abril. Se tivesse começado a trabalhar duas semanas mais cedo, se calhar tinha feito a diferença”.

É uma corrida a contrarrelógio. Mas desde sexta à noite com uma maior vantagem para a equipa dos bons, os que querem travar o coronavírus. Uma RAISE 3D, também comprada pela câmara de Loulé, chegou às instalações do Palácio Gama Lobo na madrugada de sábado. E no domingo de manhã, Arlindo Martins conta que o dia foi duro, mas fizeram 100 viseiras.

Enquanto as impressoras, cada vez mais, debitam material de proteção, os exemplos de apoio e solidariedade vão chegando de todo o lado. Alguns destacam-se. “Há coisas que são realmente importantes. Na sexta, fomos avisados pelo fornecedor em Vila Nova de Gaia que não podiam entregar a impressora durante o dia, só iriam entregar na segunda. Então uma pessoa da Câmara de Loulé foi lá diretamente buscar, porque senão iríamos perder dois dias inteiros de trabalho daquela máquina”. Numa luta em que todos os minutos contam e toda a ajuda é pouca, Arlindo Martins só espera que as pessoas percebam que nas próximas duas semanas a batalha é crucial e pede aos algarvios que sejam heróis de sofá: “Não saiam nem para comprar uma alface!”.

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