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Covid-19. Há doentes que se sentem bem mas correm risco de vida
Sociedade 3 min. 25.03.2021 Do nosso arquivo online

Covid-19. Há doentes que se sentem bem mas correm risco de vida

Covid-19. Há doentes que se sentem bem mas correm risco de vida

Photo: Guy Jallay
Sociedade 3 min. 25.03.2021 Do nosso arquivo online

Covid-19. Há doentes que se sentem bem mas correm risco de vida

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Não é tão raro assim e se não se for ao hospital pode-se "morrer em casa". Como são frequentes as sequelas e algumas podem ser incapacitantes. O infeciologista português Fernando Maltez explica.

Há pessoas infetadas com o vírus pandemia, que se sentem relativamente bem, geralmente têm apenas febre, mas na verdade estão em perigo de vida, devido à grave pneumonia covid que se desenvolveu em silêncio no seu organismo. Esta situação não é tão rara assim, entre os doentes infetados pelo SARS-CoV-2, declara ao Contacto Fernando Maltez, diretor do Serviço de Infeciologista do Hospital Curry Cabral, em Lisboa. 

 “Há de facto uma grande desproporcionalidade entre as queixas de certos doentes e o que vamos encontrar nas radiografias. Temos um doente com um quadro clínico aparentemente benigno, só febre, e depois as radiografias apresentam pneumonias gravíssimas, situações catastróficas”, descreve Fernando Maltez (na foto em baixo). 

Apesar da “hipoxemia silenciosa”, como lhe chamam, ocorrer também em certas infeções atípicas causadas por bactérias, “como a legionella ou certas clamídias”, no SARS-CoV-2 “é muito frequente” e a “dissociação é muito marcante”, frisa este infeciologista admitindo que os doentes “podem morrer em casa”. Questionado sobre a vantagem de as pessoas infetadas terem um oxímetro em casa para medir os níveis de oxigénio no sangue, Fernando Maltez admite “ser uma boa cautela”.

Sequelas: uns têm outros não

Após a infeção tratada há quem permaneça com sintomas e quem não tenha queixa nenhuma. Qual a razão para tal?

“É a grande variabilidade de sintomatologia e grande variabilidade dos quadros clínicos que contribui para essas diferenças”, explica Fernando Maltez. A nível geral está estudado que há determinadas características e historial clínico que parecem indicar uma tendência para um pior prognóstico da covid-19, refere este especialista. “Pessoas com mais de 65 anos, ou com comorbidades, como por exemplo, trissomia 21 ou a drepanocitose [doença no sangue], serem do sexo masculino, terem determinado grupo sanguíneo ou pertencerem a determinada etnia como os povos da India, do Bangladesch ou Paquistão”. 

Este especialista realça que apesar da doença afetar mais as mulheres, a infeção é mais severa nos homens, causando maior mortalidade.


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Pobres possuem maior risco

“Há outros trabalhos que mostram que existe maior gravidade clínica nas pessoas com maior grau de pobreza, e isto está ligado a uma maior subnutrição que afeta as capacidades imunitárias. Por outro lado, o ambiente onde vivem possui geralmente más condições higiénicas e sanitárias, aumentando o risco de gravidade”, frisa o infeciologista.

Já a “resultante clínica de qualquer infeção” resulta de três fatores: “a carga viral com que o individuo se infeta; a genética, o indivíduo pode ter predisposição genética para infeção, se a tiver esta pode ser mais grave; e o ambiente do indivíduo. Se este viver numa situação de maior pobreza, e no tal ambiente pouco salubre, mais uma vez o risco de gravidade aumenta”.

Sobre as sequelas após a alta, Fernando Maltez explica que “quando os sintomas persistem por mais de seis semanas designa-se esta fase por ‘covid aguda’”, e se permanecem por mais de 12 semanas chama-se ‘covid crónica’”. 


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E quais os sintomas mais comuns? Além da persistência do “cansaço desproporcional ao quadro clínico” há outros sintomas comuns que se instalam na ‘covid aguda’, como falta de concentração, insónia, fadiga muscular, dores musculares, são sintomas que podem causar limitações no dia a dia ou em certas atividades e que permanecem durante a ‘covid crónica.’  “Há sintomas que podem ser mesmo incapacitantes”, admite Fernando Maltez.

Para o diretor do Serviço de Infeciologia do Hospital Curry Cabral a síndrome pós-covid está ligado à fase covid crónica, que pode gerar inflamações múltiplas que geram "perturbações no sistema nervoso central, neuro-cognitivas, alterações pulmonares que limitam a capacidade respiratória". 


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Estas inflamações que afetar o coração e provocar "perturbações do ritmo cardíaco o que é perigoso". Até agora são mais frequentes a nível pediátrico mas também já foram registadas em jovens adultos. Tal como as que surgem na fase aguda devido às inflamações nos mesmos órgãos "podem provocar insónias, perturbações na concentração e memória, cansaço, fadiga muscular podendo ser igualmente incapacitantes.  Para já, “não se sabe por quanto tempo essas alterações podem permanecer, se durante meses ou anos”, vinca. Como a doença da pandemia ainda é recente, ainda falta aprender muito sobre ela.

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